Holanda

Ajax se reafirma como o grande clube da Holanda. Falta crescer na Europa

Foi complicado escrever a coluna da semana passada. Principalmente porque era preciso considerar que o Ajax tinha um adversário em campo, o Willem II. E embora fosse arquifavorito para conquistar o tricampeonato holandês, os Tricolores poderiam representar o inesperado que faria uma surpresa na Amsterdam ArenA. A outra possibilidade era ousar prever que a 32ª conquista de uma Eredivisie viria facilmente para a equipe de Amsterdã, e a partir daí fazer uma análise dos caminhos que o clube seguiu e seguirá.

Pois bem: a prudência ganhou, e o tema foi mesmo a tranqüilidade reinante no Willem II, em meio ao rebaixamento que estava próximo, então. Mas, o tempo todo, a coluna tentava contemporizar, dizendo que uma surpresa era bem difícil. E isso foi provado à exaustão no último domingo, quando ela se revelou impossível. Jogando em ritmo de treino, o Ajax teve a certeza de que a Eredivisieschaal, a “salva de prata” entregue ao campeão nacional holandês, era sua desde quando Kolbeinn Sigthórsson abriu a contagem da goleada por 5 a 0 que garantiu o título, a uma rodada do final.

Além de dar início a uma festa que seguiu-se em terreno próximo ao estádio, com palco armado, presença dos jogadores  e da diretoria, e tudo a que o Ajax tinha direito, o título coroou dois fatores interrelacionados. O primeiro foi a “Fluwelen Revolutie” (“Revolução de veludo”) por que o clube passou, nos últimos meses de 2010. A influência exercida por Johan Cruyff na mudança de postos-chave do organograma do clube, por enquanto, resultou na volta do Ajax ao posto que é historicamente seu: o de grande clube do futebol da Holanda.

Um parêntese: é interessante notar como o Ajax representa o “clube nacional” na Holanda, aquele pelo qual o futebol do país se orienta, aquele que divide águas, divide opiniões, orienta paixões entre os torcedores, aquele que chama a atenção do mundo. Em centros médios e grandes do futebol mundial, só se vê fenômeno semelhante na Alemanha, com o Bayern Munique exercendo esse papel. Na Espanha, isso já se divide entre Barcelona e Real Madrid; na Itália, já se pulveriza entre Juventus e a dupla de Milão; no Brasil, então, há uma lista com vários “clubes nacionais”. Seria interessante um estudo de caso sobre o porquê desse vínculo tão forte entre um clube e o futebol de um país. Mas aí já é uma outra história.

Voltando ao tema principal: um dos cargos que deveria ser alterado, dentro da mudança cuidadosa, mas turbulenta, que Cruyff pedia e influenciava, era o de técnico. Martin Jol fora útil na tranquilização do ambiente dentro de campo, mas seu estilo conservador não combinava muito com o retorno às origens ofensivistas, com o retorno da pesada influência do Futebol Total que era desejado pelos novos membros da diretoria. Bastou para que Jol decidisse sair voluntariamente, dando passagem a Frank de Boer, então ainda comandante dos juniores.

Dois anos e meio depois, eis a conseqüência: o ex-zagueiro conquista seu terceiro título nacional seguido pelo Ajax, igualando-se a Rinus Michels, treinador no tri entre 1965/66 e 1967/68, e Louis van Gaal, campeão entre 1993/94 e 1995/96. Além disso, Frank revelou-se um técnico promissor, estudioso, que sabe manter um bom ambiente sem ser leniente. Por mais que ele não descarte a hipótese de ser “o Alex Ferguson do Ajax”, conforme comentou em entrevistas após o jogo contra o Willem II, não é irreal pensar que o irmão gêmeo de Ronald poderá resultar num técnico capaz de feitos maiores, com mais cancha na carreira.

Título Ajax

Procurado pela revista “Voetbal International” em Barcelona, seu quartel-general, para avaliar os frutos da mudança que pedia em suas colunas semanais no diário “De Telegraaf”, Cruyff reconheceu a importância de Frank de Boer no retorno do Ajax à sua grandeza nacional: “Acho fantástico quando o técnico também acredita que sempre é possível melhorar. Frank faz isso de um modo realmente maravilhoso. Não só como técnico, mas também como parte da direção técnica do clube. Ele sempre fala pensando no coletivo. Parece um detalhe, mas é muito importante. Não é por nada que todos estão prontos a ajudá-lo quando é necessário”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas… não é tudo o que o Ajax quer. E Cruyff também fez questão de lembrar isso: “No momento, tudo está indo bem com o Ajax. Mas a gente não pode pensar que o mais importante já foi feito. O sucesso pode desviar a atenção dos pontos que ainda podem ser melhorados”. Pode parecer parte do conhecido potencial imenso de Johan para achar chifre em cabeça de cavalo, mas faz sentido, no caso. Porque o Ajax não quer só manter sua grandeza na Holanda. Quer voltar a falar grosso em torneios continentais.

“Ah, mas a Holanda tem uma economia pequena, não é possível competir com gigantes”. Pois não só o Ajax é um gigante europeu, em termos de tradição, como também se viu que times mantidos a custos um pouco menores podem, sim, fazer grandes campanhas, com o caso do Borussia Dortmund na Liga dos Campeões. “Ah, mas o Dortmund vai desfazer o time após a temporada.” No caso do clube da estação Bijlmer Arena, a reposição de jogadores vendidos seria ainda mais facilitada, pelo retorno do hábito de dar prioridade à formação de grandes jogadores dentro da De Toekomst, ainda uma das grandes escolinhas de clubes do futebol europeu. Ou então, pelo hábito de contratar promessas e deixá-las evoluírem, sem tanta pressão.

Senão vejamos. Fala-se que Toby Alderweireld deixará o clube (Newcastle, Roma ou Liverpool são as possibilidades aventadas)? Tudo bem: Joël Veltman já está preparado para ocupar a lacuna que ficaria na equipe titular. Espera-se pela saída de Siem de Jong ou Christian Eriksen? Sem problemas: Danny Hoesen já está a postos para ser titular no ataque, e o Ajax deve ir com tudo para contratar Adam Maher, das grandes coqueluches do futebol holandês. Isso, sem contar a manutenção altamente provável de Viktor Fischer, a grande revelação da Eredivisie nesta temporada.

E nisso, a importância de ex-jogadores de fama internacional ocuparem postos-chave pode ajudar ainda mais. Com passagens longas pelo Barcelona, Frank de Boer e o diretor de futebol Marc Overmars certamente influenciaram para que o atacante Isaac Cuenca fosse cedido ao Ajax, para adquirir mais experiência antes de retornar a Les Corts e ver se resultará num bom jogador – hábito que o Barcelona deverá adotar mais vezes. Com o histórico próximo de Edwin van der Sar, diretor de marketing, o Manchester United já pensa em se aproximar do Ajax, como René Meulensteen, dos principais integrantes da comissão técnica do time inglês, confirmou ao jornal “Algemeen Dagblad”: “Seria ótimo se nossos jogadores preferissem jogar no Ajax a atuar em algum clube da segunda divisão inglesa. Falarei com Edwin sobre isso”.

As condições para o círculo virtuoso estão postas. O Ajax voltou a ser soberano na Holanda. Tem time para avançar um pouco – UM POUCO, leiam bem – mais na Liga dos Campeões (e aí, é torcer para não pegar grupos carne-de-pescoço, como em 2011/12 e 2012/13). Se avançar, será visto como um clube mais competitivo. Assim, atrairá mais jogadores. E eles poderão manter a soberania na Holanda. E, quem sabe, sonhar com coisas maiores. Porque ser eliminado de modo medroso, acuado pelo Steaua Bucareste, na segunda fase da Liga Europa, é a prova de que há pontos a melhorar, como bem disse Cruyff, símbolo da ousadia que o Ajax quer voltar a ter no Velho Continente.

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