Holanda

Agora começou

Até hoje, o mais rápido gol na final de uma Copa do Mundo continua sendo o de Johan Neeskens, na decisão de 1974. Em apenas um minuto, a equipe maior da história da Holanda fez 1 a 0 no Estádio Olímpico de Munique, sem que os adversários anfitriões houvessem tocado na bola. Superioridade psicológica maior, impossível. E, ao invés de seguir em busca de um placar maior, que praticamente definiria o título mundial, a “Laranja Mecânica” preferiu tocar a bola, tocar, tocar. Sem criar chances. Mais do que tentar esfriar o jogo, tratava-se até de tentar impor uma derrota psicológica aos alemães, vingando até a invasão nazista a Amsterdã, durante a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, depois aquilo se revelaria fatal: sem ter aproveitado a vantagem precoce, a Holanda logo deixou a equipe da casa retomar o seu ritmo. Bastou um pênalti convertido por Paul Breitner para inverter o sinal: a Alemanha teria a vantagem psicológica no jogo. Com Johan Cruyff marcado à perfeição por Berti Vogts, Sepp Maier fazendo a partida de sua vida e Gerd Müller virando o jogo, ainda antes do intervalo, o time de Rinus Michels estava sobrepujado, quase que definitivamente. A falta de eficiência para aproveitar o bom momento do início fora duramente punida. Quase 38 anos depois daquele 7 de julho de 1974, a derrota surpreendente para a Dinamarca teve a mesma palavra para justificá-la: ineficiência.

Porque a Oranje não jogou mal em Kharkiv. Não mesmo. Para começo de conversa, Sneijder foi o “camisa 10” que se esperava: armando jogadas, chamando a responsabilidade, fazendo ótimos lançamentos. Além disso, Afellay manteve o bom nível apresentado nos amistosos, sendo útil pela esquerda, se movimentando, oferecendo opção de jogadas e até arriscando chutes. Bem como Jetro Willems, que fez a coluna perder um pouco das reservas em relação a ele: sem sentir o peso da estreia, o mais jovem atleta desta Euro 2012 foi bastante seguro, sabendo quando avançar e controlando as investidas de Dennis Rommedahl. Van Bommel e Nigel de Jong podem até ter sido lentos, mas conseguiram fazer o trabalho na marcação com relativa calma, sem exageros na violência.

Então, por que a derrota? Claro, primeiramente pela péssima atuação de Robin van Persie. Se pecava pela apatia nas atuações pela Oranje, Van Persie apareceu bastante. Só que pelo lado errado, sendo precipitado na maioria das finalizações. De nada adianta o camisa 16 da Oranje trazer mais técnica ao ataque, se ele erra o toque final. Coisa que Huntelaar raramente faz, há que se convir. A torcida acha isso, pelo menos: em pesquisa feita pelo diário “Algemeen Dagblad” nas ruas, 58 por cento dos torcedores acha que RvP deveria substituir Afellay na esquerda, com Huntelaar indo para o papel de único finalizador.

Além disso, se Robben apareceu no jogo, o fez pelos motivos errados, incorporando o motivo pelo qual mais o criticam: o de sempre preferir apostar na sua jogada selada, registrada, carimbada, a tocar a bola a um companheiro melhor postado – ainda que deva-se admitir que Robben seria elogiadíssimo, se uma de suas jogadas terminasse em bola na rede.

E a defesa justificou os temores que trazia, antes do início da Euro: o lado direito foi totalmente responsável pelo gol sofrido. Van der Wiel deu amplo espaço para a jogada, e Heitinga deixou uma avenida para o gol de Krohn-Dehli – sem esquecer que Vlaar não consertou as coisas. E, além de ter deixado as pernas abertas (erro imperdoável para um goleiro), Stekelenburg foi demasiado inseguro durante a partida. Sem esquecer da demora exagerada de Van Marwijk para fazer alterações no jogo.

Mas repita-se: não é atuação para se jogar completamente no lixo. Mas é para se tirar a lição de que ineficiência pode ser altamente prejudicial, mesmo contra rivais supostamente inferiores, contra a Dinamarca. A Oranje ainda é plenamente capaz de conseguir ir às quartas de final da Euro – a defesa da Alemanha não é perfeita, em que pese ter Lahm, Hummels e Neuer, e o jogo contra Portugal pode ser o da decisão no saldo de gols. No entanto, as partes que levaram à derrota contra à Dinamarca terão de ser perfeitas. Do contrário, assim como em 1974, a criação de jogadas sem a finalização correta dará uma punição severa à Holanda – e, no caso de 2012, algo vexatória. Do modo mais duro, o time de Van Marwijk aprendeu que, agora, a Euro começou de fato.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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