Depois das quedas, o coice

Depois que a seleção da Bélgica deixou o estádio de Zenica derrotada mais uma vez pela Bósnia, pelas Eliminatórias para a Copa de 2010, o Comitê Executivo da KBVB afirmou que o futuro do treinador Rene Vandereycken seria discutido numa reunião, na semana seguinte. Mas a sensação geral era a de que tal reunião seria apenas para dar o carimbo definitivo na demissão do técnico dos Diabos Vermelhos, sob pressão desde o famigerado 4 a 2 sofrido para os bósnios na Crystal Arena de Genk. E, na quarta, a sensação se confirmou: o ex-lateral não resistira aos dois reveses que praticamente dizimaram as chances da Bélgica de voltar a uma Copa.
Desde 2006 no comando da seleção, Rene cometera erros tão crassos nas partidas de 2009 que o péssimo desempenho na volta das Eliminatórias, somado à pressão pela volta da Bélgica a uma competição importante, foi demais para ele. A verdade é que, como já dito, a ocorrência da demissão estava tão escancarada que, já após o jogo de Genk, começaram a ser aventados os primeiros nomes que poderiam substituir “VdE”. Foram citados os de Laszlo Bölöni, carregado pelo bom trabalho no Standard Liège e com experiência prévia em seleções, tendo treinado a Romênia; o de Marc Wilmots, que seria verdadeira aposta da federação na onda de “técnicos de seleções sem experiência prévia”, já que o ex-atacante só treinou o Sint-Truidense, desde que abandonou a carreira; a nomeação de Franky Vercauteren, auxiliar de Vandereycken que foi mantido na comissão técnica; e, dentro da hipótese de contratar um treinador estrangeiro, Dick Advocaat.
Todas elas, porém, encaram algum tipo de oposição. Bölöni não é fluente em holandês, o que perturbaria a comunicação com alguns jogadores; Wilmots seria um tiro no escuro, com todos os riscos inerentes a isso; Vercauteren significaria uma espécie de “manutenção” do trabalho do antecessor, o que não seria visto com bons olhos por torcida e imprensa; e só a menção da hipótese de chamar um estrangeiro para comandar o time provoca controvérsia até entre ex-técnicos da seleção, como Aimé Anthuenis (contra) e Robert Waseige (a favor). Restariam, então, dois candidatos. Não por acaso, os dois que parecem mais aptos à vaga: Jean-François de Sart, técnico da equipe sub-21, e Eric Gerets.
Seguindo a lógica, De Sart deveria ser imediatamente içado para o time adulto. Afinal de contas, boa parte dos “adultos” de hoje foi acompanhada de perto por ele nos últimos dois anos. Basta dizer que, dos titulares da segunda partida contra a Bósnia, nada menos do que seis estavam nos elencos que disputaram o Europeu Sub-21 de 2007, que terminou com a terceira colocação, ou o torneio de futebol masculino dos Jogos Olímpicos de Pequim, encerrados com uma quarta posição absolutamente honrosa. Ou seja, o treinador conheceria a fundo seus comandados, o que poderia devolver até algumas esperanças de reação ainda nestas Eliminatórias para 2010, mesmo que a KBVB já esteja de olho em 2012 – e em 2014.
A questão é que, mesmo com o bom trabalho que vem fazendo, De Sart tem em Gerets um admirável concorrente. Além do bom trabalho no Olympique de Marselha, que naturalmente o respalda, poucas pessoas sabem melhor o que é a seleção da Bélgica do que o “Leão de Rekem”, que foi um dos pilares da grande geração belga, que durou desde a Eurocopa de 1980 até a Copa do Mundo de 1994. Basta dizer que apenas a lenda Jan Ceulemans jogou mais partidas com a camisa vermelha do que o ex-lateral direito (96 de Ceulemans, 86 de Gerets). Além disso, o contrato de Gerets com o OM está próximo do fim, o que facilitaria eventuais negociações. As questões moram no assédio que ele vem sofrendo de outros clubes europeus – e de uma ligeira reticência em assumir a seleção agora.
Seja quem for o substituto de Vandereycken, terá duas funções: além de tentar encerrar com dignidade as Eliminatórias, deverá conduzir com sabedoria alguns choques entre a “velha” e a “nova” geração, ambas presentes dentro do time. Os problemas foram levemente expostos após a segunda derrota contra a Bósnia, quando Sonck reagiu contra uma suposta apatia dos mais jovens (“Se essa geração quer alcançar algo, há muito a mudar. Anos atrás, tínhamos Marc Wilmots, além de outros que levavam o time à frente. Hoje não há ninguém, rigorosamente ninguém”) e ouviu de volta reação áspera de Fellaini (“Não tem nada a ver com mentalidade. Se Sonck tiver de dizer algo, que seja nos vestiários, e não à imprensa.”) e palavras mais comedidas de Witsel (“Acho que Sonck está um pouco frustrado. Ele tem 30 anos e era sua última chance de jogar um Mundial.”). Sem contar os boatos de que Pocognoli teria chegado a rir, no vestiário, mesmo após o 2 a 0 sofrido em Zenica. Sem dúvida, o sonho de estar na África do Sul desmorona a olhos vistos. Resta reformá-lo rumo à Euro 2012.
O alento
Mas se a seleção proveu somente decepções nas últimas duas semanas, a Jupiler League voltou a provar que a briga deverá ser emocionante até o final. Pois pouca gente esperava que, no domingo passado, o Anderlecht fosse enfrentar dificuldades contra o Lokeren. Pois enfrentou. O melhor ataque do Campeonato Belga insistiu muito, mas parava sempre na atuação impecável do goleiro marfinense Copa Barry – sem dúvida, o melhor arqueiro atuando na Bélgica, nesta temporada. O empate sem gols resultante devolveu ao Standard a possibilidade de voltar à liderança, se vencesse o Germinal Beerschot
E os Rouches não decepcionaram. Carregados pela atuação elogiável de Mbokani – autor de dois gols, um deles belíssimo -, o time passou por 3 a 1 pelos Ratten e igualou sua pontuação aos mesmos 61 pontos dos Mauves. E os comandados de Ariël Jacobs terão como adversário desta rodada simplesmente o Club Brugge. Sim, os Blauw-en-Zwart estão cambaleantes na temporada, por mais que mantenham a terceira posição. Mas é clássico. E um tropeço do Anderlecht significaria para o Standard virar novamente a briga pela primeira posição, a apenas cinco rodadas do final.



