Holanda

E como viu!

Esta coluna terminava sua edição da semana passada dizendo textualmente que todos os olhos da Bélgica estariam virados, no domingo, 22, para o Constant Vanden Stock onde Anderlecht e Standard fariam a “decisão” da Jupiler League. Dizia mais: que, caso o equilíbrio do clássico fosse o mesmo visto na partida do turno entre ambos, o Parc Astrid veria 90 minutos de pura emoção. Pois viu. O título do relato feito pelo site da revista belga Sport, detentora do site oficial do Campeonato Belga, diz tudo: “Quel choc!” (“Que duelo!”). Uma virada primorosa, uma performance decisiva, muitos gols: a partida teve tudo. E o 4 a 2 do time da casa foi um prêmio ao espírito de reação do time de Ariël Jacobs. E, principalmente, ao que jogou Mbark Boussoufa.

De modo até surpreendente, o Standard começou dando as cartas. Embora o substituto de Defour, Mangala, desse uma linha mais cautelosa ao meio-campo (tanto que chegou a jogar de zagueiro em alguns jogos na temporada), armadores e atacantes pareciam imperturbáveis, mesmo com o barulhento público. Principalmente a dupla Jovanovic-Mbokani e Dalmat, que abriu o placar após desatenção de Juhász. Só após sofrer o gol é que o Anderlecht passou a esforçar-se mais. E teve o prêmio merecido no último minuto da primeira etapa, com o empate vindo a bordo de falta magistral cobrada por Boussoufa.

Todavia, o segundo tempo começou novamente com os Rouches em melhor condição. Tanto que, logo após o gol de Mbokani que colocara os visitantes novamente na liderança, Igor de Camargo quase fez o terceiro, em disputa aérea com Schollen após cobrança de Marcos Camozzato. Um hipotético 3 a 1, muito possivelmente, baixaria a moral dos anfitriões e deixaria o Standard cada vez mais seguro da vitória que lhe devolveria o primeiro lugar do campeonato. Era hora de alguém aparecer nos Mauves para chamar a responsabilidade e fazer o time crescer em campo e animar a torcida. O nome do cidadão que o fez: Mbark Boussoufa.

Le Petit Marocain” já vinha bem no jogo, mas nada parecido com o que jogou desde os quatro minutos da fase complementar, quando Mbokani marcou. Deixando as tarefas de marcação no meio com Gillet e Polak, Boussoufa virou gigante: armava o jogo, levava o time para frente e atacava. Muito. Não à toa, foi ele quem empatou o jogo. E impulsionou o Anderlecht a tal ponto que a pressão na área do Standard tornou-se insuportável. O pênalti de Mulemo em Gillet foi consequencia. Daí, só festa: Wasilewski, definitivamente de volta à titularidade da lateral-esquerda dos Paars-wit, converteu a cobrança e fez a virada. E, só para comprovar o quanto foi fundamental, Boussoufa fez o cruzamento para o quarto gol, de De Sutter. Como se não bastasse, quando saiu para dar lugar a Losada, recebeu calorosa ovação.

Com o apito final, ficou claro: o espírito dos dois líderes da Jupiler League mudou em definitivo. Nos Mauves, clima de um time que provara definitivamente estar mudado, deixando de lado a irregularidade do começo do ano e animado para os próximos jogos. Em declarações ao diário La Dernière Heure, Boussoufa (saído de campo com o apelido “Príncipe do Parc Astrid” e eleito jogador da rodada pelo site oficial da Jupiler) ofereceu o resultado – e a atuação – a Marc Degryse, autor de afirmação segundo a qual o marroquino deveria aparecer mais em jogos decisivos. Gillet se regozijava da primeira vitória do Anderlecht, em clássicos, nesta temporada. O time parece bem mais animado para continuar segurando a valiosa vantagem de quatro pontos conquistada com a vitória. É continuar, daqui para a frente, com máxima atenção em duelos como o próximo, contra o Excelsior Mouscron.

Já o Standard vê o sinal amarelo cada vez mais forte. Se o ataque ainda dá motivos para esperança, a defesa parece sofrer ainda com a ausência de Dante. Basta dizer que o time sofreu, pela primeira vez, quatro gols, em uma partida da Jupiler League 2008/09, perdendo para o Lokeren o posto de melhor defesa do torneio. A eliminação na Copa da UEFA não estava nos planos e deixou, sem dúvida, um gosto amargo na torcida. Sem contar alguns problemas internos que começam a aparecer entre uma declaração de Igor (“Certos jogadores não sabem o que é solidariedade. Estou cansado de me esforçar para nada”). e outra de Mohamed Sarr (“No ano passado, todos tínhamos uma meta, o título. Este ano, alguns jogadores parecem querer apenas uma transferência para o exterior”). São estes os desafios que o clube de Sclessin deverá superar, caso queira voltar à carga na busca pelo bicampeonato.

De volta ao piloto automático?

Após a passagem pela “zona de turbulência”, o avião do AZ voltou a fazer uma viagem tranquila rumo ao título da Eredivisie. Que parece cada vez mais próximo com a vitória por 2 a 0 frente ao Heracles Almelo, fora de casa. Mesmo que os Alkmaarders não tenham jogado bem diante dos alvinegros – algo justificado, em parte, pelas dificuldades causadas pelo gramado sintético do Polman Stadion, ainda agravadas pela chuva -, deu para manter a liderança sem maiores problemas. Nem mesmo a contusão muscular de David Mendes da Silva, que o tirou de campo ainda na primeira etapa (e que o deixará de fora dos campos por quatro semanas), tirou a tranquilidade da equipe.

Tranquilidade tão grande que os recordes começam a se avolumar no DSB Stadion. Primeiro, a vitória contra os Almelöers (junto da forcinha dada pelo Espanyol, em La Liga) esticou a invencibilidade do time para 22 jogos, sendo dezenove vitórias e três empates. Nenhum clube tem maior invencibilidade na Europa, atualmente. Invencibilidade esta também atribuída à defesa. Mesmo com os gols sofridos contra Willem II e PSV, Romero saiu de campo, mais uma vez, sem ter a meta vazada, o que significou ao clube superar o recorde de partidas sem gols sofridos na Eredivisie: 17, contra os 16 das temporadas 1974/75 e 2006/07.

E, ao marcar os dois gols da partida, Mounir El Hamdaoui não manteve só a artilharia da Eredivisie (20 gols), mas também entrou para a lista dos oito maiores artilheiros do clube em uma só temporada, na história do Campeonato Holandês, atrás apenas de Shota Arveladze, Danny Koevermans e a lenda de Alkmaar Kees Kist – este último, com suas marcas ocupando os cinco primeiros lugares. Mantendo a média de 0,86 gols por jogo, não é difícil imaginar que o marroquino possa desafiar os números de Kist. O que fica difícil de imaginar é o AZ perdendo o título da Eredivisie.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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