A volta do que quase foi

Era para 29 de abril de 2007 ser um dia histórico no AZ. Após o PSV ter jogado fora uma diferença que roçou onze pontos na liderança da Eredivisie 2006/07, a penúltima rodada da Liga Holandesa colocara o time de Louis van Gaal na ponta da tabela. Empatado com Ajax e PSV em pontos, é verdade (72), mas com saldo de gols superior (53, contra 47 dos Amsterdammers e 46 dos então bicampeões nacionais). Era vencer o fraco Excelsior Rotterdam e manter o melhor saldo para que a equipe que tinha Donk, De Cler, Shota Arveladze e Koevermans ganhasse o segundo título holandês de sua história, sendo o primeiro clube, em 26 anos, a quebrar a hegemonia do Trio de Ferro – como já fora na Eredivisie 1980/81, quando o time de Spelbos e Kist rompeu a seqüência do Trio, que datava então de 1965.
Mas a partida disputada em Roterdã apresentou um clube emocionalmente em frangalhos, afobado, despreparado para aproveitar a vantagem que tinha. A tola expulsão do goleiro Waterman, ao cometer o pênalti com que Luigi Bruins abriria o placar, foi um claro exemplo disso. A equipe até buscou o empate duas vezes, mas o Excelsior venceu por 3 a 2 e a briga pela taça ficou mesmo com os dois graúdos Ajax e PSV (este, o vencedor).
Ficou o trauma: de quase campeão, o AZ acabou ficando com um terceiro lugar de sabor amaríssimo. Nem mesmo os playoffs para tentar vaga na Liga dos Campeões os alvirrubros aproveitaram: o time perdeu a vaga na LC para o Ajax. A temporada 2007/08 foi, então, melancólica: o time não passou da fase de grupos da Copa da UEFA e, na Eredivisie, contentou-se apenas com um opaco 11º lugar, numa campanha que incluiu sonoros 6 a 1 sofridos para o Ajax.
Pelo começo da atual temporada, parecia que o clube ia render-se, novamente, ao fantasma da perda do título que estivera tão próximo: duas derrotas, para NAC Breda e ADO Den Haag, deixaram os Alkmaarders com a lanterna do Holandês nas mãos, além de darem início a suspeitas de que Van Gaal estaria próximo não só da demissão, mas do ocaso de sua carreira.
Mas, aí, das trevas fez-se a luz: o 1 a 0 contra o PSV, na terceira rodada, iniciou uma ascensão irresistível. Hoje, passadas treze rodadas, o ex-técnico de Ajax e Barcelona tem em suas mãos, indubitavelmente, o melhor time do campeonato. Não bastasse a seqüência invicta iniciada na vitória contra o time de Eindhoven (hoje resumida em nove vitórias e dois empates) e a liderança da Eredivisie, o time tem a defesa menos vazada – 11 gols sofridos em treze jogos -, o melhor ataque (31 gols marcados), o melhor desempenho fora de casa… a lista é longa.
E a lista é longa porque, hoje, nota-se que o time que fez feio na temporada passada não era irremediavelmente ruim. Na defesa, o argentino Romero, mesmo jovem, é o titular absoluto do gol, não dando chance alguma ao reserva Didulica. Além do portenho, o finlandês Niklas Moisander, com bom porte físico e relativa habilidade, firmou-se no miolo de zaga, junto do mexicano Moreno. Mas é no meio-campo e no ataque que residem as maiores justificativas do sucesso atual. Na meia, ainda que o time só tenha um armador de ofício, Martens, a chave é a qualidade demonstrada pelos três volantes escalados. David Mendes da Silva, De Zeeuw e Schaars têm bom domínio de bola, bom passe, mas não deixam de marcar na cabeça-de-área, o que faz com que a equipe domine o setor durante as partidas.
E há o ataque, onde estão as duas maiores e melhores surpresas do AZ. Mounir El Hamdaoui é o símbolo da reação. De seus pés saíram vários dos gols que formaram algumas goleadas na temporada (três marcados nos 5 a 2 contra o Willem II, e dois anotados nos 6 a 0 diante do Sparta). Não impressiona que o marroquino nascido em Roterdã tenha tomado de Amoah a artilharia da Eredivisie para não mais largar, com 13 gols em 12 jogos. E, mesmo quando não jogou, como na rodada passada, contra o Groningen (estava contundido), seu parceiro de ataque segurou as pontas. O brasileiro Ari só ganhou a titularidade ao entrar, contra o Twente, no lugar do lesionado Graziano Pellè. Já contra os Tukkers, marcou dois gols no 3 a 0 obtido. Desde então, sempre marcou em todas as partidas. Já são cinco gols em seis jogos.
Portanto, agora que Ajax e NAC Breda enfrentam turbulências (em casa, o Ajax só empatou com o Utrecht; os Bredase… bom, leia nas Curtas), o AZ tem a possibilidade de, ao continuar a boa fase, firmar-se na ponta. E, quem sabe, dar um final feliz, com a taça na mão, àquela elegia de 2007.
Na casa do Standard…
Sim, o Standard Liège impressiona na Copa da UEFA. Por mais que a Sampdoria tenha jogado com alguns reservas, o fácil 3 a 0 obtido pelos Rouches e a classificação para a fase de 16avos-de-final mostra que os comandados de Laszlo Bölöni andam na ponta dos cascos. Witsel e Defour andam cambaleando? Pois Igor mata a pau na armação, e ainda chega para finalizar. Mbokani anda de mal com as redes? Hora de Jovanovic se sobressair. Dúvidas caem sobre Onyewu? Pois, jogando na lateral-esquerda, o americano cresceu muito de produção.
Porém, em entrevista dada na semana passada ao diário La Dernière Heure, Michel Preud'homme (que sabe umas coisinhas sobre o time, como técnico na conquista da Jupiler League passada) foi cirúrgico na análise. O atual treinador do Gent apontou: “O Standard é a melhor equipe da Bélgica, mas mostrou que o é mais no âmbito continental do que no nacional.” A rodada da Liga ajudou a confirmar as suspeitas do ex-goleiro: contra o Malines, os Liègeoises nunca conseguiram ameaçar verdadeiramente a defesa aurirrubra, saindo de Mechelen com um empate sem gols e apenas com a terceira colocação do torneio.
Pior: viram duas performances seguras de Club Brugge e Anderlecht. Este valeu-se do bom dia dos jogadores argentinos – Frutos, Biglia, Suarez – e da rápida abertura do placar – Gillet marcou aos 4 minutos do 1º – para, em que pese a perda de Zitka, o goleiro titular, pelo resto da temporada (mais nas Curtas), fazer 2 a 0 sem sustos no Dender. Os Blauw-en-Zwart, por sua vez, continuam tirando vantagem da boa temporada que faz Wesley Sonck. O atacante marcou duas vezes nos 3 a 0 sobre o Germinal Beerschot, que colocaram o time de Jacky Mathijssen na ponta da tabela, dois pontos à frente dos Mauves.
Isto é, o Standard ficou não só mais distante dos dois ponteiros. Ficou também à mercê dos avanços de Westerlo (que venceu o Mons, por 2 a 0) e Genk (passou pelo Cercle Brugge, 3 a 2), ambos a apenas um ponto do atual campeão belga. Atualmente, na casa do Standard, o espeto é de Brugge e Anderlecht. Está na hora de o time do Maurice Dufrasne voltar a cantar de galo também em sua terra.



