Holanda

Duplo símbolo

Ultimamente, no futebol, virou moda dizer que os jogadores não têm mais vínculos afetivos com clubes, que trocam de camisa sem ao menos se preocuparem em esforçar-se para defender a organização que lhes paga o salário, com o mínimo de profissionalismo desejável. Em parte, isso é certo. Mas sempre há o outro lado: atletas que devotam sua vida profissional e sua fidelidade a uma única cor, uma única camisa. Às vezes, o vínculo é tão forte que resiste até a um pequeno tempo fora do lugar onde o jogador deu sua vida. É assim com um jogador holandês, que protagonizou um episódio quase inacreditável nesta semana que termina. Tanto pela fidelidade, quanto pela longevidade.

Sander Boschker, goleiro de 42 anos, nascido em 20 de outubro de 1970, holandês da cidade de Lichtenvoorde, assinou contrato por mais um ano com o Twente. Já não é mais o titular no gol dos Tukkers (Mihaylov ocupa o posto há três anos), mas vai para sua 24º temporada profissional dentro do clube. A justificativa? Leia suas palavras: “Tem a ver com a maneira como terminamos a última temporada. A segunda metade foi decepcionante. Isso me doeu no coração, como conhecedor do clube, eu tive menos prazer. Mas ainda me sinto bem ao jogar, e, acima de tudo, ainda me irrito ao perder jogos-treino ou ao sentar no banco de reservas. Com a vontade, ainda é bom jogar. Nas últimas semanas, ouvi de cada vez mais pessoas que seria muito ruim, se eu parasse”.

Embora seja um goleiro normal, nada espetacular, capaz de boas partidas e de falhas inacreditáveis (lembremos do jogo contra o Tottenham, pela Liga dos Campeões 2010/11, quando recebeu um recuo, chutou o ar e viu a bola entrar nas redes), Boschker é um símbolo inegável de tudo por que o Twente passou nas últimas duas décadas. Não virou titular imediato assim que subiu para os profissionais, em 1989, mantendo-se como reserva de Hans de Koning, que viraria seu treinador na posição depois. Somente quando uma fratura séria na pélvis forçou de Koning a encerrar a carreira, em 1993, Boschker tornou-se o dono do gol no time de Enschede.

E viveu seu primeiro grande momento em 2001, quando o Twente conquistou sua primeira Copa da Holanda: Boschker defendeu três chutes na decisão por pênaltis contra o PSV, após empate por 0 a 0 em 120 minutos, sendo fundamental no triunfo, por 4 a 3. Após um início irregular, e a melhora ao longo dos anos, Boschker virava herói no clube onde surgira. E, com o Twente caindo numa crise que quase o levou à falência e atuações seguras, houve uma crise: irritado com uma baixa oferta de aumento e sentindo-se desvalorizado, o jogador foi contratado pelo Ajax, em 2003. Contava, então, com 356 partidas oficiais pelo Twente, número só inferior ao dos atacantes Epi Drost e Theo Pahlplatz.

Boschker chegou ao novo clube e já viu o espaço diminuído: Ronald Koeman, então treinando os Ajacied, disse que Bogdan Lobont seria seu titular, enquanto Stekelenburg e o novo reforço disputariam a reserva. O já veterano Boschker perdeu a peleja. Não jogou partida alguma pelo Ajax. E, em 2004, apesar do título holandês, deixou o exílio para voltar ao clube que tanto conhecia. Aos poucos, time e atleta foram crescendo. Em 2006, superou Epi Drost e tornou-se o recordista de partidas no Twente. Em 2008, não só o time alcançou a Liga dos Campeões, superando o Ajax nos play-offs, como o goleiro foi pré-convocado para a Eurocopa. Ficou fora da lista de 23, mas já recebera um grande afago no ego.

Enfim, 2010 foi o ano em que Boschker viu 20 anos de luta serem recompensados. Foi um dos grandes personagens da conquista do primeiro título holandês da história do Twente. E, pelas boas atuações, superou Piet Velthuizen, que vinha bem no Vitesse, e foi convocado para a Copa do Mundo. Antes dela, jogando o segundo tempo do amistoso contra Gana (vitória de 4 a 1), tornou-se o estreante mais velho da história da seleção holandesa: contava, então, com 39 anos. Como a maioria dos terceiros goleiros em Copas, fez papel decorativo na campanha, mas só aumentou o sua aura já lendária em relação à torcida do Twente.

Logo depois da Copa, perdeu a posição para Mihaylov. Mas não sua boa imagem: ano passado, após o titular lesionar o joelho, teve de entrar nas rodadas finais do turno do Campeonato Holandês. Não só saiu-se bem, como ficou mais próximo de ser um dos três atletas com mais partidas na história da Eredivisie: com 561 presenças em jogos do torneio, bastará jogar 16 partidas e será mais um goleiro a fazer parte dessa lista.

Afinal, arqueiros extremamente veteranos na Holanda são frequentes – e não por causa de Van der Sar, que parou já quarentão. O jogador com mais partidas pela Eredivisie é… Pim Doesburg, goleiro que atuou por Sparta e PSV (e foi convocado para a Copa de 1978, já com 35 anos), e parou em 1987, aos 44 anos, com 687 jogos pelo torneio. O segundo? Jan Jongbloed, o guarda-metas titular da Oranje na seminal Copa de 1974 (quando já tinha 33 anos), que atuou por DWS Amsterdam, Roda JC e Go Ahead Eagles, parando em 1985, aos 45 anos, com 684 partidas. E o terceiro? Piet Schrijvers, convocado para os Mundiais de 1974 e 1978 – neste, atuou em alguns jogos -, titular nas Eurocopas de 1976 e 1980, com 576 jogos pela Eredivisie, parando aos 39 anos, após passar por Twente, Ajax e Zwolle.

Cabe, agora, esperar para ver se Boschker cumprirá essa marca. E dará mais um brilho à sua história com o Twente. Que não é a principal, em fidelidade a um clube. Nem a mais conhecida. Mas que é tão bonita quanto todas as outras.

E o jovem?

A sensação na Holanda, após o amistoso da Oranje contra a Itália, é de que o trabalho valeu. Claro que houve certa decepção pelo empate em 1 a 1. Afinal, o time foi superior à apagada Azzurra, criou mais chances de gol… e apenas uma jogada de ataque dos vice-campeões europeus bastou para Marco Verratti igualar o placar, nos acréscimos do segundo tempo.

Mas, ainda assim, valeu. Valeu porque, além das boas atuações de Van Persie e Lens, fica cada vez mais claro que Adam Maher tem condições de substituir Sneijder, em caso de impossibilidades que ele possa ter. O jovem meia do AZ deixava sua marca em todas as jogadas ofensivas da Holanda. Pelo menos no amistoso, apresentou as qualidades da melhor fase do titular: rapidez e capacidade de armar jogadas.

Não impressionou ter levado os créditos de melhor em campo. Nem que o PSV já tenha tentado tirá-lo do AZ. Nem impressionará se algum clube maior da Europa começar a prestar atenção nele.

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