Começam os testes

A Bélgica terminou sua campanha nas Eliminatórias para a Copa de 2010 de modo discreto. A impressão, ao fim dos dez jogos, é decepcionante. Afinal, os Diabos Vermelhos iniciaram sua campanha vencendo a Estônia, empatando com a Turquia em Istambul e vendendo caríssimo a derrota para a Espanha.
Mas o começo auspicioso foi esquecido, com as duas derrotas para a Bósnia (que deixaram a vaga para a Copa quase impossível), mais os péssimos desempenhos frente a Espanha e Armênia, que sepultaram de vez as chances. Azar de René Vandereycken, demitido, e do interino Franky Vercauteren, que também não durou muito.
Mas Dick Advocaat chegou, antes do que se imaginava. E, até pelo respeito que o holandês impôs assim que vestiu o agasalho vermelho, o clima desalentador que as derrotas haviam provocado deu lugar a um espírito urgente, prático, direcionando a uma renovação algo saudável na Bélgica. Foi com esse espírito, que tirou alguns jogadores das convocações, colocou outros a perigo e deu nova chance a mais alguns, que a equipe foi enfrentar Turquia e Armênia.
A política imposta por Advocaat – isto é, diminuir ao máximo a influência dos veteranos e alertar a geração do quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Pequim – foi mais uma vez exibida, contra a Turquia. Com um time formado apenas por belgas que atuam no exterior, os Diabos Vermelhos fizeram um ótimo primeiro tempo no Rei Balduíno, em Bruxelas, abriram o placar, e puderam jogar mais calmamente na etapa final – não sem antes garantir a vitória por 2 a 0.
Mais do que ver sua aposta dar resultado, Advocaat ganhou três boas surpresas. Autor dos dois gols contra os turcos, o velho e bom Emile Mpenza credenciou-se como um possível veterano a ajudar os mais novos – e a manter, no ataque, o nível satisfatório que tem Wesley Sonck. As outras duas novidades foram Roland Lamah e Kevin Mirallas. Frequentes nas convocações para as seleções de base (e até na principal, no caso de Mirallas), ambos haviam caído no ostracismo, com o surgimento fulgurante dos baseados no Standard, como Fellaini, Witsel e Defour. Pois jogaram bem, e Advocaat os elogiou.
No caminho para jogar contra os estonianos, em Tallinn, Advocaat mostrou, novamente, que sua proposta de que os jogadores levem mais a sério a seleção não é mera retórica: o técnico se irritou ao ver o goleiro Logan Bailly (que ocupará a vaga de Stijnen) carregar seu material de jogo numa bolsa Louis Vuitton, ao invés de mantê-lo na mochila da Nike, produtora de material esportivo para os Diabos. E ordenou a troca, falando: “No clube dele, ele pode fazer o que quer. Aqui, temos todos de usar a bolsa da Nike.”
E ainda houve o incidente com Fellaini. Na verdade, mais um mal-entendido do que algo propositado: o volante pedira autorização ao treinador para deixar a delegação após o primeiro jogo, de modo a poder fazer uma operação no dente do siso. E se foi, na segunda. Mas não avisara a federação, que invocou inutilmente uma regra da Fifa, para tentar evitar que Fellaini atuasse pelo Everton, no Campeonato Inglês. Claro, em vão.
Mas, aí, veio o encerramento, com nova derrota. O 2 a 0 sofrido para os anfitriões nem precisaria ser tão sentido. Mas o foi. E principalmente pelo técnico. Ao invés de encarar o revés como um tropeço compreensível (ainda mais em início de trabalho), Advocaat foi duríssimo.
Principalmente com os jogadores, falando coisas como “Eles precisam se tornar mais eficientes” e indo até mais além: “Vi jogadores que não conhecem jogos deste nível. Você não vê estas coisas em treinos, mas nos jogos, nota-se. Que me desculpem, mas precisam melhorar.” E restaram farpas para os antes elogiados Mirallas e Lamah: “Se você não pode atuar pela seleção, por que vai jogar no exterior?”
Advocaat foi excessivamente duro, é verdade. Mas dá para esperar uma Bélgica mais ligada, nas Eliminatórias para a Euro 2012. Se é que já não dava antes.
Agora vai ficar interessante
Quando se fala de um bom jogo, que tenha terminado num empate em 0 a 0, uma frase bastante ouvida é “só faltou o gol”. Pois essa foi a impressão que ficou na torcida holandesa. Mesmo esbarrando num gramado prejudicado pelas fortes chuvas em Sydney, na defesa bem postada da Austrália e num sempre seguro Schwarzer, a Oranje mostrou bom volume de jogo. Para uma equipe desfalcada, foi uma boa atuação, e o 0 a 0 do amistoso foi até injusto.
Porém, uma das coisas que mais faltava à Holanda eram amistosos contra times que, de fato, sejam candidatos até à conquista da Copa do Mundo. Enfrentar Austrália, Japão e Paraguai (rival já agendado para 18 de novembro, em Heerenveen), todas seleções que estarão na África do Sul, é bom, mas não ajuda a ter reais impressões sobre as chances da Oranje.
Isso começa a ser mudado. O amistoso do dia 14, em Pescara, colocará o time frente a frente com a Itália. “Só” a campeã do mundo. Mesmo que ajustes sejam necessários no time, que uma relativa renovação se faça necessária (até para afastar os campeões de 2006 que estejam em má fase, como Camoranesi e Zambrotta) e que Marcello Lippi ainda sofra com os pedidos cada vez maiores por Cassano, a Itália ainda é a Itália. Rival mais respeitável, a Holanda não poderia querer.
E, para o começo do ano, ainda que tenha alegado “não saber qual”, Bert van Marwijk deseja um rival da América do Sul – mais precisamente, deseja o Brasil. Seria, sem dúvida, mais um teste apropriadíssimo para ver como a seleção se sai contra rivais mais fortes.



