Análise da temporada (Holanda) – Parte III

Feyenoord
Colocação final: 7º colocado, 45 pontos em 34 jogos
Técnico: Gertjan Verbeek (até 17ª rodada) e Leon Vlemmings
Maior vitória: Feyenoord 5×1 Heracles (30ª rodada)
Maior derrota: Feyenoord 1×3 De Graafschap (14ª rodada) e SC Heerenveen 3×1 Feyenoord (18ª rodada)
Principal jogador: Georginio Wijnaldum (meio-campista)
Decepção: Tim de Cler (lateral-esquerdo)
Artilheiro: Roy Makaay (16 gols)
Copa nacional: Eliminado na quarta fase, pelo Heerenveen
Competição continental: Copa Uefa (eliminado na fase de grupos)
Nota da temporada: 5,5
2008, o ano do centenário, já começara ruim: o Stadionclub conseguiu apenas a sexta colocação, na Eredivisie. Bem, veio um título, a Copa da Holanda, que acabou dando a vaga na Copa Uefa. Mas, ora bolas, o 6º lugar já dava direito a isso. E nem mesmo o troféu acabou com o sentimento desapontador no De Kuip. Entretanto, a primeira metade do ano passado pareceu até ótima, em vista do que aconteceu no segundo semestre.
Via-se um Feyenoord assustadoramente ruim, não parecendo sequer sombra do time tradicional e aguerrido – sem falar da torcida fanática. Um clube mergulhado em problemas internos, tanto na diretoria, com os erros crassos da dupla Peter Bosz-Wim Jansen, como na equipe, com o racha entre Gertjan Verbeek, técnico adepto de pouca conversa e muito exercício, e os veteranos, liderados por Makaay e pelo capitão Van Bronckhorst. Uma campanha risível na Copa Uefa – na preliminar, o time já penara para passar pelo Kalmar, da Suécia; na fase de grupos, o desastre, a lanterna, sem ponto algum. Enfim, nada auspicioso para o primeiro holandês a conquistar um título continental.
Mas o tempo passou, Verbeek acabou não segurando a barra e caiu, levando junto de si Jansen e Bosz, o interino Leon Vlemmings tratou de acalmar as coisas, fazendo o feijão-com-arroz, e o time subiu. A boa entrada de Tomasson, que exerceu influência mais elogiável do que outros veteranos sobre as revelações – notadamente o trio Fer-Biseswar-Wijnaldum, com este último impressionando, pela calma e segurança admiráveis para alguém de 19 anos -, só ajudou a aumentar as esperanças de que as coisas pudessem ser consertadas ainda em 2008/09. Não puderam: o clube até chegou aos play-offs da Liga Europa, mas o NAC Breda mostrou que um lugar no torneio era imerecido.
Quem sabe a chegada de Mario Been melhore as coisas. E que os jogadores tenham aprendido. É o que Het Legioen espera.
Groningen
Colocação final: 6º colocado, 56 pontos em 34 jogos
Técnico: Ron Jans
Maior vitória: Groningen 5×0 Volendam (10ª rodada)
Maior derrota: Groningen 1×4 Twente (15ª rodada)
Principal jogador: Marcus Berg (atacante)
Decepção: Matías Cahais (zagueiro)
Artilheiro: Marcus Berg (17 gols)
Copa nacional: Eliminado na quarta fase, pelo NAC Breda
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 7,5
Os alviverdes tiveram uma temporada de alternâncias. No começo, a situação era similar à do NAC Breda, descrito aqui na semana passada; a equipe armada por Ron Jans parecia ter cacife para brigar até pela taça. Não faltava coesão no time, muito menos segurança nos nomes-chave: o brasileiro Luciano, no gol, comandava toda a defesa, enquanto Levchenko e Danny Holla controlavam o meio e Marcus Berg marcava gols atrás de gols no ataque. Tudo isso, salpicado por uma torcida calorosa, dentro de um estádio moderno e com jeito de “alçapão” ao mesmo tempo, o Euroborg.
Porém, o tempo passou, o clube não se mostrou apto a sonhar com o título, e passou a se concentrar mais no sonho de voltar às competições continentais, dando mais um passo no trabalho de formiga que Ron Jans faz, desde 2001. O sonho era realizável – ainda mais tendo um Berg cada vez melhor nas finalizações. E, enfim, o clube chegou à final dos play-offs, contra o “irmão espiritual”, NAC Breda. Ganhava por 1 a 0, fora de casa. Mas Idabdelhay empatou, nos acréscimos. Até aí, tudo bem: decisão no Euroborg, com a torcida em cima, era indício de classificação próxima. Mas os Bredase golearam, por 4 a 0, findando o sonho.
Uma temporada realizada em um patamar de razoável para bom terminava em baixa. O que não é sinônimo de fracasso, e nem pode ser de reformulação. A esperança continua, apesar dos pesares.
Heerenveen
Colocação final: 5º colocado, 60 pontos em 34 jogos
Técnico: Trond Sollied
Maior vitória: Heerenveen 5×1 Sparta Rotterdam (27ª rodada)
Maior derrota: Twente 6×0 Heerenveen (12ª rodada)
Principal jogador: Danijel Pranjic (meio-campista)
Decepção: Mika Väyrynen (meio-campista)
Artilheiro: Danijel Pranjic (16 gols)
Copa nacional: Campeão
Competição continental: Copa Uefa (eliminado na fase de grupos)
Nota da temporada: 8
Gertjan Verbeek se foi para o Feyenoord, Afonso Alves conseguiu a transferência tão sonhada para o exterior, a campanha na fase de grupos da Copa Uefa deixou a desejar… estaria o Orgulho da Frísia à beira de cair pelas tabelas também na Eredivisie, pondo fim à lenta e segura ascensão, iniciada ainda nos tempos de Foppe de Haan?Devagar, gradualmente, a gente no Abe Lenstra provou que não. A despeito de alguns solavancos (como a goleada sofrida para o Twente), aos poucos Trond Sollied, ex-Rosenborg, mostrava que a estrutura deixada por Verbeek dificilmente seria alterada.
E a política de conservadorismo ajudou na formação de uma equipe difícil de ser batida. Por fatores como a defesa corpulenta, formada por Bak Nielsen e Dingsdag; o meio-campo, equilibrando a pegada de Grindheim à leveza de Michal Svec, sem contar a esplendorosa temporada de Pranjic, o motor na armação de jogadas – e até em finalizações; e o ataque, também apostando no equilíbrio força-habilidade, exibido por Viktor Elm, Ingelsten, Elyonoussi e Paulo Henrique.
Ainda não foi suficiente para dar o salto definitivo na Liga. Mas o clube conseguiu deixar o Twente com a pecha de “time do quase”, ao levantar a Copa da Holanda – e ganhar nova chance continental, com a Liga Europa. Pranjic saiu, é verdade. Mas o trabalho sério continua. Se AZ e Twente apareceram mais, o Heerenveen é o próximo da lista.
PSV
Colocação final: 4º colocado, 65 pontos em 34 jogos
Técnico: Huub Stevens (até 19ª rodada), Dwight Lodeweges
Maior vitória: PSV 6×0 ADO Den Haag (21ª rodada)
Maior derrota: Ajax 4×1 PSV (11ª rodada)
Principal jogador: Ibrahim Afellay (meio-campista)
Decepção: Jérémie Bréchet (defensor)
Artilheiro: Ibrahim Afellay (13 gols)
Copa nacional: Eliminado na terceira fase, pelo AZ
Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado na fase de grupos)
Nota da temporada: 7,5
E pensar que a temporada começou tão bem, com o time goleando o Utrecht na primeira rodada, vendo os companheiros de Trio de Ferro, Feyenoord e Ajax, derrotados… no primeiro quarto de temporada, os Boeren aparentaram ter todas as condições para serem o primeiro clube a vencer cinco títulos em sequência, na história da Eredivisie.
O que poucos contavam é com os furos que o barco começou a mostrar em De Herdgang. O mais grave deles, a tempestuosa relação de Huub Stevens com alguns jogadores do elenco, como Carlos Salcido, Edison Méndez e Danko Lazovic, que encurtou a permanência do treinador em Eindhoven. Dessas turbulências decorreram a queda de produção na Eredivisie e a eliminação quase vexatória, com apenas uma vitória, na fase de grupos da Liga dos Campeões. Dos reforços, se Isaksson não decepcionava no gol, Bréchét não se entrosava de maneira alguma na zaga, fosse com Salcido ou com Marcellis.
Restou à dupla Dwight Lodeweges e Jan Wouters (auxiliar-técnico) cuidar de conduzir bem o time, no returno. E, assim como no Feyenoord, os interinos fizeram a tarefa com correção. Ajudaram também algumas mudanças providenciais no time, como a acertada contratação de Ola Toivonen, bom reforço para o ataque. Se a vaga para a Liga dos Campeões não pôde ser obtida, pelo menos o time que Fred Rutten comandará parece pronto e pacificado para voltar a brigar pelo título.
Ajax
Colocação final: 3º colocado, 68 pontos em 34 jogos
Técnico: Marco van Basten (até 33ª rodada), John van't Schip
Maior vitória: Ajax 7×0 Willem II (30ª rodada)
Maior derrota: PSV 6×2 Ajax (31ª rodada)
Principal jogador: Luis Suárez (atacante)
Decepção: Maarten Stekelenburg (goleiro)
Artilheiro: Luis Suárez (22 gols)
Copa nacional: Eliminado na terceira fase, pelo Volendam
Competição continental: Copa Uefa (eliminado nos 16avos-de-final, pelo Olympique de Marselha)
Nota da temporada: 7,5
Havia tempos, uma temporada não era tão esperada em Amsterdam quanto a passada. A esperança era de que, sob o comando de Marco van Basten, os Godenzonen se reestruturassem, retornando assim à rota dos títulos e do domínio dentro do próprio país – em que pese a briga que impediu a continuidade de Johan Cruyff no processo de reformulação.
No time propriamente dito, o otimismo continuava. Uma defesa segura, com Stekelenburg e Vermaelen; um meio-de-campo capaz, com Vertonghen e Gabri; e um dos mais promissores trios de ataque dos últimos anos no Ajax, com o reforço Sulejmani, Suárez e Huntelaar.
E o turno mostrou uma equipe com plenas condições de lutar pelo troféu. Vitórias sobre Twente e PSV (esta, com goleada), um pleno domínio dos jogos disputados na Amsterdam ArenA, e, enfim, uma vice-liderança alerta, a apenas três pontos do já líder AZ. Sem contar a campanha na Copa Uefa, que empolgava, aos poucos.
Mas veio o returno. E, com ele, as duras desilusões: a saída de Huntelaar rumo ao Real Madrid, a eliminação da Copa Uefa, a lesão de Stekelenburg (ainda que amenizada pelas boas atuações de Vermeer), e, enfim, uma sequência malograda de quatro jogos sem vitória, que deixou distante o título. No fim da temporada, o desalento, com derrotas apáticas para Twente e Sparta, forçando o clube, novamente, a disputar a Liga Europa, não a dos Campeões. Marco van Basten, deprimido, pediu o boné. E o clima voltou a ser de necessidade de reformulação. Será que Martin Jol é o homem esperado?
Twente
Colocação final: vice-campeão, 69 pontos em 34 jogos
Técnico: Steve McClaren
Maior vitória: Twente 6×0 Heerenveen (12ª rodada)
Maior derrota: Utrecht 3×0 Twente (5ª rodada) e AZ 3×0 Twente (10ª rodada)
Principal jogador: Eljero Elia (atacante)
Decepção: Slobodan Rajkovic (defensor)
Artilheiro: Blaise Nkufo (16 gols)
Copa nacional: vice-campeão
Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado na terceira fase preliminar, pelo Arsenal) e Copa Uefa (eliminado nos 32avos-de-final, pelo Olympique de Marselha)
Nota da temporada: 9
Aqui, a situação de princípio de temporada era semelhante à do Heerenveen, futuro adversário na final da Copa da Holanda. Um time que não teve a menor chance contra o Arsenal, na preliminar da LC, as perdas de Fred Rutten e Engelaar, a incógnita que seria ter Steve McClaren no banco… resistiriam os Tukkers aos solavancos?
Pois não só não resistiram, como os Enschedese tiveram altíssimo êxito na reforma do time. Assim como, na Frísia, Trond Sollied teve seu principal mérito em não mudar muito o estilo deixado por Gertjan Verbeek, McClaren preferiu não inventar muito e manter o status quo.
Deu muito certo: enquanto Boschker, Wielaert (depois, Wisgerhof) e Braafheid mantinham a defesa, Cheik Tioté limpava os trilhos para Kenneth Perez brilhar, na armação. E, no ataque, Nkufo era o goleador, enquanto Eljero Elia e Marko Arnautovic infernizavam, pelas pontas, completando o melhor trio de avantes visto na Eredivisie.
Melhor: a equipe cresceu na hora certa, na parte final do returno, voando para assegurar o vice-campeonato e uma nova chance na Liga dos Campeões. A reconstrução do clube bancada pelo presidente, Joop Munsterman, é consolidada dia após dia. Pode-se dizer: o Twente vive, hoje, mesmo com uma ainda incômoda ausência de títulos, uma das melhores fases de sua história.
AZ
Colocação final: campeão, com 80 pontos em 34 jogos
Técnico: Louis van Gaal
Maior vitória: AZ 6×0 Sparta Rotterdam (5ª rodada)
Maior derrota: ADO Den Haag 3×0 AZ (2ª rodada) e Twente 3×0 AZ (33ª rodada)
Principal jogador: Mounir El-Hamdaoui (atacante)
Decepção: Graziano Pellè (atacante)
Artilheiro: Mounir El-Hamdaoui (23 gols)
Copa nacional: Eliminado nas quartas-de-final, pelo NAC Breda
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 9,5
Duas rodadas da Eredivisie passadas, o AZ mofava nas últimas colocações. Duas derrotas – 2 a 1, em casa, para o NAC Breda, e 3 a 0 para o ADO Den Haag. Um time alquebrado, ainda curtindo a ressaca de perder um título quase ganho em 2006/07. Louis van Gaal, que só ficara no clube de Alkmaar a pedido dos próprios jogadores, poderia encontrar, em caso de derrota na 3ª rodada, o fim de sua passagem de quatro anos pelo DSB Stadion – e, quem sabe, ter provada a sua derrocada.
Quem diria que esse time venceria justamente o PSV, atual campeão, por 1 a 0, na terceira rodada? Quem diria que esse time aplicaria, pouco depois, 5 a 2, fora de casa, no Willem II, e 6 a 0 no Sparta Rotterdam? Quem diria que esse time cresceria de produção a ponto de bater recordes e na Holanda: a maior invencibilidade da história do Campeonato Holandês, a terceira maior invencibilidade de um goleiro (957 minutos, de Romero)?
Quem diria que esse time mostraria uma defesa tão segura, um meio-de-campo tão perfeito, com Schaars, Mendes da Silva e De Zeeuw competentes a ponto de merecerem convocação para a Oranje? E um ataque tão letal, com El-Hamdaoui desembestando a marcar e tendo a seu lado um competente Ari, que segurou a barra de substituir Moussa Dembélé? Quem diria que Van Gaal conseguiria uma das reviravoltas mais espetaculares de sua carreira, partindo de “decadente” a “recuperado”? Quem diria que esse time encerraria a temporada com a defesa menos vazada? Quem diria que esse time chegaria ao título a três rodadas do fim, onze pontos à frente do vice?
E quem dirá que o título não foi merecido, mesmo que conquistado apenas após a derrota do Ajax para o PSV? E quem dirá que esse clube, sem Van Gaal, mas, pelo menos por enquanto, com todos os principais jogadores, não pode sonhar em repetir a dose?



