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Entidade mística do futebol holandês: o atacante de segunda divisão

Durante algum tempo, a Trivela escreveu em sua newsletter um texto bem humorado sobre personagens estereotipados: as entidades místicas do futebol brasileiro. Aquele técnico que assume um time desesperado, fazendo-o obter uma sequência de bons resultados sob seu comando; o goleiro reserva que assume o protagonismo nas cenas lamentáveis ao chegar com tudo – de preferência, com uma voadora; o meio-campista latinoamericano (de preferência, argentino ou chileno), que foi bem no campeonato de seu país e que chega para ser o “cérebro” da equipe brasileira, normalmente decepcionando na tarefa; essas foram algumas entidades descritas.

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Pois a segunda divisão da Holanda, nesta temporada, está fazendo vicejar como poucas vezes uma entidade muito característica do futebol holandês: o atacante de segunda divisão. Em geral, ele é puramente finalizador: ou seja, não se espere jogadas de embasbacar a torcida. Em geral, cai no gosto dos adeptos – caso o clube seja promovido, será desse atacante o rosto que simbolizará a campanha do acesso. E seus feitos na carreira raramente ultrapassarão a barreira do futebol holandês. Se deixar o país, é para centros periféricos, ou para as divisões inferiores de países tradicionais da Europa. Vestir camiseta laranja? Só se for a do Volendam; raros deles têm carreira regular na seleção do país.

E nesta temporada 2015/16, passadas 26 rodadas, praticamente todos os clubes que se aproximam da disputa do acesso (seja via título da Eerste Divisie, seja via Nacompetitie) têm um “atacante de segunda divisão” para chamarem de seu. Na tabela regular, dá para falar que um time está bem destacado na rota do troféu. Não que o domínio seja o mesmo exercido pelo NEC em 2014/15 – a maior pontuação de uma campanha na era profissional do futebol holandês, em todas as divisões (101!). Mas o Sparta Rotterdam já abriu nove pontos de vantagem na liderança (tem 61), e parece maduro para voltar à elite do Campeonato Holandês, onde não está desde 2009/10.

Os Kasteelheren (“Donos do Castelo”, em holandês – referência ao nome do estádio, Het Kasteel) têm história no futebol holandês: fundado em 1888, vinte anos antes do rival citadino Feyenoord, o Sparta jorra tradição, mesmo sendo inegavelmente pequeno. Pelas categorias de base, vestiram a camisa listrada alvirrubra Kevin Strootman, Memphis Depay e Jetro Willems. Sem contar a passagem rápida de Cássio por lá: na temporada 2008/09, o atual goleiro do Corinthians foi emprestado aos Rotterdammers pelo PSV.

Até pela tradição, fica mais fácil para o Sparta ter uma estrutura que lhe permita sonhar com o acesso. O diretor técnico é Pim Verbeek, que até esteve em Copa do Mundo (treinou a Austrália em 2010); comandando o time em campo, está Alex Pastoor, que fez carreira em clubes médios e pequenos do país; e a própria espinha dorsal do time é formada por gente “cascuda” em matéria de Eerste Divisie, como o meio-campista Paco van Moorsel.

Mas o destaque da campanha, não adianta negar, é o “atacante de segunda divisão” que o Sparta tem: com 20 gols, Thomas Verhaar é o protagonista. Surgido no VOC Eindhoven, clube amador, Verhaar foi contratado em 2014, quando estava emprestado ao Dutch Lions, da quarta divisão dos Estados Unidos. E agora, já com 27 anos, simboliza a campanha positiva do Sparta: mesmo se o time jogar fora os nove pontos de frente, terá vaga garantida na Nacompetitie, a repescagem de acesso/descenso, como campeão do segundo período (se o leitor quer lembrar o modo de disputa da Nacompetitie, favor ler o que a coluna escreveu em maio do ano passado. Sim, é de dar nó nos neurônios).entida

Só que o vice-líder VVV-Venlo (52 pontos) também tem seu destaque num “atacante de segunda divisão”: Ralf Seuntjens, goleador maior da Jupiler League atual, à frente de Verhaar com 22 gols. Mesmo sem serem “campeões de período”, os Venlonaren teriam acesso aos play-offs por serem um dos quatro clubes mais bem colocados ao final da temporada. Isso, se continuarem com a boa campanha. O que não parece ser difícil, até porque os aurinegros têm mais um centroavante despontando: Vito van Crooij, 20 anos, que marcou quatro gols nos últimos quatro jogos (incluindo o de honra, na derrota por 3 a 1 para o líder Sparta Rotterdam).

Por sinal, a rodada retrasada marcou o fim do terceiro período, que teve como “campeão” um clube que não sabe o que é disputar a Eredivisie há 39 anos: o FC Eindhoven. E os alviazuis também têm um jogador que lhes garante os gols: Jinty Caenepeel, que já fez 13 gols. De quebra, a equipe treinada por Mitchell van der Gaag ainda está na quarta posição da tabela regular, com 47 pontos. E poucas vezes esteve tão vivo o sonho de refazer, enfim, o “clássico da cidade das luzes” com o rival rico PSV – que é até parceiro em algumas empreitadas (PSV e FC Eindhoven mantiveram equipes conjuntas no futebol feminino e em campeonatos de base).

Logo atrás do vice VVV-Venlo (e acima do FC Eindhoven), vem o NAC Breda (46 pontos). E os Bredanaren, rebaixados na temporada passada, esbanjam nos “atacantes de segunda divisão” para fazerem o bate-e-volta. Um deles é outro representante da família Seuntjens nos campos da segunda divisão: Mats Seuntjens (10 gols), irmão de Ralf. O outro já é velho conhecido da Eerste Divisie: Sjoerd Ars (12 gols), que participou dos títulos de Zwolle (2011/12) e NEC. Inclusive, Ars protagonizou história até inacreditável: foi o goleador na segunda divisão da temporada passada (28 gols), destacando-se no título do NEC. Começou 2015/16 na Eredivisie, mas… aceitou a proposta do NAC Breda, para voltar à segunda divisão.

Campeão do primeiro período, o Volendam aposta nos gols de Bert Steltenpool e, principalmente, no ídolo Jack Tuyp. Que, por sua vez, foi artilheiro da Eerste Divisie em… três temporadas (2007/08, 2010/11 e 2012/13). As histórias de Ars e Tuyp mostram como é o “atacante de segunda divisão da Holanda”: dificilmente um craque, mas experimente tentar subir para a divisão de elite sem ele…

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