Bélgica: otimismo, nota nove

Caso, ao invés de apresentar as notas das escolas de samba cariocas nos desfiles anuais, Jorge Perlingeiro fosse o narrador do desempenho das seleções européias nas Eliminatórias para a Copa de 2010, a Bélgica, com certeza, seria protagonista de um salto admirável em seu desempenho. O time de René Vandereycken tinha pela frente na rodada, além da Armênia, a todo-poderosa Espanha. Era a hora de provar que a jovem seleção está entre as que podem sonhar com uma vaga no Mundial da África do Sul – nem que ela venha da repescagem.
E os Diabos Vermelhos provaram-no definitivamente. Os torcedores que foram às duas partidas no Rei Balduíno, em Bruxelas, viram uma performance segura contra os armênios e, principalmente, um desempenho heróico contra a Furia. O otimismo no país só não levou nota dez porque o objetivo de conseguir ao menos um empate contra os espanhóis deixou de ser atingido, a poucos minutos do fim da partida. Mas a crença é de que fazia tempo que a Bélgica não jogava tão bem.
Frente à seleção treinada por Jan Poulsen, os belgas precisaram apenas do primeiro tempo para definir o jogo. Com um Wesley Sonck inspirado no ataque, aproveitando as chances que chegam aos seus pés, o 2 a 0 final foi atingido sem muito esforço, permitindo até o luxo de um segundo tempo mais defensivo, chamando os adversários para o ataque. Atuando num 4-4-2, o time não precisou de muitas alterações. As únicas intervenções de Vandereycken na escalação foram as laterais, com Gillet pela direita e Jelle van Damme na canhota. No caso de Van Damme, a escalação soou também como afago – após ter ficado no banco contra Estônia e Turquia, o lateral do Anderlecht ameaçou até abandonar em definitivo a carreira na seleção.
A defesa armênia tentou, não se pode negar. Mas o forte belga, por estes tempos, é o meio-campo. A dupla de ataque Dembélé-Sonck (e também a de defesa, Simons-Kompany) tem o trabalho facilitado pela boa fase que vêm passando os quatro jogadores do setor. Defour e Witsel, dupla afinada por atuar junta no Standard Liège, sabe armar o jogo com precisão e, quando necessário, trocar de posição com os outros dois meias. Estes, por sua vez, talvez sejam o destaque da equipe. Vertonghen pode atuar na cabeça-de-área ou até mesmo na zaga, pois sua capacidade de sair com a bola dominada para iniciar as jogadas de ataque mantém-se inalterada. Fellaini, por sua vez, tanto sabe combater sem ser desleal como sabe armar o jogo, transformando-se quase num terceiro meia ofensivo. Aliás, tal habilidade foi mostrada no jogo de sábado. Mais do que armar, o volante do Everton até ajudava na conclusão. Foi dele o segundo gol.
Contudo, o maior mérito da rodada fica mesmo com Vandereycken. Para o jogo contra a Espanha, o treinador já anunciara algumas mudanças, que não haviam sido especificadas: a única certeza era a volta de Vermaelen, poupado contra a Armênia. Na hora da partida contra o time de Vicente del Bosque foi que se viu como a escalação final fora acertada. A alteração profunda da defesa (só Kompany e Stijnen foram titulares também no sábado) não significou falta de entrosamento, muito menos de segurança. Vanden Borre foi bem na lateral esquerda, enquanto Kompany teve atuação estupenda na dupla com Van Buyten – este, aliás, anda insatisfeito com a reserva na seleção.
O acerto maior foi no meio de campo. Mudando o 4-4-2 habitual para um 4-5-1, Vandereycken evitou que a Espanha desse vazão ao seu ponto forte, o domínio de jogo naquela região do campo. Mas o maior número de jogadores belgas não significou congestionamento da meia, devido à organização dos atletas. Enquanto Simons e Vertonghen ficavam mais presos, Defour (que substituiu Dembélé, machucado no aquecimento), Witsel e Fellaini tinha liberdade para ajudar na armação de jogadas e até para auxiliar Sonck na conclusão. Se bem que o solitário avante nem precisava de ajuda. O gol de cabeça, logo aos sete minutos de jogo, teve vários méritos: fez com que os belgas impusessem seu jogo em casa, freou o início melhor dos espanhóis e, pessoalmente, foi o 22º tento do atacante do Club Brugge na seleção, levando-o ao oitavo lugar na lista dos maiores artilheiros na história belga, a apenas um gol de Ceulemans e Degryse.
No entanto, o resto do jogo mostrou algumas falhas. A juventude do time, às vezes, resulta em perigosa autosuficiência. Como no gol de Iniesta que empatou o jogo, quando um passe errado de Fellaini, perto da área de defesa, permitiu a roubada de bola de Fàbregas. Às vezes, traz também desatenções fatais, que permitiram o gol de Villa, aos 43 do 2º. O gol foi lamentado, entre outras coisas, porque Fellaini tivera antes gol anulado por impedimento inexistente. E os jornais estamparam a má sorte belga (a manchete da capa do La Dernière Heure exclamava: “Eles não mereciam aquilo!”).
Sem dúvida, os defeitos precisam de correção para a importante partida contra os bósnios, em março. Mas, além da ajuda providencial da sorte – o empate entre Turquia e Estônia deixou a primeira à frente na tabela, mas com apenas um ponto a mais -, o clima permite sonhar com a repescagem. Quem sabe até com o primeiro lugar. Não fosse assim e a audiência da partida contra a Espanha não teria sido a melhor da RTL, emissora de tevê do país, desde 2000, em um evento esportivo.
O que parecia fácil, foi fácil mesmo
A onda de contusões que vitimou a Holanda poderia ter dificultado as coisas nas partidas contra Islândia e Noruega. Mas a Oranje, mesmo sem brilho, jogou bem o suficiente para faturar duas vitórias que a colocam em posição privilegiada na ponta do grupo 9. Não seria exagero dizer que uma vitória na próxima partida, contra a Escócia, já em 2009, mostrará o quanto o time está bem encaminhado para abocanhar o primeiro lugar do grupo – e a vaga direta para a Copa – sem maiores traumas.
No sábado, contra a Islândia, o time de Bert van Marwijk sofreu contra uma defesa fechada. Demorou para que o toque de bola pedido no meio e no ataque começasse a abrir espaços. Tanto que o primeiro tento saiu de uma jogada ensaiada a partir de um escanteio – e que o autor do gol tenha sido um zagueiro, Mathijsen. Mas, a partir daí, o que se viu foi um jogo apropriado para o pedantismo que vez por outra acomete os laranjas. Realmente, parecia que, a qualquer hora, o time poderia fazer um gol. Principalmente quando se via a atuação inspirada de Van der Vaart (cada vez mais, o centro das jogadas holandesas). O passe para o segundo gol, de Huntelaar, foi brilhante. E, mesmo que os islandeses tenham tido suas oportunidades, raramente fizeram com que Van der Sar trabalhasse a sério. Tal falta de desafios deu mais liberdade até para que o estreante Dirk Marcellis pudesse avançar mais, pela lateral direita. Não acabou com o jogo, mas a consciência no apoio e a seriedade na marcação rendeu ao beque do PSV elogios por parte de Van Marwijk e a certeza de que ele já é jogador talhado para ter mais freqüência nas convocações futuras.
Contra a Noruega, sim, a coisa mudou um pouco de figura. Sem De Jong, machucado, a dupla Van Bommel-De Zeeuw manteve a combatividade de praxe, mas só o volante do Bayern conseguia dar alguma qualidade no passe para os armadores. Além disso, Carew dava alguma preocupação para Ooijer e Mathijsen, além de trabalho mais constante a Van der Sar. Sem contar que a marcação do time de Age Hareide, adiantada no meio, evitava a fluidez e fechava os espaços para o contra-ataque tão decantado na Eurocopa. Aliás, saber desenvolver as jogadas contra um time mais fechado é o principal desafio de Van Marwijk para as próximas partidas.
Mas o gol de Van Bommel, em bonito tiro de fora da área, deu a tranqüilidade que o time precisava. Os lançamentos para que Carew tentasse algo aumentaram ainda mais, e Elyonoussi entrou bem na partida. Mas a defesa conseguiu dar conta do desespero norueguês. Surgiram até alguns contragolpes no fim da partida, que poderiam ter ampliado o placar. Mas o 1 a 0 serviu para mostrar que, mesmo sem jogar bem, a Holanda nada de braçada nas Eliminatórias. Pelo menos, por enquanto.



