Depois da tempestade

O Gent conseguiu dar prosseguimento à sua franca evolução nos últimos anos, ao vencer o Feyenoord e chegar lá. O Anderlecht recebeu-a como prêmio de consolação, após a eliminação dramática nos play-offs da Liga dos Campeões. O Club Brugge também está nela, após superar o Dynamo Minsk. Enfim, chegar à fase de grupos da Liga Europa é o que se pode sonhar, no nível atual do futebol belga de clubes – e o país tem quatro representantes.
É possível para um clube da Bélgica não estar na Liga Europa e, ainda assim, poder dizer que está em ótima fase? Sim, se esse clube em questão for o Racing Genk. Dos participantes belgas na LE, o clube foi o único a fracassar no objetivo de ir à fase de grupos: foi eliminado nos play-offs, sendo facilmente superado pelo Porto. Todavia, a equipe de Genk, até agora, compensa plenamente esta frustração no Campeonato Belga, onde é o líder.
E a equipe de Franky Vercauteren não é só líder: é líder com uma vantagem que já vai pelos quatro pontos sobre o vice-líder Anderlecht, que anda às voltas com certos problemas para recobrar o ânimo. Além disso, o time parece estar motivado até para tentar provar uma eventual recuperação do opaco 11º lugar, na temporada regular passada (nos play-offs, a equipe foi bem, vencendo Westerlo e Sint-Truiden para conseguir, enfim, a vaga na Liga Europa).
A recuperação não é só do time, mas também de Vercauteren. Afinal de contas, o treinador de 53 anos teve um 2009 terrível: recebeu a seleção da Bélgica nas mãos, após a demissão de René Vandereycken, tendo a missão de comandar uma eventual recuperação nas Eliminatórias para a Copa do Mundo – recuperação que já parecia difícil, então, após duas derrotas para Bósnia. E Vercauteren conseguiu a proeza de ter desempenho ainda pior: mais duas derrotas (incluindo um 5 a 0 da Espanha), e, considerando-se sem condições de continuar o trabalho, a demissão.
Chegando ao Genk em 2009, Vercauteren não conseguiu levar o elenco muito além. No entanto, criou uma base – e, afinal, conseguiu participar, rapidamente, de um torneio continental. Nada mal, considerando-se que o elenco à disposição do Genk não tem grandes estrelas. O único jogador a aparecer um pouco mais no cenário internacional (bem pouco a mais, diga-se de passagem) é o defensor sul-africano Anele Ngcongca, que defendeu os Bafana Bafana na Copa do Mundo, tendo atuado contra a França.
O que não quer dizer que o elenco já não se conheça há algum tempo. Tome-se a defesa, por exemplo: Ngcongca tem o camaronês Eric Matoukou, o brasileiro João Carlos e o alemão Torben Joneleit como parceiros de setor, numa linha de quatro, há, pelo menos, duas temporadas. Só o gol enfrenta certa inconstância: o húngaro Laszlo Köteles começou a temporada sendo considerado titular, mas o jovem Thibaut Courtois tomou-lhe a posição.
No meio-campo, a armação fica por conta de mais um húngaro, Daniel Tözser. E, no ataque, Dugary Ndabashinze e Marvin Ogunjimi se revezam no ataque. O outro titular na dupla de finalizadores tem sido, até aqui, o homem da Jupiler League: Jelle Vossen precisou de oito rodadas para marcar 12 gols – o que significa ter marcado gols em todos os jogos do Genk até aqui. Apenas para efeito de comparação, em toda a temporada regular em 2009/10, Romelu Lukaku, o artilheiro, fez 15 gols. E, nas últimas duas rodadas, foram quatro gols: dois contra o Lokeren, na vitória por 3 a 1, e os dois gols do 2 a 0 sobre o Sint-Truiden.
Por tudo isso, o presidente do clube, Herbert Houben, ainda se impressiona com o bom começo: “Queríamos iniciar bem, mas isto é melhor do que ousamos sonhar.” Não deveria se impressionar. Afinal de contas, o próprio ditado diz que depois da tempestade (ou seja, ficar de fora da Liga Europa)…
A mesma história
Quem acompanha o futebol holandês de longa data já deve ter ouvido falar de quando, às vésperas da Copa de 2006, o técnico Marco van Basten desejou a naturalização de Salomon Kalou – à época, arrebentando no Feyenoord -, para poder convocar o marfinense para a Copa do Mundo. Até mesmo Johan Cruyff se meteu na história, pedindo a aceleração do processo que tornaria Kalou holandês. Mas não deu certo: a ministra holandesa da Imigração, Rita Verdonk, foi irredutível à época. E Kalou ficou de fora da Copa de 2006, antes mesmo de decidir defender o país natal.
Agora, a história se repete. E envolve um brasileiro. Há cerca de 15 dias, em declarações ao diário Algemeen Dagblad, o zagueiro Douglas, do Twente, disse abertamente: “Se a chance aparecer, eu gostaria de jogar pela Holanda. Sou e continuarei um brasileiro, mas meu sentimento pela Seleção diminuiu nos últimos tempos. Naturalmente, eu preferia jogar pelo Brasil, mas isso não me parece realista, no momento. O novo técnico nunca falou comigo. E acho que ele não segue o Campeonato Holandês.”
Douglas já chegou a conversar com Bert van Marwijk. E o técnico da Oranje se mostrou receptivo à ideia: “Eu queria ouvir dele o desejo em se naturalizar holandês. Se ele conseguir a cidadania, vejo nele um fortalecimento para o meu grupo.” Porém, a política novamente ameaça os planos de Van Marwijk – e de Douglas. Joop Atsma, líder do CDA, partido holandês de centro-direita, lembrou do caso de Kalou para dizer que é contrário à ideia: “Aquilo também não aconteceu. E o que ocorreu na sequência? Kalou foi para a Inglaterra.”
Douglas até seria um jogador útil à Holanda – é um dos melhores zagueiros da Eredivisie, e parece ser mais técnico do que Heitinga e Mathijsen, os titulares. Porém, seu processo vai de encontro a um processo que tem atingido a Holanda: uma resistência cada vez maior a imigrantes. Basta ver a receptividade relativamente boa que as ideias de Geert Wilders, contrárias aos imigrantes muçulmanos, têm recebido entre os holandeses. Douglas terá de desarmar mais este obstáculo, caso queira vestir laranja.



