Análise da temporada (Holanda) – Parte I

Encerrada a temporada 2008/09 da Eredivisie, que deflagrou em definitivo a mudança, já em curso, do cenário do futebol holandês: o poder, agora, está com clubes médios, mas com boa administração e equipes bem formadas. Entretanto, a coluna começará avaliando a Eredivisie pela parte de baixo, com os cinco últimos colocados do campeonato.
Volendam
Colocação final: 18º colocado (rebaixado), 29 pontos em 34 jogos
Técnico: Frans Adelaar
Maior vitória: Volendam 3×0 Sparta Rotterdam (31ª rodada)
Maior derrota: NEC 6×1 Volendam (13ª rodada)
Principal jogador: Rowin van Zaanen (atacante)
Decepção: Gerry Koning (zagueiro)
Artilheiro: Gerson Sheotahul, 6 gols
Copa nacional: Eliminado nas semifinais, pelo Heerenveen
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 4
Se a base seguida na análise fosse usar o mote “futebol é momento”, sem dúvida, o Volendam não mereceria ter sido rebaixado para a Eerste Divisie. Afinal de contas, no segundo turno, os Andere Oranje melhoraram dentro de campo, conduzidos pelo trabalho paciente de Frans Adelaar e vendo jogadores como o goleiro Verhoeven e o atacante Sheotahul, além de Van Zaanen, conseguirem se destacar na Eredivisie. Sem contar as últimas quatro rodadas, quando a equipe chegou a figurar na 16ª posição, que, no mínimo, traria mais uma chance de permanência, na disputa da Nacompetitie.
Mas, olhando-se para a temporada dos Wijdbroeken como um todo, o rebaixamento foi mais do que merecido. Apenas em sete das 34 rodadas a equipe não ocupou a lanterna da competição. Colaborava o desempenho ridículo fora de casa (uma vitória em 17 jogos). E, por fim, a equipe fraquejou justo nas duas últimas rodadas, quando escapar do rebaixamento parecia possível. Na 33ª, derrota em casa para o Groningen. Na última, a equipe vencia o De Graafschap por 2 a 1, fora de casa, o que até a levaria na Nacompetitie. O gol contra de Gerry Koning, que empatou o jogo, foi cruel. Mas colocou as coisas do Volendam no seu devido lugar.
De Graafschap
Colocação final: 17º colocado (rebaixado na Nacompetitie), 30 pontos em 34 jogos
Técnico: Henk van Stee (até a 24ª rodada), Darije Kalezic
Maior vitória: De Graafschap 3×1 Feyenoord (14ª rodada)
Maior derrota: De Graafschap 0x6 Ajax (16ª rodada)
Principal jogador: Luuk de Jong (atacante)
Decepção: Purrel Fränkel (zagueiro)
Artilheiro: Ben Sahar e Jason Oost, ambos com 5 gols
Copa nacional: Eliminado nas quartas-de-final, pelo Twente
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 4
Os Superboeren talvez tenham conseguido seguir o roteiro que o Volendam sonhou em seguir: salvar-se, na bacia das almas, do rebaixamento direto, e ver o que acontecia na Nacompetitie. O que não quer dizer que a equipe de Doetinchem tenha merecido ficar na Eredivisie. A equipe não inspirava confiança no primeiro turno, e só melhorou no segundo, quando o ataque ganhou mais inspiração com a vinda de Ben Sahar. A permanência se tornou possível, e tudo melhorou. Mas as turbulências internas, que minaram a permanência de Henk van Stee no comando e levaram à efetivação do auxiliar Kalezic, voltaram a tornar as coisas difíceis. O alerta foi ao máximo na penúltima rodada, quando, mesmo vencendo, a equipe caiu para a última posição. O empate contra o Volendam deixou tudo em suspenso por mais algum tempo. Mas, na Nacompetitie, o RKC Waalwijk encarregou-se de mostrar as fragilidades dos Superboeren.
Roda JC
Colocação final: 16º colocado (salvo na Nacompetitie), 30 pontos em 34 jogos
Técnico: Raymond Atteveld (até a 5ª rodada), Harm van Veldhoven
Maior vitória: Roda JC 3×0 NEC (11ª rodada) e Roda JC 3×0 Vitesse (14ª rodada)
Maior derrota: Roda JC 0x4 Feyenoord (9ª rodada)
Principal jogador: Sekou Cissé (atacante)
Decepção: Eric Addo (defensor)
Artilheiro: Sekou Cissé (9 gols)
Copa nacional: Eliminado nas quartas-de-final, pelo Volendam
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 4,5
O time dos Limburgers não era tão ruim. Jogadores como o goleiro Castro, os dois “Marcel” do meio-campo (o Meeuwis e o De Jong, ambos frequentadores de convocações para o time B, ou mesmo o de aspirantes, da seleção holandesa) e o atacante estoniano Andres Oper faziam supor, a princípio, uma campanha mais segura. Mas bastou o início da temporada para que os resultados aprofundassem a já estabelecida crise interna do Clube de Kerkrade. Com apenas um ponto obtido nas primeiras cinco rodadas, Raymond Atteveld não resistiu.
Nas 29 rodadas restantes, Harm van Veldhoven fez um trabalho digno. Além disso, alguns reforços, como Laurent Delorge, vindo do Ajax, entraram bem na equipe, que já então contava com as boas atuações que fizeram de Sekou Cissé uma opção a ser cogitada por clubes como o Twente. Só que, nas internas, os problemas financeiros não deixavam opção, a não ser a (ainda hoje) discutida fusão com o arquirrival Fortuna Sittard. Mas uma vitória heróica contra o Feyenoord, na última rodada, e um desempenho na base da raça, na Nacompetitie, vencendo a decisão contra o Cambuur Leeuwarden nos pênaltis, fizeram com que os aurinegros conseguissem o sonho da permanência na Eredivisie. Notável, pela raça demonstrada em campo.
Heracles
Colocação final: 15º colocado, 32 pontos em 34 jogos
Técnico: Gert Heerkes
Maior vitória: Heracles 4×0 NAC Breda (31ª rodada)
Maior derrota: Feyenoord 5×1 Heracles (30ª rodada)
Principal jogador: Ragnar Klavan (defensor)
Decepção: Emmanuel Boakye (defensor)
Artilheiro: Ricky van den Bergh (7 gols)
Copa nacional: Eliminado na segunda fase, pelo AZ
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 4,5
Se o colega Ubiratan Leal, autor da coluna de Brasil, realizasse um “Prêmio Balípodo”, como o que realiza em seu site pessoal de futebol, referindo-se somente à Eredivisie 2008/09, não há muita dúvida: os Almeloers mereciam o prêmio “Esqueceram de Mim”. Se não tinham uma equipe de encher os olhos, ela tinha uma mescla de talento e experiência suficiente para agir com correção quando o descenso parecia mais perigoso. Se o time nunca deu mostras de poder aspirar a feitos maiores, como entrar no play-off para a Liga Europa, tampouco pareceu um real ameaçado a ter a cabeça degolada. Enfim, passou em brancas nuvens.
E duas partidas provaram como a equipe de Gert Heerkes era, das menores, a mais medíocre – na acepção da palavra. A goleada sofrida para o Feyenoord deixou todos em estado de alerta no Polman Stadion. Estado que foi minorado com a surpreendente goleada sobre o NAC Breda. E, comprovando uma certa regularidade na parte baixa da tabela (mesmo sem ir além do 11º lugar, o time nunca caiu para as três últimas posições), o time conseguiu a manutenção na Eredivisie. E, se melhoras são necessárias, a nova geração, personificada pelo finlandês Hakola e o tcheco Schulmeister, dá esperanças.
ADO Den Haag
Colocação final: 14º colocado, 32 pontos em 34 jogos
Técnico: André Wetzel (até a 30ª rodada), Raymond Atteveld
Maior vitória: ADO Den Haag 4×0 NAC Breda (14ª rodada)
Maior derrota: PSV 6×0 ADO Den Haag (21ª rodada)
Principal jogador: Richard Knopper (atacante)
Decepção: Boy Waterman (goleiro)
Artilheiro: Richard Knopper (10 gols)
Copa nacional: eliminado nas oitavas-de-final, pelo Twente
Competição continental: nenhuma
Nota da temporada: 5
Pode uma equipe que terminou na 14º colocação considerar que sua temporada foi razoável? No caso do time de Haia, sem a menor dúvida. Ainda mais quando nota-se o começo de Eredivisie que a equipe teve, admirável para uma equipe que acabara de subir da Nacompetitie: após as duas primeiras rodadas, o time comandado por André Wetzel chegou até a ocupar a liderança, incluindo vitória por 3 a 0 sobre o campeão AZ e artilharia temporária do torneio para Richard Knopper.
Claro, depois o sonho acabou, a equipe decaiu e chegou a sofrer 11 gols em oito dias – além dos 6 a 0 levados na partida contra o PSV, houve ainda a eliminação na Copa da Holanda, com 5 a 1 para o Twente. Mas o time conseguiu reagir, graças a manutenção das boas performances por jogadores-chave, como o citado Knopper, o goleiro Zwinkels (é inegável que a equipe sofreu um solavanco quando teve de contar com Boy Waterman, muitas vezes inseguro) e Karim Soltani.
Alguns reservas frequentes em campo, como Verhoek e Hoogendorp, também ajudaram. E as aquisições de Derijck e Danny Buijs, vindos do Feyenoord, deram certo. Terminando, nada mais claro do que o episódio da saída de André Wetzel para provar o ligeiro planejamento que havia e que foi a chave da permanência do Den Haag: o holandês de ascendência indonésia saiu, sim, do banco de reservas. Mas foi para virar diretor técnico do clube. Com tal calma, mesmo na parte de baixo, não havia como ser rebaixado.



