Holanda

Falhas dentro de campo, caos fora dele: via-crúcis holandesa

As vitórias contra Polônia e Áustria, em amistosos às vésperas da Euro 2016, davam duas impressões sobre a seleção holandesa. A primeira era de que a renovação estava quase completa: aos poucos, a geração vice-campeã mundial em 2010 sai de cena, à francesa. A segunda: por mais medíocre tecnicamente que seja (e cá entre nós, é), o grupo de jogadores que vai tomando conta da escalação da Laranja seria capaz de chegar à Copa de 2018. Considerando que a França é favorita para vencer o grupo e garantir vaga direta na Rússia, a Oranje disputaria a segunda colocação – e o lugar na repescagem – com uma Suécia duramente atingida pelas despedidas (Andreas Isaksson, Kim Källstrom e, acima de tudo, Zlatan Ibrahimovic), cuja geração mais jovem decepcionou no torneio olímpico masculino. E os outros adversários não causam temor.

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Ou seja: o horizonte parecia mais claro. Parecia, no pretérito imperfeito mesmo. Porque a derrota por 2 a 1 para a Grécia, em plena Eindhoven, no amistoso desta quinta, trouxe de volta numa carrada só todos os traumas levantados há aproximadamente um ano, quando se consumou a ausência na Euro 2016, e reavivou o sinal de alerta para torcida e imprensa. A quatro dias na estreia pelas Eliminatórias europeias do Mundial (e num duelo fundamental: justamente contra a Suécia, fora de casa), a seleção laranja novamente viu falhas de posicionamento de marcação, tanto no meio-campo, quanto na defesa. Somando-se à semana explosiva que a federação viveu internamente, dá para imaginar o efeito de uma derrota na próxima terça, no Estádio da Amizade, em Solna.

Para tornar as coisas mais dolorosas, o começo holandês contra a seleção grega foi promissor. Mesmo com o time helênico escalado num 4-5-1 previsivelmente defensivo e compactado, notou-se troca rápida de passes entre meias e atacantes durante boa parte do primeiro tempo. Mais do que isso: Wesley Sneijder compensou a falta de mobilidade com inteligência, deixando a rapidez para Georginio Wijnaldum, que se credencia como líder nesta nova fase (não à toa, criou chances e avançou, a ponto de marcar o gol, “por sorte” – a bola bateu nele antes de entrar). Vincent Janssen mostrou-se mais técnico do que outros atacantes: além de ficar na área, volta para ajudar e ser opção de jogadas. Nos lados, Steven Berghuis e Quincy Promes (principalmente este) também apareciam. Tudo porque Kevin Strootman dava como volante a segurança que se espera dele. Assim dava certo, assim a Oranje chegara ao primeiro gol, assim podia até ter ampliado.

Mas algumas inversões de jogo da Ethiniki (apelido da seleção grega) já indicavam: a defesa deixava buracos absurdos, como sempre. Bastou o meio-campo relaxar na marcação após o gol de Wijnaldum para alguns jogadores crescerem, como Kostas Fortounis e Andreas Samaris. Um vacilo, ainda no primeiro tempo, foi suficiente: Vassilis Torosidis cruzou para a área, Jeffrey Bruma não se antecipou, Joël Veltman não acompanhou… e Kostas Mitroglou entrou livre para cabecear e empatar. Na etapa final, com as várias alterações, tudo fazia crer que um empate insosso viria. Só que Bruma errou de novo: num carrinho no meio-campo, deixou a bola com Mitroglou. Este avançou livre, chutou, o goleiro Jeroen Zoet (mais uma chance como titular) rebateu para o meio da área, e o substituto Giannis Gianniotas marcou o gol da vitória.

Era a quinta derrota em 11 jogos da Laranja sob o comando de Danny Blind. A quinta derrota SEGUIDA em casa – marca tão ruim não acontecia desde 1933! E para a Grécia, última colocada em seu grupo nas eliminatórias da Euro recém-passada, com direito a quedas para Ilhas Faroe e Luxemburgo. As vaias da torcida ao fim do jogo foram mais do que merecidas. Assim como foi justo o reconhecimento das falhas pelo capitão Sneijder, à TV holandesa: “Não podemos dar tanto espaço assim, no futebol de alto nível isso é inaceitável”.

Se os problemas se restringissem apenas às quatro linhas, já seria um abacaxi considerável para Danny Blind descascar com os convocados. Mas fora delas, a coisa está até pior. A semana testemunhou os organogramas da federação e da comissão técnica sofrerem duros abalos. Primeiro, foi com os auxiliares de Blind: Ruud van Nistelrooy já saíra, e há algumas semanas Dick Advocaat decidiu voltar a um time que o chamasse de técnico – no caso, o Fenerbahçe. Então começou o drama: o ex-goleiro Hans van Breukelen, diretor técnico da federação, convidou Ruud Gullit para substituir Advocaat como auxiliar de Blind.

Um acerto esteve próximo, mas no fim a negociação fracassou.  E não só fracassou, como Gullit jogou mais lenha na fogueira. Segunda-feira passada, num programa de entrevistas, o homem que já não tem mais suas tranças revelou: Danny Blind perderia seu auxiliar restante, já que Marco van Basten ligara a Gullit dizendo que fora convidado para assumir um cargo na Fifa e aceitaria. A contragosto pelo vazamento inesperado, Van Basten confirmou: só fica na comissão técnica até as datas Fifa de novembro. Fica para a federação a tarefa de arranjar até lá dois auxiliares para o treinador, obviamente descontente com as defecções: “Havíamos assinado um contrato juntos, e aí naturalmente supõe-se que iremos até o fim. Eu não teria saído”. Isso, porque o próprio Blind confirmou ter recebido uma oferta de um time do Oriente Médio, que foi recusada: “Estou focado no meu trabalho aqui. É o que conta”.

O leitor quer mais drama? Tome mais drama: na federação, pressionado desde o vexame nas eliminatórias da Euro, o diretor de futebol profissional, Bert van Oostveen, pediu demissão do cargo. Enquanto vai para um lugar mais burocrático da KNVB – secretário-geral -, a lacuna já tem um substituto definido: Gijs de Jong, que era diretor operacional desde 2003. De Jong, por sinal, já tem outro incêndio para apagar: Hans van Breukelen deseja demitir Hans Jorritsma, responsável pela logística dentro da comissão técnica, há 20 anos na seleção. Só falta combinar com Danny Blind e os jogadores, todos signatários de uma carta que pede a manutenção do respeitado Jorritsma.

Com o caos fora de campo e as falhas dentro, a Oranje já começa as eliminatórias da Copa sob altíssima pressão. E as palavras de Danny Blind deixam ver o quanto ele sabe disso: “Foi uma semaninha dura. Mas o que importou e importa é a Suécia. O foco e a meta seguem os mesmos”. Mais uma derrota, e talvez os auxiliares não sejam os únicos a deixarem a seleção, tal a pressão que haverá. Se é que ela já não é total.

Chamada Trivela FC 640X63

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