Agora é guerra

Era para ser um cenário de total tranquilidade. Afinal de contas, a Holanda nada de braçada, como já esperado, no grupo E das eliminatórias da Euro 2012. Quatro jogos, quatro vitórias, e a liderança indiscutível da chave. Mais do que isso: não foram raros os elogios recebidos dos próprios torcedores, que acreditam que o “estilo holandês” de jogar futebol voltou a ser usado, após a dureza da época da Copa do Mundo. No entanto, a Oranje continua sendo o inimigo público número 1. Pelo menos, para alguns clubes.
O principal inimigo da KNVB, por sinal, atende por um nome: Füssball-Club Bayern München. Claro, o Bayern Munique. E, a rigor, a discussão vinha desde a Copa do Mundo. Primeiro, Arjen Robben, talvez o principal destaque dos Roten na última temporada passada, passa por recuperação intensiva de um problema muscular, sob o comando do fisioterapeuta Dick van Toorn. Recuperou-se, chegou à África do Sul e foi um dos principais responsáveis pela campanha que levou ao vice-campeonato. Para chegar à pré-temporada dos bávaros e ter descoberto um rompimento muscular, que até agora o mantém afastado da equipe de Louis van Gaal.
Mas chegaram os jogos de agora, contra Moldova e Suécia. Na partida contra os moldávios, tudo certo: um 1 a 0 protocolar, numa partida em que a equipe de Bert van Marwijk não precisou se esforçar muito para ser superior. Os problemas com o clube alemão começariam no domingo, quando Mark van Bommel ficou de fora dos treinos da Oranje. Ao saber que o meio-campista teria dores no joelho, imediatamente o Bayern pediu sua dispensa à KNVB – que prontamente negou. E Van Bommel voltou aos treinos, e, por fim, jogou a partida contra a Suécia.
Assim que chegou a Munique, na quarta-feira, Van Bommel foi fazer exames, com o médico do clube, Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt. O resultado foi implacável: uma lesão no joelho, com 25 mililitros de sangue retirados do local. Duas semanas fora dos campos, era a previsão inicial. Isso, numa época em que o Bayern sofre com os desfalques de Robben, Ribéry, Schweinsteiger, Olic e Klose.
Claro, o Bayern, já em litígio com a KNVB e exigindo uma compensação financeira pela lesão de Robben, ficou ainda mais irritado. E o presidente Uli Hoeness já mostrou como o clima entre as duas entidades ficaria quase irrespirável: “Eu realmente esperava que as pessoas na Holanda se controlassem, após o caso com Robben.” Em entrevista à emissora de rádio Bayern 3, sobrou até para o próprio Van Bommel: “Ele também precisa se perguntar para que lugar ele trabalha. Se ele já tinha dores no joelho há algum tempo, poderia ter pedido dispensa do jogo contra a Suécia. O técnico da Holanda pode escolher entre duas, ou três, centenas de jogadores. O Bayern, entre apenas vinte. Quem é que o paga?!”
Outro que colocou mais fogo na discussão foi Karl-Heinz Rummenigge, que disse: “Este incidente mostra definitivamente que as federações de futebol só pensam em seu próprio interesse.” E, doravante, o Bayern começou a ameaçar, até, não mais ceder jogadores holandeses à Oranje, como Uli Hoeness voltou a dizer: “As coisas com a KNVB não podem mais ficar assim. Se é guerra que aquelas pessoas querem, é guerra que terão. O que aconteceu na Holanda é de muita brutalidade. Não aceitamos mais isso.”
Se fosse só com o Bayern, o problema ainda seria contornável. Porém, outra lesão piorou as coisas: no jogo contra a Suécia, em disputa de bola com Daniel Majstorovic, Dirk Kuyt caiu de mal jeito e torceu o tornozelo, rompendo um ligamento do local e desfalcando o Liverpool por, agora se sabe, um mês. Talvez o Liverpool nem ligue tanto, a bem da verdade – afinal, há o processo da venda para o New England Sports Ventures a se resolver. Mas, no entanto, é mais um problema entre um clube e a federação holandesa. Que, a rigor, é um problema de todas as federações nacionais – e, cada vez mais, de todos os clubes.
Não é possível que as federações achem que as seleções são mais importantes do que os clubes. Não o são – e, cada vez mais, serão menos, num cenário que, a longo prazo, pode levar até ao fim das equipes nacionais. Sendo assim, faz-se necessária uma coexistência pacífica, que só traria o bem para ambas as partes: os clubes receberiam compensações financeiras por cederem seus jogadores, e as seleções continuariam tendo força suficiente. Mas, do jeito que Bayern e KNVB estão tratando seus problemas, essa realidade ainda está muito, muito distante.
Com o time, tudo bem
No entanto, como já dito, tudo vai bem com o time de Van Marwijk. De modo até surpreendente: afinal de contas, o time não conta com Robben e Van Persie – e não deverá contar com Kuyt por algum tempo. E, ainda assim, mostra uma grande capacidade de resolver o jogo rapidamente. E o que é melhor: exibindo o velho estilo de jogo fluido e eficiente, com ataques rápidos e marcação por pressão.
Ajuda nisso a ótima fase de alguns jogadores. Como Sneijder, que continua sendo o ponto de equilíbrio do time. Ou Van der Vaart – que, com mais ritmo de jogo no Tottenham, forneceu mais qualidade do que De Jong no toque de bola, além de fazer suas próprias jogadas. Ou Afellay, que substituiu Robben muito bem (principalmente no jogo contra a Suécia). E, principalmente, Huntelaar.
“Hunter”, talvez, está na melhor fase da carreira desde sua saída do Ajax. Afinal de contas, juntando-se suas atuações no Schalke 04 com as da Oranje, nesta temporada, são 12 gols marcados em 11 jogos. E, com oito gols em quatro jogos, o nativo de Drempt é o artilheiro geral das Eliminatórias da Euro. Tal número de gols, em qualificações para a Euro, não acontecia desde… Van Basten, nas eliminatórias para a Euro 92.
Por sinal, o mesmo Van Basten cuja quantidade total de gols pela Oranje Huntelaar ampliou: já são 24. Ou seja, Huntelaar entrou na lista dos dez maiores artilheiros da história da Oranje. Nada mal para quem parecia um irremediável fracasso, após as passagens malogradas por Real Madrid e Milan. E, agora, é o maior destaque da Holanda no imediato pós-Copa.
E os novatos quase resolveram
Com a convocação de vários novatos, como Dedryck Boyata, Marvin Ogunjimi e Dries Mertens, Georges Leekens sinalizava: para fazer a Bélgica reagir nas eliminatórias da Euro 2012, iria dar um chacoalhão, para fazer o time demonstrar ainda mais vontade. Os resultados poderiam ter sido melhores. Mas uma coisa pode se dizer: os Diabos Vermelhos apresentaram muita disposição. O que já é alguma coisa.
Aliás, não foi só vontade que eles apresentaram. Mas também capacidade de chegarem para ficarem no grupo de Leekens. Mertens, talvez a mais técnica das novidades, não conseguiu ter chance, por uma lesão no pé que o tirou dos jogos. No entanto, Ogunjimi se apresentou bem: o belga de ascendência nigeriana fez os dois gols da vitória sobre o Cazaquistão.
Porém, o jogo contra a Áustria apresentou um grande anticlímax. A equipe começou na frente, com Jelle Vossen. Mas os austríacos viraram para 2 a 1 – e, depois, para 3 a 2, após Fellaini ter empatado. Mas o final de jogo emocionante no Rei Balduíno seria, aparentemente, redentor: Ogunjimi fez 3 a 3, e Nicolas Lombaerts virou, aos 45 minutos do segundo tempo. A torcida belga explodiu – para murchar aos 49, quando Martin Harnik marcou o gol de um inacreditável 4 a 4.
A palavra desilusão foi mencionada por vários jogadores, como Lombaerts (“A desilusão é muito grande. Fazer o 4 a 3 e levar o gol logo depois é realmente doloroso”) e Alderweireld (“Estou mais desiludido com o resultado do que com o jogo”). No entanto, houve, também, alertas às chances perdidas, como Vossen alertou: “Tivemos um número de chances inacreditavelmente grande, mas não aproveitamos.”
Ao perder a chance de fazer duas vitórias em dois jogos, a Bélgica também perdeu a chance de ir ao segundo lugar do grupo A – lugar ocupado pela Áustria. Porém, o time mostrou disposição para melhorar. E está na briga. Nada mais animador.



