Apresentação da temporada – Holanda

No dia 29 em que esta coluna está sendo publicada, Vitesse e Groningen abrirão, às 15h45, no Gelredome de Arnhem, a Eredivisie 2008/09. E este Campeonato Holandês traz como novidade a diminuição dos famigerados playoffs: a partir de agora, a pedido dos clubes, a KNVB restringiu os mata-matas decisivos a emparceiramentos do 5º ao 8º lugar (5º x 8º e 7º x 6º), este definindo uma vaga para a segunda fase preliminar da Copa da UEFA, enquanto os times que ocuparem o 16º e o 17º posto ao final do campeonato estarão “pré-classificados” para enfrentar os sobreviventes da Nacompetitie, mata-mata envolvendo os oito times abaixo do campeão da Eerste Divisie (segunda divisão holandesa), no “Torneio da Morte”, que definirá a segunda vaga na Eredivisie 2009/10, já que o campeão da Eerste Divisie garante o acesso automático. De resto, tudo foi simplificado: o campeão da temporada continua entrando diretamente na fase de grupos da Liga dos Campeões, mas o vice ganha lugar na segunda fase preliminar da LC. O 3º colocado ganha vaga na quarta fase preliminar da próxima Copa da UEFA e o 4º, na terceira fase. O lanterna cai direto para a Eerste Divisie.
Com relação a favoritismo, o PSV, muito embora não vá nadar de braçada como no ano passado, pode ser considerado o “pole-position” na largada que pode terminar com um pentacampeonato consecutivo, feito inédito na história do futebol holandês. Os Boeren perderam terreno, por incrível que pareça, logo após o tetra: em entrevista à revista “Voetbal International”, o goleiro Gomes, considerado o principal ídolo do time, jogou no ventilador toda a turbulência interna por que passava a relação entre jogadores e diretores. Além de lamentar a perda do ambiente “familiar” que cercava o clube de Eindhoven nos tempos de Guus Hiddink, Gomes não fez rodeios quando referiu-se ao presidente Jan Reker: disse que ou Reker renunciava, ou ele sairia do clube. Porém, mesmo apoiado pelo diretor técnico, o ex-jogador Stan Valckx, Gomes perdeu a queda-de-braço com o manda-chuva e viu como solução ir para o Tottenham. Mas não se pode isentar Jan Reker do seu quinhão de culpa: ao não dar oportunidades a jovens como Aissati, viu o promissor meia forçar a barra para ir rumo ao rival Ajax.
Entretanto, mesmo com a perda de Gomes, Aissati e do artilheiro Jefferson Farfán, o PSV ainda é favorito, pelas boas contratações feitas na janela de transferências. A começar pelo técnico: Huub Stevens fez, inegavelmente, um bom trabalho no Hamburgo, e ganha ainda mais motivação por trabalhar agora no clube onde jogou por onze anos. O atacante Nordin Amrabat, de boa campanha no rebaixado VVV-Venlo, foi disputado pelo trio de ferro, mas acabou mesmo em Eindhoven, onde pode ser o lado ágil da dupla que formará com o “tanque” Danny Koevermans. Apesar da passagem decepcionante pelo Manchester City, Isaksson, entrando em forma, tem todas as condições não só de diminuir os lamentos pela saída de Gomes, como de voltar a entrar para o rol dos melhores goleiros da Europa, atualmente. E ainda estão no time da Philips Bakkal, Edison Méndez, Timmy Simons, além da promessa Dirk Marcellis. É certo que as contratações de Bréchét e Stefan Nijland não passam de apostas, bem como a aquisição do mexicano Francisco Rodríguez, para fazer dupla com o compatriota Salcido. Mas nada impede a torcida de sonhar com o penta.
Com relação ao Ajax, só haverá certeza sobre a que veio o time passadas algumas rodadas. As trapalhadas do PSV ajudaram a diminuir a distância que se abria entre os rivais, mas não justificam a sucessão de vexames que os Godenzonen têm passado em competições européias nas últimas temporadas (e até em âmbito nacional, como o Twente provou no fim do torneio passado). Se era preciso fazer alguma coisa, como o relatório do agora presidente Uri Coronel mostrou, até se fez. A comissão técnica, no papel, promete: não bastasse a vinda de Marco van Basten, agora com a experiência da seleção holandesa, para dirigir o time, ainda houve a volta de Danny Blind ao cargo de diretor técnico, além de um certo Dennis Bergkamp, já com diploma de técnico concedido pela federação nacional, estar estagiando com Van Basten e os auxiliares John van’t Schip e Rob Witschge. O xis da questão é o time. Muito embora o Ajax possa ter acertado ao fazer em Aissati a aposta que o PSV não quis, ao ter adquirido o cobiçado sérvio Mirajem Sulejmani do Heerenveen e ao conseguir segurar os hoje intocáveis Stekelenburg e Emanuelson, a manutenção de gente como Rommedahl e o brasileiro Leonardo em detrimento da sempre frutífera base alvirrubra não faz crer que houve uma mudança profunda de mentalidade. E contratações como a de Oleguer são controversas, para dizer o mínimo. Mas, caso Van Basten consiga selecionar bem as peças e, principalmente, as horas finais da janela européia de transferências não levem o cobiçadíssimo Huntelaar, peça central do ataque, talvez o melhor jogador holandês atuando na Holanda hoje, dá para esperar tempos um pouco mais animadores.
Incógnita também é o Feyenoord. O ano passado começou cheio de esperanças, após o time sair às compras e trazer De Cler, Makaay e Van Bronckhorst. Mas terminou decepcionante, com nada além de um 6º lugar e uma vaga na Copa da UEFA como campeão da copa nacional. Porém, ao contrário do adversário Ajax, o time da Het Legioen não vê grandes perspectivas para o futuro. Os jogadores surgidos da base não conseguiram ainda estourar em definitivo, caso do volante Greene e, principalmente, do zagueiro Vlaar, este sempre às voltas com contusões. Tomasson é até um atacante cuja experiência traz utilidade, mas esperar que ele tenha o desempenho fulgurante do título na Copa da UEFA 2001/02 é ingenuidade, dados seus 32 anos completos neste dia 29. E, para piorar, Nuri Sahin, que teve honroso desempenho no ataque, voltou para o Borussia Dortmund que o emprestara. Conseguir um desempenho que orgulhe os torcedores, pelo menos no 2008 do centenário do clube de Roterdã, será o desafio para Gertjan Verbeek, tirado do Heerenveen para substituir Bert van Marwijk.
Equilíbrio também será a palavra-chave na briga para ver quem será o “quarto integrante” a brigar com o Trio de Ferro. O AZ de Louis van Gaal perdeu o experiente Barry Opdam para o Red Bull Salzburg, mas confia nas vindas de Moisander, Lens e Kees Luijckx para melhorar a espinha dorsal formada por Sergio Romero, Jaliens, Pocognoli, Schaars (recuperado de uma contusão no tornozelo) e Dembélé. O Twente sofreu apenas seis perdas na janela, mas metade delas eram importantes – Engelaar, Wilkshire e El Ahmadi, além do técnico Fred Rutten -, mas confia nos que ficaram para igualar o bom desempenho da Eredivisie passada. O Heerenveen, que já perdeu Sulejmani e Zuiverloon, tenta não ceder Pranjic para o Real Betis. NAC, Roda JC, Vitesse e Groningen correm por fora, para tentar confirmar o equilíbrio que esta Eredivisie insinua. Equilíbrio que poderia ser sinônimo de um grande campeonato, não fosse a palidez do mercado futebolístico holandês para brigar com os pesos-pesados da Europa.



