Holanda

Análise da temporada (I): os melhores times no Holandês

“De nada adiantará Ajax, PSV e Feyenoord voltarem a deter o domínio na Holanda, se isso significar a queda de desempenho dos clubes menores.” Essa frase estava no guia do Campeonato Holandês 2012/13, publicado neste espaço em 13 de agosto de 2012. Se era bom ver o Trio de Ferro holandês retomando o topo, seria melhor ver isso aliado a um desempenho mais razoável dos clubes medianos que pudessem perturbá-los.

À primeira vista, pode parecer que os temores foram confirmados: novamente, Ajax, Feyenoord e PSV ocuparam as três primeiras posições, ao final das 34 rodadas da Eredivisie. Mas um olhar mais acurado faz notar que há esperança de maior equilíbrio. Se o número de clubes ascendentes parecia restrito a AZ e Twente, o Vitesse incluiu-se nele (pelo menos, por enquanto). Os Tukkers sofreram uma queda brusca, mas ainda observam alguma base para recomeçarem. E ainda houve o Utrecht, a “cinderela” da vez.

Enfim, a expectativa de domínio dos grandes até se cumpriu. Mas tal profecia foi o certo cumprido por linhas tortas. Não custa lembrar: até a 30ª rodada, até o Vitesse tinha chances de ser campeão holandês. Caso 2013/14 siga na mesma toada, já será satisfatório. Por enquanto, veja a análise dos seis melhores times da última Eredivisie.

Twente

Colocação final: 6º colocado, com 62 pontos em 34 rodadas

Técnico: Steve McClaren (até a 24ª rodada) e Alfred Schreuder

Maior vitória: Willem II 2×6 Twente (5ª rodada)

Maior derrota: PSV 3×0 Twente (16ª rodada)

Principal jogador: Nacer Chadli (atacante)

Artilheiro: Luc Castaignos (13 gols)

Copa nacional: eliminado na terceira fase, pelo Den Bosch

Competição continental: Liga Europa (eliminado na fase de grupos)

Nota da temporada: 7

Até o início do returno, o Twente poderia ser considerado fortíssimo candidato ao título. No velho estilo conservador de armar o time, Steve McClaren ainda tinha um meio-campo com Leroy Fer na ponta dos cascos. No ataque, Tadic e Chadli eram azougues. E de volta ao futebol holandês, após a malograda experiência na Internazionale, Luc Castaignos revelava-se mais autoconfiante. Finalmente, Willem Janssen e Wout Brama faziam o trabalho sujo da marcação no meio, impedindo que tudo estourasse em Rasmus Bengtsson e Douglas.

Com um desempenho altamente regular, sem turbulências, os Tukkers sonhavam com o segundo título nacional. Mas o time entrou em parafuso tão logo começou o returno: exagerava na retranca, parecia com medo de se abrir aos ataques adversários. Ao mesmo tempo, não conseguia ter eficácia nos contra-ataques. Para completar, Fer e Chadli se lesionaram. Resultado de tal esquizofrenia: oito partidas sem vitória. Steve McClaren perdendo o emprego. E chances de título nacional se desmilinguindo.

Interinamente, restou ao ex-jogador Alfred Schreuder, auxiliar de McClaren, solucionar o incêndio. E até conseguiu, fazendo o time entrar nos play-offs pela Liga Europa e levando-o perto de uma vaga. Não obteve sucesso. Mas, de contrato novo e efetivado, Schreuder pode criar um ambiente mais calmo, impedindo o Twente de perder o foco sem razão. Afinal, esse foi o motivo que transformou uma temporada promissora em decepção.

Utrecht

Colocação final: 5º colocado, com 63 pontos em 34 rodadas

Técnico: Jan Wouters

Maior vitória: Utrecht 4×0 Roda JC (24ª rodada)

Maior derrota: AZ 6×0 Utrecht (30ª rodada)

Principal jogador: Jacob Mulenga (atacante)

Artilheiro: Jacob Mulenga (14 gols)

Copa nacional: eliminado na segunda fase, pelo Ajax

Competição continental: nenhuma

Nota da temporada: 7,5

Às vezes, coisas engraçadas ocorrem no Campeonato Holandês. Não raro, uma de suas equipes revela uma mudança quase completa, de uma temporada para outra. Se fizera campanha decepcionante, sobe bastante de produção. Pois bem, eis o caso vivido pelo Utrecht em 2012/13. E o mais incrível: a equipe viveu tal metamorfose sem mudar tanto sua base.

Por exemplo: na defesa, o goleiro Robbin Ruiter e o zagueiro Mike van der Hoorn até cometeram algumas falhas vexatórias. Nada que os impediu de serem considerados dois promissores jogadores – Van der Hoorn, aliás, até foi convocado por Louis van Gaal para a seleção (não jogou, mas isso é outra história). E havia Nana Asare, Cedric van der Gun, Tommy Oar, Jacob Mulenga… todos jogadores que já haviam figurado no apagado 11º lugar da última temporada. E que, no entanto, voltaram a formar um time coeso, sob o comando de Jan Wouters.

Claro, nada que não pudesse ser melhorado – e foi, com a entrada de Jens Toornstra, comprado na janela de transferências de janeiro e transformado em titular absoluto quase de imediato. Não houve muito como chegar perto do título, mas a vaga nos play-offs da Liga Europa foi garantida com segurança. E, para ganhar a vaga propriamente dita, os Utregs sequer se assustaram com o Twente revertendo a vantagem de 2 a 0, no jogo de volta. Fizeram um, ganharam no placar agregado e classificaram-se. Um prêmio justo, no fim das contas.

Vitesse

Colocação final: 4º colocado, com 64 pontos em 34 rodadas

Técnico: Fred Rutten

Maior vitória: ADO Den Haag 0x4 Vitesse (27ª rodada)

Maior derrota: AZ 4×1 Vitesse (19ª rodada)

Principal jogador: Wilfried Bony (atacante)

Artilheiro: Wilfried Bony (31 gols)

Copa nacional: eliminado nas quartas de final, pelo Ajax

Competição continental: Liga Europa (eliminado na terceira fase preliminar, pelo Anzhi-RUS)

Nota da temporada: 8,5

O Vitesse já dava sinais evidentes de que o crescimento era sustentável: na temporada passada, conseguiu merecidamente o lugar nas fases preliminares da Liga Europa 2012/13. Esperar uma temporada boa era bastante razoável. Até porque, a despeito de ter o carimbo de “mecenas” na testa (o que quase sempre resulta em comando desmedido e gastos excessivos), Merab Jordania pelo menos teve o mérito de não caitituar muito o trabalho de Fred Rutten – bem, algumas vezes ele não resistiu, é verdade.

Pois bem: apesar dos pequenos e estranhos entreveros internos que teve vez por outra, Rutten contou com um bom time. Na defesa, Patrick van Aanholt e Tomas Kalas disseram ao Chelsea “se precisarem, ‘tamos aí”. No meio-campo, a juventude de Marco van Ginkel (e sua capacidade de sair jogando) recebeu o auxílio da experiência (e maior firmeza na marcação) de Theo Janssen. Depois, ainda havia bons coadjuvantes, como Mike Havenaar e Alex Renato Ibarra.

E, óbvio, o capítulo à parte, o sujeito que levou o Vitesse a ser surpresa na temporada. Wilfried Bony marcou época, foi dos grandes atacantes a atuarem na Europa nesta temporada. Ao quebrar o recorde de gols marcados em uma temporada no clube, o marfinense foi personagem fundamental na explicação da razão dos Arnhemmers terem ficado por tanto tempo na disputa das primeiras posições. Resultados irregulares nas rodadas finais (o 3 a 3 permitido contra o Roda JC, após vitória por 3 a 0; a derrota para o Feyenoord, por 2 a 0, sem Bony) impediram o sonho do título.

Bony deverá sair. Desgastado, Fred Rutten já saiu. E será sob Peter Bosz, já contratado junto ao Heracles, que o Vitesse deverá provar que é um time que não estará dependente dos caprichos de Merab Jordania.

Feyenoord

Colocação final: 3º colocado, com 69 pontos em 34 rodadas

Técnico: Ronald Koeman

Maior vitória: Feyenoord 6×0 Heracles (32ª rodada)

Maior derrota: PSV 3×0 Feyenoord (6ª rodada), Twente 3×0 Feyenoord (11ª rodada) e Ajax 3×0 Feyenoord (19ª rodada)

Principal jogador: Graziano Pellè (atacante)

Artilheiro: Graziano Pellè (27 gols)

Pelo menos no início da temporada, a base jovem que ia a campo estava mantendo o Feyenoord na parte superior da tabela. A defesa, principalmente, mostrava a ascensão de mais dois jovens, Bruno Martins Indi e Stefan de Vrij, melhores até do que o veterano Mathijsen (não que este envergonhasse). Mas… ainda faltava algo. E esse “algo” chegou na explosão de Graziano Pellè.A partir de setembro, o italiano explodiu. E a quantidade de gols que ia fazendo o transformou no protagonista de que o Feyenoord precisava. Ao mesmo tempo, surgiu Jean-Paul Boëtius, de desempenho satisfatório na frente. No meio-campo, Tonny Trindade de Vilhena trouxe o auxílio de que Jordy Clasie precisava. E, por fim, o Feyenoord encontrou a coesão necessária para se manter em alta no futebol holandês.

Claro, nada foi perfeito. O time se ressentia demais da ausência de Pellè, e poderia ter disputado o título mais seriamente caso tivesse alternativas mais confiáveis ao italiano. Mas o terceiro lugar já serviu para mostrar que a equipe tem bala na agulha para manter-se entre os ponteiros. Garra e talento não faltam. Resta ser mais destemida, deixar de depender demais de um protagonista.

PSV

Colocação final: vice-campeão, com 69 pontos em 34 rodadas (superior ao Feyenoord por ter mais gols pró)

Técnico: Dick Advocaat

Maior vitória: PSV 7×0 ADO Den Haag (21ª rodada)

Maior derrota: Ajax 3×1 PSV (15ª rodada), PSV 1×3 Zwolle (19ª rodada) e Twente 3×1 PSV (34ª rodada)

Principal jogador: Dries Mertens (atacante)

Artilheiro: Dries Mertens (16 gols)

Copa nacional: vice-campeão

Competição continental: Liga Europa (eliminado na fase de grupos)

Nota da temporada: 8

Contratação de Mark van Bommel, o capitão, a lembrança do último grande momento vivido pelo PSV na Europa (as semifinais da Liga dos Campeões 2004/05). Dick Advocaat de volta ao banco, impondo algum respeito. Jogadores jovens de talento cada vez mais inquestionável, como Kevin Strootman, Dries Mertens e Jeremain Lens. Enfim, se a busca era pelo título holandês no ano de seu centenário, o PSV se armou com tudo para ela.

Mas não deu certo. A razão? Como sói acontecer, não há um motivo para a decepção, mas alguns. Os mais importantes deles, claro, em campo. As atuações irregulares de Toivonen e Wijnaldum enfraqueceram a armação das jogadas ofensivas; a defesa tinha pontos fracos na lateral esquerda (Pieters sofreu com lesões, Willems mostrou-se imaturo em alguns momentos) e no miolo (Bouma, Derijck e Marcelo eram criticados por várias vezes); violento por algumas vezes, Van Bommel não era o líder que todos esperavam; e Dick Advocaat não conseguia solucionar nada disso.

Ao mesmo tempo, havia os problemas internos, com as fortes críticas ao distanciamento do PSV em relação à sua torcida, nos últimos tempos. Costumeiro contratante de jovens talentos, que são fortalecidos até ganharem estofo suficiente para fazerem sucesso mundo afora, o clube virou apenas um “costumeiro contratante”, para muitos.

Somando-se o que se vivia dentro do Philips Stadion ao visto em campo, o resultado talvez explique o decepcionante 2012/13, que Lens e Mertens, rápidos atacantes, os dois únicos motivos de alegria do PSV, não conseguiram melhorar. Sem ambos, que estão se transferindo (Lens já foi para o Dynamo Kiev; Mertens está bem próximo do Napoli), e passando por uma reformulação interna, os Boeren não terão o que comemorar no ano do centenário. Mas quem sabe ele seja o marco para celebrações futuras.

Ajax

Colocação final: campeão, com 76 pontos em 34 rodadas

Técnico: Frank de Boer

Maior vitória: NEC 1×6 Ajax (3ª rodada)

Maior derrota: Ajax 0x2 Vitesse (11ª rodada)

Principal jogador: Christian Eriksen (meio-campista)

Artilheiro: Siem de Jong (12 gols)

Copa nacional: eliminado nas semifinais, pelo AZ

Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado na fase de grupos) e Liga Europa (eliminado na segunda fase, pelo Steaua Bucareste-ROM)

Nota da temporada: 9,5

Falta pouco, muito pouco, para que o Ajax se transforme no que Johan Cruyff, o mentor da “revolução de veludo” que fez o clube voltar a ser soberano na Holanda, queria, ao protestar por mudanças no local onde nasceu e cresceu futebolisticamente: uma espécie de “Porto holandês”. Se não um clube novamente campeão europeu, como já foi, pelo menos alguém que incomode os grandes, que chegue a quartas de final, que avance, que não se apequene.

Pelo menos no Campeonato Holandês, isso já foi plenamente alcançado. Se nos dois títulos anteriores, reações até impressionantes tiveram de ser empreendidas na parte final do torneio para levarem à taça, dessa vez os Ajacieden sempre se mantiveram à espreita. Jogando do mesmo jeito, marca registrada do clube, apenas esperando tropeços de PSV e Twente para assumirem a liderança.

Quando assumiram-na, foi para não largá-la mais. Porque havia foco. Havia capacidade de se impor nos momentos decisivos do campeonato – como no clássico contra o PSV, na 30ª rodada, quando a vitória por 3 a 2 colocou a equipe na rota do título. Havia calma – nem mesmo na rodada posterior, ao empatar em casa com o Heerenveen, o Ajax se desesperou. Havia um grupo de jogadores que sabia como jogar, e não mudaria esse estilo por quase nada.

E havia, claro, bons jogadores. Na defesa, Alderweireld, Moisander e Daley Blind não permitiram que se sentisse a falta de Vertonghen; Schone e Christian Poulsen mantinham o alto nível técnico, enquanto Eriksen enfim mostrava o jogador em quem muitos apostam; no ataque, embora tenha caído na parte final da temporada, Siem de Jong seguiu sendo o homem de confiança de Frank de Boer.

Enfim, o tricampeonato foi merecido. Falta manter a fábrica de talentos bem ativa, ter a sorte de contar com boas safras e não se render a qualquer proposta para aumentar as chances do Ajax dar o salto necessário na Europa. Ah, sim: conseguir grupos mais fáceis nas competições também ajudaria.

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