Da Eurocopa de 1988 para cá, o que a Holanda fez dela
Durante esta semana que vai se encerrando, a coluna fez uma retrospectiva do título europeu de 1988, a única grande conquista da história da seleção holandesa. Viu-se, aqui, como o país se empolgou com a conquista, como Rinus Michels soube armar bem a equipe, como Marco van Basten fez algumas das melhores atuações de sua carreira etc. Enfim, 1988 foi um ano marcante na história de 108 anos da seleção da camisa laranja.
Mas revisionismo tem limite. Então, hora de voltarmos à realidade. Corta para o dia 15 de junho de 2013, na cidade de Petah Tikva, em Israel, onde a Jong Oranje disputava o Campeonato Europeu sub-21. Nesse dia, a equipe treinada por Cor Pot jogava a semifinal do torneio, contra a Itália. Com o mesmo estilo ofensivo apresentado na primeira fase, o time encurralou os Azzurrini na etapa inicial do jogo, pressionando, mandando bolas na trave, vendo ótimas atuações de Adam Maher, Ola John e Georginio Wijnaldum.
Pois bem: no segundo tempo, aos poucos, o time italiano foi se insinuando. Era o tal jogo “cínico”, no qual a Itália é mestra dentro do futebol mundial: dar ao adversário a ilusão de que ele domina o jogo, de que ele pode marcar gols e ganhar a partida quando quiser. Enquanto isso, ela se arrisca num contra-ataque aqui, num chute perigoso acolá… até o momento de dar o bote.
Na semifinal da Euro sub-21, esse momento veio aos 34 minutos do segundo tempo. Lorenzo Insigne carregou a bola até às proximidades da área, vindo pela esquerda. Chegando ali, passou a bola a Fabio Borini, que estava marcado por Mike van der Hoorn. Borini fez o giro em cima do zagueiro holandês, e já deixou a bola à feição para chutar na saída de Jeroen Zoet. 1 a 0 para a Itália. E novamente, a Holanda ficava fora de um torneio no qual apresentara um bom nível técnico.
Ainda assim, tudo se resumiu a uma questão: azar. Pelo menos, nas palavras de Luuk de Jong, que jogou em Petah Tikva: “Realmente, é doloroso. Não precisava ser assim, especialmente porque éramos o melhor time e jogamos um melhor futebol”. Para a Holanda, é sempre assim. Em 1974, fala-se que foram melhores do que a Alemanha; em 1990, a equipe campeã européia tinha a obrigação de fazer campanha mais honrosa na Copa do Mundo; a geração de Bergkamp tinha a obrigação de ter ganho algo, entre a Copa de 1998 e a Euro 2000 (esta, em casa!); algumas pessoas lamentam a derrota na final da Copa de 2010… enfim, exemplos não faltam.
Falando assim, pode até parecer que o único fator a ter impedido a Holanda de ter vencido alguma coisa, de 1988 para cá, foi só azar. Esse discurso é bastante ecoado até por jogadores, e por gente que tem certo carinho pela seleção holandesa, talvez tendo em mente as memórias da “Laranja Mecânica”. Mas pensar assim talvez seja a principal razão pela qual a Holanda não ganhou mais nada até hoje.
Isso instila uma espécie de “coitadismo”, como se ela fosse o “café-com-leite” das seleções que têm alguma fama no futebol mundial. Como se tivesse de ter ganho algo só pelo fato de ter jogado bem algumas vezes, ao longo de sua história. Provavelmente, essa ideia veio a partir da filosofia futebolística de… Johan Cruyff (quem mais?), franco apoiador da ideia de que o jogo bonito vale mais do que títulos.
O jogo bonito vale, sim. Mas não basta se o objetivo é fazer uma seleção respeitada e temida no mundo. Por incrível que pareça, Louis van Gaal, outra personalidade do futebol holandês com grande tendência a achar pêlo em ovo, tinha toda a razão, ao ver com reservas o bom desempenho holandês na Euro sub-21. Além disso, apesar de ter tido ótimas gerações de jogadores, a Holanda às vezes perdia-se por fatores externos. Por exemplo, quebra de confiança em relações internas no grupo. Foi o que dilapidou a equipe na Copa de 1990: ainda diretor técnico da federação, Rinus Michels deixou a cargo dos jogadores a escolha do técnico que comandaria a Oranje no Mundial da Itália, após Thijs Libregts tê-la comandado nas eliminatórias. Ele a aceitaria, qualquer que fosse.
A escolha foi unânime: Cruyff. Mas Michels pensou que poderia perder o respaldo que tinha no futebol mundial, nesse caso. Afinal de contas, “Jopie” já fora gigante como jogador, em 1974; se levasse aquela seleção altamente promissora ao título mundial, tornar-se-ia algo comparável a uma figura divina no futebol holandês. Numa palavra: Cruyff deixaria Michels para trás.
Então, o diretor técnico censurou a escolha, ao contrário do que dissera, colocando Leo Beenhakker para comandar a Laranja na Copa. Claro, deu muito errado, semeando a cizânia entre os jogadores e a federação – a ponto de Beenhakker dizer, hoje, que não aceitaria ter comandado a seleção, se pudesse voltar no tempo. Foi um dos fatores principais para a péssima campanha na Itália.
E algo semelhante aconteceu na Euro 2012, mais recente. Ao assumir a seleção, Bert van Marwijk dissera que somente teria chances de ser titular quem viesse jogando com regularidade em seu clube, e que a meritocracia seria o sistema de escolha dos jogadores. Para, às vésperas da estréia na competição continental, barrar Van der Vaart, em ótima forma, e escolher Afellay, que apenas voltava de contusão no Barcelona. E escolher um Van Persie confuso com o sai-não-sai que vivia no Arsenal para ser o atacante, em detrimento de um Huntelaar que vivia seu apogeu no Schalke 04. Mais um dos fatores para o vexame na Ucrânia/na Polônia.
E há mais fatores que explicam facilmente derrotas holandesas. Às vezes, há lesões sérias (Gullit chegou para a Copa de 1990 à meia-bomba, prejudicado por um problema no joelho que o afastara da maior parte da temporada anterior). Às vezes, os times são simplesmente piores do que outros – ou alguém ousará dizer que o Brasil não era melhor, em valores individuais e coletivamente, do que a Oranje vencida por 3 a 2, nas quartas de final da Copa de 1994? Às vezes, a falta de treinos em situações tensas – Copa de 1998 e Euro 2000, com eliminação nos pênaltis, nas semifinais, mandam lembranças.
Às vezes, simplesmente a falta de hábito da Holanda em freqüentar fases decisivas de torneios. Brasil, Argentina, Itália, Alemanha, França, Espanha… seja recentemente ou ao longo da história, essas seleções sabiam de suas capacidades, ao chegarem a semifinais, em algum torneio. Então, mantinham a confiança, o que as tornava ainda mais favoritas.
Definitivamente, a Holanda não tem essa frieza. Ao chegar às fases decisivas, o pensamento ainda é de “uau, estamos aqui!”. Então, há um certo pensamento de “o que fazer?”. A seleção vice-campeã mundial de 2010 notabilizava-se por um pragmatismo inteligente. A partir das semifinais, ela ficou notavelmente nervosa, agindo na base do “vale tudo para ser campeã”, do “agora não pode escapar”, algo ansioso demais. E também não deu certo, como se sabe.
Enfim, há vários fatores que justificam as derrotas holandesas ao longo dos tempos, antes e depois de 1988. E nada impede que aquele ano de glória seja igualado, numa Copa do Mundo ou numa Eurocopa. Afinal, assim como tem falhas, a Holanda também tem acesso às qualidades que fazem um time campeão (determinação, habilidade, poder de decisão, calma, autoconfiança). Como qualquer equipe com alguma tradição no futebol. O problema é juntar todas essas qualidades ao mesmo tempo.



