Domínio retomado

Em 2008 e 2009, a melhor equipe da Bélgica foi o Standard Liège. Michel Preud'homme estruturou uma geração que já havia surgido sob Johan Boskamp, e jogadores como Witsel, Defour, Mbokani e Jovanovic cresceram (muito) de produção. Além disso, Laszlo Bölöni conseguiu assumir o time sem mudar drasticamente a base. Bastou para que os Rouches, enfim, deixassem um jejum de 25 anos sem o título para conquistarem o bicampeonato belga.
Todavia, Bölöni começou a entrar em rota de colisão com alguns jogadores (Olivier Dacourt, por exemplo, saiu atirando contra a comissão técnica). Cada vez mais, os talentos da equipe começaram a expressar o desejo de sair para ligas mais avançadas. E o Standard ruiu. Para benefício de Flandres: afinal de contas, neste 2010 cuja temporada vai se acabando, o Anderlecht voltou a dominar o futebol belga.
Na primeira metade do ano – isto é, na fase final da Jupiler League 2009/10 -, o time aproveitou a derrocada do Standard e a irregularidade que já vitima o Club Brugge há algumas temporadas para empreender uma campanha em que nadou de braçada: terminou as 30 rodadas da fase regular, com pontos corridos, tendo 69 pontos, 12 a mais do que o vice-líder Club Brugge, em campanha que incluiu goleadas como um 4 a 0 sobre o Standard, fora de casa. No hexagonal final, o domínio continuou. Os Mauves prosseguiram invictos, e fecharam o título na sexta das dez rodadas da fase final. E terminaram invictos, com sete vitórias e três empates. Foi um fecho de ouro para uma campanha fácil, que resultou num título merecido.
E não era só o título que fazia supor a volta dos dias de domínio em Parc Astrid. Sob Ariël Jacobs, o time havia conseguido superar a falta de gente contundida, como Jan Polak e Marcin Wasilewski, para manter uma base inabalável. Na defesa, Proto dava bastante segurança, assim como a linha de quatro defensores raramente mudava – o que deu bastante entrosamento a Ondrej Mazuch, Olivier Deschacht, Roland Juhász e Guillaume Gillet. Este, por sua vez, também poderia ser improvisado no meio-campo. Mas, ali, o domínio das ações era de Mbark Boussoufa, que monopolizou a armação das jogadas. Que, em geral, eram finalizadas por Jonathan Legear – ou pela revelação fulgurante que foi Romelu Lukaku, artilheiro da temporada regular, com 16 gols.
No entanto, a abertura da temporada 2010/11 apresentou o principal solavanco no domínio da equipe roxa e branca. Afinal de contas, foram feitos apenas pequenos ajustes (como as contratações de Jan Lecjaks e Sacha Kljestan), e a base sólida foi a principal aposta para o principal sonho: chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões. Capacidade para tanto, a equipe tinha: estava até em melhor fase do que o Standard que chegou à fase de grupos em 2009/10 – e que alcançou as quartas de final da Liga Europa. O Partizan, adversário dos play-offs, ofereceria dificuldades, mas era superável.
Aparentemente, o empate em Belgrado era motivo para ainda mais animação. Afinal de contas, os Paars-Wit definiriam a vaga em casa. Porém, pouco se contava com duas coisas: a capacidade de Cléo para marcar gols – o brasileiro fez 2 a 0 – e o nervosismo do Anderlecht para conseguir o resultado. Mesmo após correr atrás e conseguir o empate, o time nunca pareceu estar sereno. A punição veio nos pênaltis: Boussoufa teve o azar de escorregar na hora de sua cobrança, Suárez e Biglia perderam, e o sonho da fase de grupos se foi.
A eliminação sofrida provocou, então, alguma crise: o time passou por alguns tropeços sérios (como, por exemplo, a goleada sofrida para o Standard – 5 a 1 em pleno Parc Astrid), e a saída de alguns jogadores, como Boussoufa, foi pedida. Além disso, via-se a ascensão de equipes como o Racing Genk e o Gent, que, enfim, parecem estar em ponto de bala para competir com os grandes, tendo times sólidos.
No entanto, enfim, o Anderlecht se recuperou. Viu que ainda tinha uma liga a disputar. E conseguiu vencer os dois adversários pelo título, nos confrontos diretos. Mesmo que tenha perdido a liderança (empatou com o Lokeren, na última rodada, e ficou um ponto atrás do Racing Genk, que aplicou 5 a 1 no Eupen), o time está na disputa do título. E a classificação para os 16-avos de final da Liga Europa, como único belga nas competições continentais, é mais um sinal de que, em 2010, o RSCA voltou a ser o principal clube da Bélgica.
Luz no fim do túnel
A seleção belga pode dividir seu ano em duas partes. Na primeira, depressão generalizada. Novamente fora de uma Copa do Mundo, a equipe ainda vivia o início do seu trabalho de reestruturação, sob o comando de Dick Advocaat. No entanto, os constantes boatos de que o técnico deixaria os Diabos Vermelhos perturbaram constantemente o trabalho do “Pequeno General”. Até que, em abril, veio o anúncio: de fato, Advocaat havia sido seduzido pela oferta russa, maior financeiramente, e deixava os Diabos Vermelhos. Não faltava mais nada para que a Bélgica mergulhasse em depressão.
Restou à federação sair à cata de um outro treinador. Ele veio com Georges Leekens, treinador belga na Copa de 1998, que chegava bem credenciado pelo trabalho com o Kortrijk, na última temporada. E Leekens teve o seu primeiro mérito: pacificou um ambiente que era turbulento, pelas constantes brigas de Advocaat com a federação – e até com alguns jogadores.
No início das eliminatórias para a Euro 2012, porém, derrotas para Alemanha e Turquia tinham tudo para desanimar o time. Não o fizeram: o time caiu a duras penas contra os turcos. E, depois, vieram a vitória contra o Cazaquistão e um empate emocionante contra a Áustria. No fim do ano, um teste definitivo: um amistoso contra a Rússia, treinada por Dick Advocaat. Resultado: 2 a 0. E com o surgimento de novas esperanças, como Jelle Vossen e Marvin Ogunjimi. A luz, enfim, surgiu para a Bélgica.



