Holanda

Ausência da Euro ainda não é o “7 a 1″ holandês. Mas é uma goleada

Vergonha. Catástrofe. O futebol holandês morreu. O futebol holandês precisa mudar de cima a baixo. Os jogadores precisam mudar suas mentalidades. O Futebol Total ficou para trás. A federação precisa de gente do futebol para mudá-la. Praticamente todo brasileiro que se interessa por futebol (e quem não se interessa também, mesmo forçado) ouviu ou falou frases desse tipo após os 7 a 1. E praticamente todo holandês que se interessa por futebol está lendo, ouvindo e falando frases desse tipo, após a queda da Oranje nas eliminatórias da Euro 2016.

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Então o futebol holandês está vivendo hoje exatamente a mesma coisa deflagrada no futebol brasileiro desde 8 de julho de 2014? Claro que não. É bom colocar as coisas em perspectiva: a seleção da Holanda entrou para o “primeiro mundo” do futebol há 41 anos. Antes disso, fizera parte do segundo escalão do futebol europeu, se tanto. Chegara a perder para Luxemburgo, nas eliminatórias da Euro 1964. E mesmo após a Copa de 1974, a Holanda ficou oito anos sem disputar um grande torneio, entre a Euro 1980 e a Euro 1988 que ganhou. Sem contar a ausência na Copa de 2002. Isto é, vexames periódicos são comuns na história da seleção laranja.

O que não quer dizer que o fracasso confirmado com os 3 a 2 sofridos para a República Tcheca, em plena Amsterdam Arena, seja apenas “mais um fracasso”. Afinal, num campeonato europeu de seleções que contará pela primeira vez com 24 equipes, ficar fora das equipes classificadas representa um fortíssimo sinal de alerta. Pior: com a Eredivisie cada vez mais sucateada (e poucos sinais de que isso mudará), a dificuldade cada vez maior na revelação de talentos e um estilo de jogo superado, o temor holandês de decadência definitiva é maior do que o temor brasileiro. Sim, há o risco da Holanda ficar fora da Copa de 2018. E da Euro 2020. Talvez até da Copa de 2022.

Exagero? Talvez. Mas a espiral negativa já começou. Aliás, bem antes do vexame atual. Também é voz corrente entre jornalistas e torcedores: a crise do futebol holandês é bem antiga, e foi mascarada pelo vice-campeonato na Copa de 2010, mais a ótima campanha na Copa de 2014. Basta lembrar que já nessa época clubes holandeses estavam caindo pelas tabelas nas competições continentais. E que entre 2010 e 2014, houve outro vexame, na Euro 2012, com três derrotas nos três jogos da primeira fase, eliminação até hoje sem paralelo na história da Oranje.

Pior: nada disso mudou o estilo de jogo do futebol holandês. Por mais que ela tenha diminuído, a influência de Johan Cruyff, Rinus Michels e do Futebol Total de 1974 ainda é forte o suficiente para que a Holanda insista no 4-3-3. Claro que jogar com três atacantes não é hábito superado; se fosse, Real Madrid e Barcelona não teriam dois dos trios ofensivos mais temíveis do futebol mundial. O que está antiquado é o 4-3-3 à holandesa, com espaço excessivo entre os setores e a linha de defesa subindo exageradamente. Todos esses erros foram cometidos nas últimas partidas holandesas nas eliminatórias da Euro.

“Ué, mas e a Copa de 2014?” Outra exceção. Basta lembrar que Louis van Gaal escalou a Oranje no 4-3-3, num amistoso contra a França, em março do ano passado. Resultado: a derrota por 2 a 0 ficou muito barata, e a seleção holandesa teve atuação pavorosa no Stade de France. Some-se a isso a primeira lesão de Kevin Strootman, poucos dias depois, e Van Gaal entendeu: ou protegia mais a defesa, ou a Holanda não teria vida longa na Copa do Mundo. Os dias de preparação disponíveis foram usados para treinar o time no 5-3-2. Com todo o time encaixado, esforços defensivos e Arjen Robben vivendo alguns dos melhores dias de sua carreira, a Oranje alcançou um imprevisto e aplaudido terceiro lugar. Tudo para Guus Hiddink recolocar o time no 4-3-3, fragílimo defensivamente, após a Copa.

Então a culpa é de Guus? Não só. Sua escolha para suceder Van Gaal foi conduzida pessimamente pela federação – mais precisamente, por Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da entidade. Quando Van Gaal já indicava que sairia da seleção após a Copa, Van Oostveen iniciou contatos com Ronald Koeman, que gostaria de assumir a Oranje. E até merecia, pelo forte histórico como jogador (78 jogos entre 1983 e 1994, duas Euros e duas Copas no currículo, capitão esporádico da seleção, um dos grandes zagueiros holandeses de todos os tempos) e pela reação na carreira de técnico, no Feyenoord. O caminho de Koeman era a seleção. A tal ponto que, em 2013, ele renovou o contrato com o Feyenoord por somente um ano. Para que ficasse livre ao fim da temporada 2013/14.

Estava tudo assim. Até Guus Hiddink, semi-aposentado após deixar o Anzhi-RUS, indicar que reassumiria a seleção se fosse convidado. Van Oostveen se interessou, deixou Koeman de lado e falou rápido com Hiddink, acertando seu retorno em fevereiro de 2014. Mais do que isso: Hiddink ficaria até a Euro 2016, tornando-se depois um diretor técnico e cedendo o comando no banco para Danny Blind. “Planejamento?” Não: apenas uma decisão intempestiva com ares de “planejamento”. A escolha da dupla Hiddink/Blind foi tão mal conduzida que Van Oostveen, depois, sugeriu que Koeman poderia ser auxiliar de Hiddink, como já fora na Copa de 1998. Magoado com a falta de consideração, o ex-zagueiro não só recusou, como segue negando qualquer hipótese de treinar a Oranje: “Não serei técnico da seleção, nem agora, nem no ano que vem”.

Pior: na verdade, Van Oostveen nunca se interessou pelo trabalho de Hiddink. Seu objetivo era efetivar Danny Blind tão logo fosse possível. Até por isso, periodicamente o diretor da federação sabotava implicitamente o trabalho do técnico, com declarações atravessadas e mal-entendidos. Além das escolhas táticas erradas, aos poucos Hiddink se cansou do “fogo amigo”. E em junho, deixou o cargo para Blind – e deixou de vez a federação, abandonando os planos de ser diretor técnico da entidade. Com pouco tempo, o efetivado manteve os erros táticos. E a eliminação foi inevitável e merecida.

A seleção holandesa foi eliminada da Eurocopa 2016 (Foto: AP)
A seleção holandesa foi eliminada da Eurocopa 2016 (Foto: AP)

Agora os culpados são Van Oostveen, Hiddink e Blind? Não só. O campo é o que conta, no fim das contas. E aí a seleção holandesa vive séria crise. No ataque, os novatos ainda causam desconfiança. Memphis Depay ainda exagera no individualismo; Anwar El Ghazi é novo demais para qualquer coisa; Bas Dost e Luuk de Jong são meros “finalizadores”, e também não são tão garotos. No meio-campo, Davy Klaassen e Jordy Clasie até têm talento, mas cada partida de Wesley Sneijder a mais é uma chance a menos para ambos. E como culpar o camisa 10? Ele tem todo o direito de continuar, assim como Arjen Robben e Van Persie. Todos já indicaram que seguem na Oranje para as eliminatórias da Copa de 2018. Têm história e talento que justifiquem. Mas isso só retarda a chance aos novatos.

Se no ataque e no meio-campo a renovação é pequena, na defesa o problema é outro. Há zagueiros jovens. Mas todos, sem exceção, são inseguros. O melhor da safra é De Vrij, atualmente lesionado. De resto, pode-se fazer a lista: Bruno Martins Indi, Karim Rekik, Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk, nenhum deles é confiável. Vlaar? Este já tem 30 anos, operações nos dois joelhos e está sem clube, treinando no AZ após séria lesão: ou seja, não significaria segurança alguma. Na lateral direita, até há Daryl Janmaat. Mas e pela esquerda? Contar com Daley Blind ou com Jetro Willems? No gol, Jasper Cillessen voltou a ser questionado; Tim Krul é frágil fisicamente; e Vermeer não traz confiança à torcida.

E o time sub-21 nem é tão promissor. Basta dizer que, no domingo passado, após duas vitórias, perdeu em casa para a Eslováquia, nas eliminatórias da Euro da categoria. A escalação foi Van der Hart; Hateboer, Luckassen, Hoedt e Aké; Vilhena, Hendrix e Van Overeem; Mahi, Janssen e Kishna. Nenhum deles com potencial para virar craque definitivo, ainda. E alguns dos convocados da Jong Oranje, como o volante Riechedly Bazoer, até já figuram na seleção principal. Mas como terão chances?

Agora, a Holanda procura explicações para o vexame. Ausência de jogadores “raçudos”, como alegou Ruud Gullit? A insistência na troca infrutífera de passes, como escreveu Johan Cruyff? A ausência de um diretor técnico com história no futebol, como reclamaram ex-técnicos e até um auto-indicado a ser esse diretor, Toon Gerbrands, atualmente no PSV? Pior: a palavra “vexame” não foi ouvida da boca de Danny Blind (“A única coisa a fazer é olhar para frente. É isso, avançar de novo e ir rumo à Copa de 2018.”), nem de Bert van Oostveen (“A despeito da tristeza, estamos construindo um time relativamente jovem. Às vezes isso é chato, mas não se pode fugir.”).

Só resta ao futebol holandês baixar a cabeça. Continuar trabalhando sob o comando de Danny Blind, que não sairá e nem tem concorrentes (Frank Rijkaard deixou a carreira de técnico; Frank de Boer já disse que não quer assumir a seleção neste momento). Comentar e invejar Alemanha, Espanha e Bélgica, os “exemplos” mais citados para o futebol do país. Porque a ausência da Euro 2016 não é o 7 a 1 holandês, ainda: o “sétimo gol” seria ficar de fora da Copa de 2018. Mas a Holanda está, sim, perdendo de goleada. Um 6 a 0, digamos assim. E parafraseando o lema já histórico aqui no Brasil, 6 a 0 está sendo pouco.

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