Ficou fácil

Cinco jogos, cinco vitórias. Apenas um gol sofrido. Vaga na Copa do Mundo podendo ser acertada na próxima partida, dia 6 de junho, em Reykjavik, contra a Islândia. Time que, após tomar um fôlego, começa a renovar as esperanças da torcida. Enfim, a Holanda dá todas as pistas de que, como nas Eliminatórias para o Mundial de 2006, passeará em seu grupo. Sinal de que cada partida tem sido uma exibição de gala? Nem pensar.
Primeiramente, porque boa campanha em Eliminatórias não é garantia de boa campanha em Copa do Mundo – os holandeses fizeram a melhor campanha pré-2006 e naufragaram na Alemanha. Em segundo lugar, a qualidade dos oponentes no Grupo 9 das Eliminatórias europeias é absolutamente questionável, o que se comprova pelo fato de a Escócia, vice-líder do grupo, estar oito pontos atrás da Oranje. A única partida em que o time de Bert van Marwijk passou algum perigo foi contra a Noruega, quando a boa marcação do time ainda comandado por Age Hareide no meio-campo truncou a fluidez holandesa, e o gol da vitória só veio num chute de Van Bommel.
A Escócia, considerada como merecedora de precauções antes da partida em Amsterdã, foi dizimada pela ausência de jogadores importantes, como McManus, e por uma suposta crise, após a partida (Allan McGregor e Barry Ferguson, titulares seguros no time de George Burley, foram flagrados num bar, após a derrota, e desligados da delegação). Não só é plausível pensar que a Holanda não terá dificuldades contra os islandeses, mesmo fora de casa, para vencer e assegurar a classificação, como é plausível imaginar que o segundo colocado da chave, qualquer que seja, corre riscos de não figurar entre os oito melhores que disputariam a repescagem.
O que também não permite que a equipe laranja seja considerada ruim ou que esteja dominando apenas pela esqualidez dos adversários. E, se o aproveitamento, por enquanto, é de 100%, mérito dos holandeses, que levam a sério as Eliminatórias. O primeiro problema é que ainda não foi desta vez que a defesa foi realmente testada. Stekelenburg, cujas atuações eram esperadas, não foi questionado simplesmente porque quase não participou das partidas contra escoceses e macedônios. A mesma coisa com a dupla Ooijer-Mathijsen, ou com Van Bronckhorst. E também deve-se ter cuidado nas opiniões sobre Van der Wiel, que realmente teve personalidade, atuou bem e virou esperança de solução para a lateral direita, mas também não enfrentou times que exijam muito.
O segundo problema é daqueles sobre os quais se diz que são o que todo técnico queria ter. Poucas seleções no mundo têm a variedade de bons jogadores, no meio e no ataque, como a holandesa. Em forma, Van Bommel, Van der Vaart, Sneijder, Kuyt, Robben e Huntelaar são valiosos em qualquer equipe planeta afora. E aí mora o cerne da questão: o 4-2-3-1, antes considerado a panaceia para conseguir escalar todos, começou a não acomodar alguns.
Tanto que Sneijder e Van der Vaart, em má fase no Real Madrid – aquele por problemas pessoais, como a separação conjugal; este simplesmente por deficiências técnicas e falta de ritmo de jogo -, ficaram na reserva contra a Escócia, deixando Van Persie com a função de armar o jogo. O atacante do Arsenal satisfez, mas não foram poucas as vozes a pedir a volta de Sneijder. Por sua vez, o nativo de Utrecht tem capacidades na armação, mas, como a Eurocopa mostrou, se sai muito melhor no papel de box-to-box. Pensar as jogadas seria a especialidade de Van der Vaart, mas como este pena em Chamartín, fica difícil escalá-lo.
Não bastasse, o domínio holandês começa a dar à torcida a impressão de que o 4-2-3-1 seria cauteloso demais. Afinal, com os meias e atacantes impondo facilmente seu jogo (a Escócia sofreu 2 a 0 nos últimos quinze minutos da primeira etapa; a Macedônia, em 41 minutos, já sofrera 3 a 0), para quê insistir na dupla Van Bommel-De Jong? Alguns defendem a volta ao 4-3-3 velho de guerra, enquanto outros pensam até em um 3-5-2, à moda do Ajax de 1995, com Van Bommel recuado para a posição de líbero. E retorna a questão inicial: não é melhor esperar um amistoso contra um rival mais respeitável para, aí sim, tomar conclusões sobre o caminho a seguir?
A terceira questão, por ora, tem sido bem conduzida por Van Marwijk. O treinador já deixou claras duas coisas: quem não estiver atuando em seu clube, dificilmente atuará na seleção. E, se o jogador em questão não suportar a reserva e reclamar, será melhor abandonar o grupo, para não desanuviar o bom ambiente entre o elenco. Os atletas até têm compreendido o recado, por enquanto, mas algumas atitudes mostram ligeiros descontentamentos – notadamente, a de Sneijder, que, tendo atuado somente por 25 minutos contra a Escócia, saiu do gramado da Amsterdam ArenA furioso. Publicamente, treinador e meia fizeram questão de dizer que foi uma atitude pessoal, um desabafo contra a oportunidade pequena, e que o jogador sequer reclamou diretamente contra outra pessoa, no vestiário. Mas, em se tratando de Holanda, sempre é bom um pé atrás.
Enfim, a Holanda recebeu a dádiva de atuar numa chave fácil nas Eliminatórias – e a de ter Kuyt, Huntelaar e Robben em fase privilegiada. Garantindo a classificação, Van Marwijk terá um ano para achar as soluções. Achá-las pode resultar num time respeitável a desembarcar na África do Sul. Não aproveitar o tempo generoso dará numa equipe que não resistirá contra um oponente mais forte e mais inteligente. Tempo para resolver tudo, ele tem.
Ficou difícil
Difícil talvez seja até um eufemismo. A situação da Bélgica no Grupo 6 das Eliminatórias ficou próxima do impossível. Tudo devido às duas derrotas contra a Bósnia. Diante de uma equipe que contou com um imparável Edin Dzeko, as atuações ruins fizeram com que os Diabos Vermelhos caíssem para a quarta posição. Caso tivessem arrancado pelo menos uma vitória em casa e um empate fora, estariam em terceiro, com 11 pontos. Agora, em quarto lugar, com apenas sete, o time depende não só das próximas vitórias, mas de tropeços de Espanha e Bósnia. Pior: a próxima partida, fora de casa, será simplesmente contra a Espanha. Os reveses encarregaram-se de quase arruinar as esperanças de voltar a um Mundial. Triste, para uma geração que era a depositária de tantas esperanças.
Colaboraram para o 4 a 2 sofrido em Genk, sem dúvida, algumas ausências, como a de Van Buyten, que deixou a seleção na véspera da partida do último sábado, por problemas familiares. Mas a escalação desorganizada de Rene Vandereycken foi considerada a falha principal. Embora não tenham criticado abertamente Vandereycken, Sonck e Simons apontaram o excesso de lançamentos longos e bolas altas. O atacante disse “foram pedidos lançamentos longos para Igor e Fellaini, mas às vezes é necessário jogar com bola no chão”; o zagueiro, “quando se joga só com bolas altas, é sinal de que não há mais recursos.” Além disso, mesmo que a formação em 4-4-2 fosse a usual, jogadores fundamentais ficaram fora dos lugares onde rendem melhor: Fellaini na armação, Dembélé escalado na meia-esquerda, Igor de Camargo como parceiro de Sonck no ataque…
O pior é que o gol de Dzeko, logo a sete minutos de jogo, nem foi o fator decisivo. Tanto que a Bélgica lutou e conseguiu empatar no segundo tempo, com Dembélé. Os problemas vieram com a paralisação da partida logo após o gol, por cinco minutos, devido aos sinalizadores atirados ao gramado da Crystal Arena pelos torcedores bósnios. No retorno da partida, pane belga. Sorte da Bósnia, que marcou três gols em dez minutos e definiu a partida. Nem mesmo o pênalti convertido por Sonck aplacou a raiva que tomou conta de torcida e imprensa após o jogo. O alvo principal foi Vandereycken, e os boatos de uma demissão começaram a pulular. Jean-François de Sart, atual técnico da seleção sub-21, poderia ser guindado ao time principal, ou Franky Vercauteren, desempregado desde 2007, assumiria a vaga.
Na partida de Zenica, falsas esperanças não tiveram vez, já que, aos 15 do 1º, Dzeko já fizera 2 a 0 para os donos da casa. A escalação também não era a ideal, já que Defour e Igor, machucados, ficaram de fora, dando lugar a Witsel e Mirallas. E, no segundo tempo, o meia do Standard Liège ainda foi expulso. O gol de honra, marcado por Gill Swerts, foi tardio. E, com duas derrotas, não há otimismo que dure. Nem a perspectiva de poder superar os turcos no confronto direto anima mais a Bélgica, que já começa a pensar em preparação para a Euro 2012. Seja com Vandereycken, seja com outro treinador – a definição sai na próxima semana -, a nova geração não deve ser queimada. Mas, provavelmente, não será desta vez que a Bélgica retornará a uma Copa.



