Egoísta, e daí?

Arjen Robben é, sim, um jogador egoísta. Já recebera críticas a respeito em 2006, logo depois da estreia da seleção holandesa na Copa daquele ano: marcara o gol do 1 a 0 sobre Sérvia e Montenegro, mas sua falta de solidariedade com a bola nos pés fez com que Van Persie o condenasse, por mais que o destaque do nativo de Bedum houvesse sido inegável contra os comandados de Ilija Petkovic.
Então, não há nada de inédito nas alfinetadas que Robben tem recebido, cada vez mais, dentro do Bayern Munique. Primeiro, de Franz Beckenbauer, cuja palavra é lei entre os bávaros; depois, com Jupp Heynckes tirando-o do time titular; e, finalmente, com as críticas cada vez mais abertas dos jornalistas alemães e de ex-jogadores, como Mario Basler.
De fato, o camisa 10 dos Roten dá motivos: sua jogada tradicionalíssima (corte para a perna esquerda, nas proximidades da área, e chute com ela) não tem encontrado muito êxito na Allianz Arena. E as lesões continuam a perturbá-lo, como é constante na sua carreira. Mas, depois do amistoso da Oranje contra a Inglaterra, nesta semana, ele ganhou o que precisava: motivos para virar-se aos críticos e dizer “e daí?”.
Porque, se o segundo tempo do jogo em Wembley foi agitado, ao contrário da sonolenta etapa inicial, muito disso se deve à atuação do atacante. Enfim, Robben voltou a lembrar o letal jogador da temporada 2009/10, fundamental na maravilhosa temporada vivida então pelo Bayern – e, claro, no vice-campeonato mundial da Holanda. Foi, de longe, a figura que mais se movimentou no ataque do time de Van Marwijk.
O que foi altamente necessário. Porque Sneijder esteve pouco inspirado, novamente, e Kuyt foi o de sempre: altamente útil, oferecendo esforço incansável (exerce papel importantíssimo na marcação da saída de bola adversária), mas raras vezes foi além. Van Persie, por sua vez, nem de longe lembrou o homem que tem levado o Arsenal nas costas durante toda a temporada: absolutamente apagado.
Restou ao novo pai (a esposa de Robben, Bernardien, deu à luz o menino Kai, terceiro filho do casal, no início de fevereiro) puxar rápidos contra-ataques – como fez, à perfeição, na jogada individual do primeiro gol holandês. Isso deu muita rapidez ao ataque, comprovada no fato de os dois primeiros gols terem saído em um minuto, apenas.
O autor do segundo gol, aliás, poderia ter sido o companheiro que Robben não teve nas ações ofensivas. Huntelaar se mostrou opção mais confiável do que Van Persie, por enquanto, no time de Van Marwijk. E isso, tendo estado em campo por apenas 15 minutos, até o assustador choque com Smalling no gol que marcou. Mas deu mais opções de jogada, e se apresentou muito mais nas finalizações.
Mas, afinal de contas, quais são as conclusões que se podem tirar da Holanda como um todo, dentro do amistoso? São positivas. É certo que a seleção inglesa tem muito mais com que se preocupar do que um simples amistoso. Mas a Oranje apresentou as mesmas qualidades que a impulsionaram na Copa: uma determinação impressionante e uma maior concentração quando o jogo fica mais sério. E consertou uma das falhas mais gritantes vistas no desastre contra a Alemanha: oferecer contra-ataques. Foi algo elogiado por Van Marwijk: “Precisávamos voltar a um estilo mais estável. E deu muito certo: concedemos poucas chances.” Talvez, tenha algo a ver com a escalação de Nigel de Jong, francamente mais defensivo, no lugar de
Strootman.
No final do jogo, ainda houve muita desatenção da defesa, nos gols de Gary Cahill e Ashley Young que permitiram o empate do English Team. Mas, no entanto, é falha perdoável, num amistoso, e solucionável para a Euro. De mais a mais, Robben voltou a aparecer para marcar o gol da vitória – o 100º da Oranje sob o comando de Van Marwijk.
E o técnico holandês talvez tenha sido o cidadão que mais ajudou Robben, ao escalá-lo como gosta: “Permiti que ele partisse pela direita. Ele jogou bem e pareceu livre. Estou feliz por ele.” Robben também pareceu alegre (“Ele é um treinador que me dá muita confiança”). E, assim, a Holanda também ficará feliz. E o aplaudirá, como ele pediu na comemoração do terceiro gol.



