Holanda

Ele venceu (por ora)

“A corte de Amsterdã decidiu, hoje, num rito sumário, dar o veredito em última instância no conflito entre Cruyff e os outros comissários do Ajax. A corte julga plausível que, numa eventual constituição de um conselho, a decisão mencionada do Conselho Deliberativo especial, para nomear Van Gaal e Sturkenboom para serem diretores estatutários do Ajax, foi destrutiva. Portanto, a Corte proibiu os outros comissários de seguir com esta decisão, como pena pela soma de alguns atos arbitrários.”

A nota que comunicava a decisão da Justiça holandesa foi até sucinta: apenas mais dois parágrafos, além do que abriu esta coluna. Mas seu resultado prático teve um efeito monumental sobre o Ajax. Porque representou a primeira de várias vitórias que Johan Cruyff teve, nesta semana, em busca do seu objetivo máximo: conseguir exercer, no clube onde começou e fez história, a mesma influência que já exerceu no Barcelona – pelo menos, até a chegada de Sandro Rosell ao poder.

Já se escreveu nesta coluna, várias vezes, que a disputa de poder no Ajax era basicamente uma guerra de egos, ao invés de um debate sobre qual o melhor caminho para o clube mais tradicional do futebol holandês. E que essa guerra de egos era, fundamentalmente, entre Cruyff, que não admite outro modo de fazer as coisas que não seja o seu, e alguns membros da diretoria do Ajax, contrários ao crescimento da influência do maior jogador que o país já teve. A contratação de Louis van Gaal, inimigo figadal de Cruyff, para ser o diretor geral do clube (decidida em reunião sem a presença de JC) foi uma tentativa clara de provocação ao “Nummer 14”.

Só que essa ofensiva deu errado. Afinal de contas, Cruyff foi correndo para a Justiça holandesa e entrou com recurso contra a decisão – acompanhado de 15 técnicos dos times de base dos Ajacieden, com nomes como Ronald de Boer, Jaap Stam e Marc Overmars nesse grupo. A Justiça deu seu recado na terça passada, ao decidir-se pela anulação da contratação de Van Gaal e de Martin Sturkenboom, que ficaria como interino até Louis chegar.

E estava aberto o processo de saída dos principais opositores de Cruyff. Começou na quarta-feira: Marjan Olfers, Paul Römer, o presidente Steven ten Have e Edgar Davids, acompanhantes de Cruyff no conselho especial, entregaram seus postos. Nesta quinta, Martin Sturkenboom também se retirou de seu posto – assim como Danny Blind, que era o diretor-técnico interino do clube. Ambos eram obstáculos na entrada mais forte de Cruyff dentro da vida do Ajax. Assim como os outros que faziam parte do Conselho Deliberativo especial. Agora, todos se retiraram. E abriram caminho para Cruyff. Que, por sua vez, já declarou que espera o final dos conflitos: “O jogo está acabado, agora.”

E continuou, pedindo: “Ele (o presidente Steven ten Have) precisa assumir a derrota e dar à comissão técnica o espaço necessário para poder trabalhar sem ações contrárias. Já perdemos muito tempo. Pudemos ver o estilo de jogo do time, nas últimas semanas, e há muitas coisas que precisam ser mudadas em relação aos últimos anos. E, quanto mais cedo, melhor.”

Nisso, Cruyff tem razão. Porque, dentro de campo, o Ajax voltou a sofrer com as turbulências internas. Que tenha sido derrotado pelo AZ na Copa da Holanda, tudo bem. Empate com os Alkmaarders, pelo Campeonato Holandês, aceita-se. Porém, a derrota para o Feyenoord, no clássico, já doeu um pouco mais. E, enfim, o ponto baixo da temporada: a derrota por 2 a  0 para o Utrecht, no domingo passado, quando se viu um time preguiçoso e atrapalhado na Amsterdam ArenA. Se o time de Frank de Boer ainda pretende conquistar o bicampeonato, começar a vencer imediatamente é necessário.

É assim que Cruyff chegará para tentar reencaminhar o clube, começando pela reunião de acionistas do Ajax, nesta sexta. E, de certa forma, não se mostrará tímido na tarefa. Não é à toa que um de seus apelidos é… “De Verlosser” (O Salvador). É o que o clube espera que ele, finalmente, possa ser. Pelo menos, até algum outro diretor do Ajax se enciumar.
 

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Equipe Trivela

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