Agora é moda

Certo, não foi a primeira vez que dois dos integrantes do Trio de Ferro demitiram seus treinadores no meio da Eredivisie (a bem da verdade, foi a sexta vez). Mas é impossível ignorar que tal prática se torna mais corrente. Só nesta década, o fato ocorreu três vezes. E já na Eredivisie passada, o PSV foi campeão com Sef Vergoossen e o Ajax concluiu a temporada com Adrie Koster. Ambos na interinidade, após Ronald Koeman deixar Eindhoven rumo ao Valencia e Henk ten Cate ir auxiliar Avram Grant no Chelsea, em outubro de 2007.
Aí, depois da demissão de Gertjan Verbeek só ter colocado mais fogo na situação atual do Feyenoord, foi a vez do PSV virar centro das atenções por demitir seu técnico. Surpreende, a demissão de Huub Stevens, após apenas seis meses em De Herdgang? Sim e não. Sim porque, apesar de seu trabalho ter problemas visíveis e de estar claro que os Boeren dificilmente chegarão ao penta nacional, nada apontava para uma demissão iminente. Era mais fácil supor que a deterioração contínua do ambiente ia se encarregar de impedir a permanência do ex-técnico do Hamburgo, ao final da temporada. Tanto que o próprio comissariado do PSV assumiu a surpresa com o pedido de demissão, feito na manhã da última quarta.
E não surpreende porque a relação de Stevens com o elenco chegara a um ponto crítico demais para ter de esperar o fim da temporada por uma solução. Aliás, o caso não é nem de chegar a um ponto crítico: como disse a justificativa oficial, nunca houve um “clique” de encaixe na relação entre time e técnico. Os exemplos são fartos: a reação irada de Lazovic à sua estada no banco de reservas, quando do gol de empate contra o Ajax, as críticas abertas de Salcido a um suposto boicote do treinador, o ato de indisciplina de Edison Méndez, que voltou atrasado das pequenas férias, antes da intertemporada em La Manga, balneário espanhol. E o próprio Stevens começara a reagir: em entrevista à revista Voetbal International, justamente na semana passada, ele fez críticas a Salcido (“Ele age assim desde que não conseguiu transferir-se para o Valencia, no meio de 2008. Desde o primeiro dia me diz que não está satisfeito e quer sair. Para consegui-lo, usa a imprensa.”).
O fogo cruzado chegou à gota d'água no domingo, após o empate em 2 a 2 contra o NAC Breda, quando vários jogadores deixaram vazar para a imprensa a insatisfação com Stevens. As principais queixas eram o modo como o grupo era tratado (alguma semelhança com um ex-técnico de um clube de Roterdã?), mas, principalmente, a maneira “covarde” como a equipe era armada. Com vários jogadores de ataque no elenco, seria incompreensível ver Stevens tomar atitudes como a tomada na escalação contra o NAC, quando Lazovic e Koevermans tiveram de ficar no banco e o ataque contou só com um finalizador, Toivonen – que, diga-se de passagem, não estreou bem. O pior é que, quando os atletas trouxeram a queixa ao diretor geral do clube, Jan Reker, este ficou completamente do lado deles. Para, após a demissão de Stevens, dizer que era “o pior dia de minha carreira” e que “Huub é ótimo técnico e ótima pessoa”.
Sim, Stevens errou. Não é à toa que entrou para as estatísticas como o técnico com o quarto pior aproveitamento (42,86%) e a quarta pior média de gols (1,54 por jogo) na história do clube. Mas o ambiente interno do PSV anda turbulento e traiçoeiro demais. Agora, resta aos interinos, Dwight Lodeweges e o tradicional Jan Wouters, cuidar do time até o fim da temporada (falou-se em Frank Rijkaard, mas este, até o meio do ano, não quer assumir um time, segundo seu agente, Perry Overeem). Aos jogadores, é hora de colocar o time novamente no rumo. Do contrário, é como disse um certo Guus Hiddink, que assistiu ao jogo no Philips Stadion: “Dentro de pouco tempo, o PSV pode naufragar.”
Hora de manter a calma
Marco van Basten não fez rodeios: o título da Eredivisie ficou mais difícil para o Ajax. Com a derrota para o Groningen, na última rodada, aliada à vitória do AZ sobre o De Graafschap, os Godenzonen passaram a precisar de tropeços dos Alkmaarders para manter a proximidade do líder, já que a diferença foi para seis pontos. Isso, fora a queda da vantagem em relação ao Twente, o terceiro colocado, para apenas um ponto. Pode parecer desanimador, olhando o ótimo desempenho dos Tukkers, empurrados pelo prolífico trio de ataque Perez-Kufo-Arnautovic, e a atuação burocrática do time no Euroborg. A armação no 4-4-2, com Suarez e Siem de Jong no ataque, não deu muito certo, e Cvitanich, suspenso, fez falta nas (poucas) finalizações.
Mas nada disso justifica um perigoso descontrole emocional que o Ajax demonstrou no fim do jogo contra os alviverdes. Já com um cartão amarelo, Vertonghen arrumou uma expulsão tola, por protesto acintoso contra um lateral que teria sido marcado erroneamente. Aí, Van Basten – é, por incrível que pareça, o mesmo Van Basten que impressionou pela postura gélida na área técnica, durante o pega-pra-capar que foi o célebre Portugal x Holanda, na Copa-2006 – invadiu o campo para protestar contra a expulsão do volante belga. Também foi expulso de campo por Jan Wegereef. Terminou assistindo o jogo das tribunas.
A derrota e suas consequências foram duras, mesmo. Mas nada justifica tamanho nervosismo. Até porque o Ajax ainda terá os confrontos diretos contra AZ e Twente, ambos em casa, que podem recolocá-lo em boa posição na tabela. E uma boa vitória contra o Heerenveen, de péssima memória, já ajudaria bastante a recobrar o ânimo.



