Em casa, tudo bem

O Anderlecht vive, nas últimas semanas, duas realidades. Nos torneios continentais, os Mauves tiveram um desempenho absolutamente desonroso. O que se viu, nos play-offs da Liga dos Campeões, foi um time fraco, sem poder de reação algum, com ataque tímido e defesa bastante insegura. Enfim, um prato cheio para que o Lyon dominasse plenamente os dois jogos e ganhasse a merecida vaga na fase de grupos. Já na Bélgica, o clube sente-se absolutamente em casa.
Prova disso é o desempenho na Jupiler League: um início soberano, sendo, até agora, o único clube que ainda não perdeu pontos (quatro jogos, quatro vitórias). Além disso, o time tem suas principais peças mostrando desempenho satisfatório, para um começo de temporada, além da coesão entre os setores. Bem diferente do rival Standard Liège, adversário desta rodada, que ainda não conseguiu acertar alguns pontos fundamentais. Fica, então, a pergunta: qual é a cara real do Anderlecht, nesta temporada?
A despeito do vexame na LC, o sucesso doméstico é notável.. No gol, enquanto Daniel Zitka ainda se recupera de lesão no tornozelo, Silvio Proto ganhou a chance de ficar entre os titulares, após retornar de empréstimo ao Germinal Beerschot (e, diga-se de passagem, após as atuações por vezes irregulares de Davy Schollen). Pelo menos no início, Proto vai conseguindo acrescentar seu espírito considerável de liderança a uma linha defensiva absolutamente entrosada.
Seja com o hondurenho Bernardez jogando pela lateral-esquerda, ou com Jelle van Damme recuado para o mesmo setor, ou até com o tcheco Ondrej Mazuch escalado como zagueiro central, o trio Deschacht-Juhász-Wasilewski permanece firme e forte como espinha dorsal do setor. Jogando juntos há dois anos, os três aumentam a segurança na retaguarda dos Paars-wit, a menos vazada da liga belga até agora (média de meio gol sofrido por jogo).
Se não bastasse, a dupla de cabeças-de-área formada por Gillet e Biglia fortalece ainda mais a marcação, sem deixar de prover qualidade no primeiro passe para a armação de jogadas. E aí encontra-se o ponto principal do desempenho soberano do RSCA no próprio país: o domínio dos armadores. Não é exagero: Mbark Boussoufa e Matías Suarez estão entre os melhores jogadores atuando na Bélgica, por enquanto.
Boussoufa, principalmente. O marroquino nascido em Roterdã começou a temporada atual como encerrara a anterior: jogando muito, sendo o cérebro da equipe. Pode não ser um armador clássico, daqueles que sabe levar o jogo a seu ritmo pessoal, mas sua impetuosidade permite até adiantar-se ao ataque, transformando-se numa espécie de terceiro atacante. E que atacante, diga-se: o “Petit Marocain” tem a média atual de um gol por jogo. Nas quatro partidas dos Mauves, Boussoufa sempre deixou o dele.
A ajudar Mbark, está Suarez. Mesmo mais discreto, o argentino também tem a capacidade de não só criar jogadas de ataque, mas também concluí-las. Além disso, o meio-campista nativo de La Falda foi, talvez, o único a escapar dos vexames contra o Lyon com a imagem menos chamuscada, ao marcar os dois únicos gols dos belgas no placar agregado. Diante de dois armadores assim, pouco impressiona que o não menos elogiável Tom de Sutter acabe sendo eclipsado, no ataque – junto dos parceiros periódicos, como o brasileiro Kanu ou a revelação Romelu Lukaku.
Para o clássico no Constant Vanden Stock, deve ser o suficiente. Claro que o Standard Liège tem jogadores igualmente capazes de desequilibrar a partida (só no meio-campo, há dois: Defour e Witsel. Fora a dupla Jovanovic-Mbokani). Porém, os Rouches ainda estão sofrendo demais na defesa. Sem a liderança de Onyewu a comandar a zaga, Laszlo Bölöni ainda pena para conseguir a melhor formação no setor – sem contar que as periódicas mudanças de formação, às vezes deixando o time num desprotegido 4-1-3-2, não ajudam a minorar o trabalho de Sinan Bolat, no gol. É o ponto a ser melhorado, caso o Standard queira credenciar-se à briga em seu grupo, na Liga dos Campeões.
Voltando ao Anderlecht, porém, a questão de ser o melhor em seu país não foi suficiente para pelo menos vender caro a vaga nos grupos da LC ao Lyon. Sim, uma vitória no clássico ratificaria que, em casa, está tudo bem. Mas já se sabe que é só lá.
AZ: De volta ao bom caminho?
A derrota para o Heracles, no jogo de abertura da campanha na Eredivisie, deixou o ponto de interrogação na cabeça de quem acompanha o AZ: será que só a saída de Louis van Gaal já serviria para desmantelar os Alkmaarders? A continuação do campeonato encarrega-se de mostrar que, no mínimo, é cedo para fazer tal observação.
Porque, três rodadas e três vitórias depois, o time de Ronald Koeman já figura na terceira posição da tabela. O mérito principal? Bem, talvez ele incida sobre duas pessoas. A primeira, Koeman. Mostrando que talvez a péssima passagem pelo Valencia, quando tentou impor seu estilo ao time e fracassou fragorosamente, tenha lhe dado boas lições, o irmão de Erwin mudou o mínimo possível na estrutura deixada por Van Gaal.
Houve mudanças, sim, como o retorno de Hector Moreno, recuperado de contusão, ao miolo de zaga, junto de Moisander. Mas a estrutura é a mesma: time no 4-4-2, meio-campo predominantemente marcador, mas com qualidade na saída de bola, além de um ataque razoável. Com tais predicados, o entrosamento fatalmente retornaria.
Como retornou a boa fase de Mounir El-Hamdaoui. Aliás, não retornou: sempre esteve lá. O marroquino permanece sendo a principal estrela da equipe. Prova disso foi seu desempenho contra o Heerenveen: fora de casa, o atacante foi o autor dos dois gols da vitória sobre os frísios. Mais: desde o último jogo da temporada passada (3 a 1 no mesmo Heerenveen), El-Hamdaoui sempre deixa um nas redes em jogos do AZ. O 2 a 0 da semana passada foi o sexto jogo consecutivo.
Enfim, após um solavanco, o AZ parece pronto para tentar sonhar mais concretamente com o bicampeonato – e, por que não, com Olympiacos e Standard, por uma vaga nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Se o time não é fora-de-série, saco de pancadas também não é.



