Holanda

Comandante da Holanda vice-campeã em 2010, Bert van Marwijk encerra sua trajetória como treinador

Van Marwijk viveu seu ápice na Copa de 2010 e também foi campeão da Copa da Uefa com o Feyenoord, mas sua carreira estagnou nos últimos anos

Bert van Marwijk se faz presente numa seleta lista de treinadores que disputaram uma final de Copa do Mundo. O técnico não costuma ser unanimidade na Holanda, mesmo pela campanha até a decisão de 2010, quando apostou num futebol pragmático que rompia com a tradição local. Fato é que o veterano tem seu lugar entre os grandes comandantes do futebol de seu país e, aos 69 anos, bota um ponto final em sua condecorada trajetória na casamata. Demitido recentemente da seleção de Emirados Árabes Unidos, Van Marwijk anunciou nesta segunda-feira o final de sua carreira.

Van Marwijk teve uma carreira modesta como jogador. Revelado pelo Go Ahead Eagles, o meio-campista viveu seu auge pelo AZ. Fez parte do time campeão da Copa da Holanda em 1977/78 e chegou a disputar uma partida pela seleção em 1975. Porém, as lesões atravancaram a sua progressão. A partir de 1978, permaneceu oito anos com o MVV, antes de passar por Fortuna Sittard e Assent, pendurando as chuteiras depois disso. Sua relevância como técnico seria bem maior.

O primeiro time dirigido por Van Marwijk foi o Meerssen nas divisões de acesso. Seu salto aconteceu quando assumiu o Fortuna Sittard e levou a equipe para a final da Copa da Holanda em 1998/99. Ajudaria a revelar naquele elenco Mark van Bommel, que se tornaria também seu genro. Já em 2000, Van Marwijk ganhou a chance de dirigir o Feyenoord. Teve o trabalho mais importante da sua carreira em clubes. Não chegou a conquistar a Eredivisie, embora permanecesse na briga pelo troféu. Mais importante foi o título da Copa da Uefa em 2001/02, quando seu time venceu o Borussia Dortmund num emocionante 3 a 2 no próprio De Kuip. Robin van Persie, Jon Dahl Tomasson e Pierre van Hooijdonk estavam entre os destaques.

Van Marwijk ficou no Feyenoord até 2004, quando foi contratado pelo próprio Dortmund. Em tempos de crise financeira, ficaria apenas uma temporada e meia na Alemanha, sem emplacar com os aurinegros. Voltaria pouco depois ao Feyenoord, com a conquista da Copa da Holanda para referendar seu trabalho. Assim, chegou à seleção da Holanda após a Euro 2008, para substituir Marco van Basten. A maneira como priorizava um estilo de jogo mais reativo recebeu críticas na época, mas o time conseguiu ser competitivo. Prova disso veio na Copa de 2010, com a caminhada até a final. Os holandeses deixaram Brasil e Uruguai pelo caminho. Poderiam ter ainda sorte melhor na decisão do Soccer City, mas Andrés Iniesta tinha outros planos para a Espanha.

O problema é que o trabalho de Van Marwijk não se sustentou depois de 2010. A Holanda seguiu sem aproveitar o máximo de seus talentos ofensivos e faria uma campanha fraquíssima na Euro 2012, com a eliminação na fase de grupos. O comandante seria demitido. A sua nova oportunidade aconteceu na Alemanha, escolhido para ser o técnico do Hamburgo em 2013. Num clube decadente, sofreu com a falta de resultados e foi demitido quatro meses depois. Desde então, o holandês perambulou como treinador de seleções na Ásia.

Van Marwijk foi escolhido para treinar a Arábia Saudita em 2015. O fato de não permanecer no país além das Datas Fifa gerava incômodo, mas o trabalho ainda teve seus méritos. Os sauditas se classificaram para a Copa do Mundo de 2018, até que o holandês saísse antes da competição, por não chegar a um acordo na renovação de seu contrato. Em janeiro de 2018, ao menos, ganharia uma nova chance de voltar ao Mundial através da Austrália. Dirigiu os Socceroos na modesta campanha na fase de grupos da Copa e saiu depois disso.

Por fim, Van Marwijk foi levado pelos Emirados Árabes Unidos. Pegava o time em crise, depois da goleada sofrida na semifinal da Copa da Ásia contra o Catar. O trabalho não engrenou e ele seria demitido em dezembro de 2019, para ser recontratado um ano depois. Mesmo assim, os emiratenses fazem uma campanha não mais que razoável nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. Apesar da chance de repescagem, o time passa longe de convencer. Outra goleada mais recente contra o Catar, pelas quartas de final da Copa Árabe, aumentou a pressão. A demissão do técnico aconteceu após a Data Fifa de janeiro, quando Irã e Coreia do Sul se confirmaram com as vagas diretas no Mundial. O argentino Rodolfo Arruabarrena assumiu em seu lugar.

O ápice de Van Marwijk na Copa do Mundo de 2010 o coloca num lugar de privilégio que muitos treinadores holandeses mais talentosos não alcançaram. Já por clubes, certamente a torcida do Feyenoord manterá um carinho especial por tudo o que ele desenvolveu no De Kuip. O veterano não está na primeira prateleira de técnicos de seu país e as dificuldades ao longo da última década deixam o Mundial da África do Sul como último ponto alto antes da aposentadoria. Fato é que, naquela competição, Van Marwijk fez o suficiente para ser lembrado por muito tempo – mesmo que alguns compatriotas prefiram esquecer.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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