Holanda

Bom, mas ruim

 Era possível que a Holanda mostrasse, contra Camarões, um estilo de jogo mais
aberto e relaxado do que o controle tático exibido contra a Dinamarca e a
constante tensão por que o time passou contra o Japão. Mais do que possível,
era algo pedido. Afinal de contas, a equipe já tinha conseguido a classificação
às oitavas de final da Copa do Mundo. Ou seja, pressão não havia. E a escalação
de Robben, cada vez mais possibilitada, ajudava a fazer sonhar com um futebol
de melhor qualidade.

E o primeiro tempo da partida contra os comandados de Paul Le Guen, na Cidade
do Cabo, realmente exibiu uma equipe melhor. Nada de espetacular, é bom que se
diga. Mas os espaços que os camaroneses deixavam em campo (até compreensíveis,
já que a equipe também jogava sem pressão, por estar já eliminada) faziam com
que a Oranje pudesse desenvolver um jogo mais ofensivo. O meio-campo trocava
mais passes, com maior objetividade. E, volta e meia, isso resultava em
lançamentos longos que pegavam a defesa dos Leões Indomáveis desprevenida.

Além disso, aparentemente, Sneijder e Van der Vaart não colidiram tanto como
nas duas primeiras partidas. E isso foi benéfico para o futebol de ambos. O
camisa 10 conseguiu assumir o papel que lhe cabe na Oranje: o de principal
criador de jogadas. Pela esquerda, Van der Vaart foi mais discreto, mas volta e
meia chegou à área e fez cruzamentos. Isso colaborou para o bom desempenho de
outro jogador que andava sumido: Van Persie foi mais acionado. E, portanto,
conseguiu mais chances para finalização.

Perdeu uma delas, ao chutar fraco para a defesa de Souleymanou Hamidou. Mas, na
seguinte, tocou por baixo do goleiro camaronês e fez 1 a 0. Era um prêmio até
merecido, para uma equipe que, enfim, parecia jogar seu melhor futebol, ainda que fosse uma pálida amostra do que ainda pode render. E melhor: a defesa continuava exibindo segurança elogiável. Mesmo que fosse um tanto exagerado nas disputas de bola, Heitinga repelia todas as tentativas de ataque – e Boulahrouz foi grata surpresa, exibindo mais segurança do que Van der Wiel.

Porém, para insatisfação de Van Marwijk (exibida logo após o jogo, em entrevista ao canal de tevê NOS), um erro que já havia sido mostrado contra o Japão voltou a ser detectado. No início do segundo tempo, com a vantagem no placar, a equipe preferiu usar do já conhecido “pragmatismo”. E recuou. Porém, uma coisa fundamental foi esquecida: por mais que recue, a Holanda sempre acaba deixando espaços aproveitáveis ao adversário, que se entusiasma e acaba avançando cada vez mais.

Foi assim que Makoun ficou na cara do gol, só errando a chance por uma ótima defesa de Stekelenburg. Foi assim que Camarões espremeu cada vez mais o time no campo de defesa. Foi assim que uma falta foi cometida nas proximidades da grande área – e cuja cobrança resultou na mão de Van der Vaart, no pênalti marcado, e no empate de Eto'o.

Só então Van Marwijk viu que o time precisava voltar a exibir fluidez. A primeira alteração é que foi meio estranha: trocar Van Persie, que vinha bem, por Huntelaar. Depois, a tradicional entrada de Elia. Só então veio a utilização da arma secreta: Robben, finalmente, no lugar de Van der Vaart.

A bem da verdade, o camisa 11 nem mudou demais o jogo. Porém, bastou uma jogada para se ver como o time ganha quando ele está em campo: num bom lançamento de Sneijder, o nativo de Bedum demorou um pouco para dominar, e perdeu a chance de entrar pela área. Jogada perdida? Não para ele, que driblou Alexandre Song e bateu colocado. Na trave. O rebote ficou fácil para Huntelaar. E veio o 2 a 1 que coroou a eficiência.

Entretanto, mais uma vez, a Holanda demonstrou: ainda não aprendeu a jogar com segurança quando recua excessivamente. E continua confundindo “pragmatismo” com “jogar mal”. Se essa falha não foi aproveitada por Camarões, um time deficiente no ataque (a não ser por Eto'o), certamente será aproveitada à larga por um time que tenha um bom ataque. Caso não haja cuidados, pode até ser pela Eslováquia, rival das oitavas. E, se não o for por eles, certamente será pelo Brasil, provável rival das quartas.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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