Holanda

A vida sem Suárez

Estava até demorando. Ainda mais depois da abençoada temporada 2009/10, quando ele fez 49 gols em 48 jogos – 35 deles, só no Campeonato Holandês, em 33 jogos. Depois, veio uma Copa do Mundo em que o histórico ato desesperado de colocar a mão na bola, contra Gana, nas quartas de final, acabou apagando um pouco o ótimo desempenho pela seleção do Uruguai (basta lembrar das oitavas, quando decidiu o jogo contra a Coreia do Sul). Na atual temporada, eram 12 gols em 24 jogos. Mas, enfim, o momento chegou: Luis Suárez deixou o Ajax, rumo ao Liverpool.

E, enquanto o charrua de Salto já começou muito bem pelos Reds, marcando contra o Fulham pelo Campeonato Inglês, os Godenzonen ganharam um problema nada animador para o difícil segundo turno que se prevê: quem assumirá o papel de referência, no lugar do camisa 16? Na mesma sexta-feira em que a transferência se decidiu, dois nomes já despontaram. O primeiro, de Bas Dost, do Heerenveen. O segundo, de Dries Mertens, do Utrecht. Ou seja, o Ajax tentaria repetir a história que deu certo com Suárez: aproveitar o tamanho que tem dentro da Holanda para buscar um novo talento dentro de um clube menor.

Mertens poderia dar melhor resultado. Afinal, o belga tem características mais parecidas com as de Suárez: mais atividade na chegada ao ataque, maior movimentação, além da capacidade de voltar para buscar jogo no meio-campo. E o camisa 11 do Utrecht teria até um adicional: a capacidade de iniciar jogadas. Mas, ainda que o jogador tenha demonstrado algum interesse, o boato não chegou a avançar. Quem virou a alternativa preferencial foi Dost.

Com o jovem atacante, Frank de Boer ganharia um trabalho adicional. Afinal de contas, o nativo de Deventer é um atacante mais estático, fazendo o tal do papel de “referência” no meio da área. O que significaria mudar o estilo do trio de ataque dos Ajacieden, mais afeito à movimentação e à troca de posições entre os jogadores. Mas Dost tinha uma motivação especial para mudar de ares: a despeito de ser o artilheiro do Heerenveen na Eredivisie, com oito gols, Dost vem sendo preterido entre os titulares que Ron Jans escolhe, em favor do sueco Viktor Elm, e entra apenas no decorrer dos jogos.

O que o jogador decidiu fazer? Forçar a transferência com um recurso na federação holandesa, como sói acontecer nos últimos tempos. Além do mais, o atacante vinha com declarações básicas nessa situação. Mais clichê, impossível: “O treinador me deu atenção na pré-temporada, joguei duas partidas e todos acharam que fui bem. Mas, na última partida antes do início da competição, Viktor Elm jogou, e Ron Jans disse que queria experimentá-lo na primeira parte da temporada. Isso não estava combinado.”

No domingo, penúltimo dia da janela europeia de transferências, a KNVB frustrou Dost e o Ajax: o parecer da federação negava a liberação. Estava iniciada uma roda-viva que tomou todo o último dia da janela. Mesmo sem a liberação, o atacante passou por exames médicos no Ajax. E o agente do jogador, Rob Jansen, cuspiu fogo contra a negativa da federação: “É escandaloso. Nenhum jogador precisou pedir a liberação à comissão. A decisão já estava tomada.” Enquanto isso, o Ajax ia perdendo mais jogadores: o sérvio Darko Bodul ia-se para o Nacional português, o coreano Suk Hyun-Jun fica sem espaço no clube…

Ao mesmo tempo, as sinuosas negociações prosseguiam. O Ajax oferecia cerca de quatro milhões, o Heerenveen queria mais. O time de Amsterdã oferecia bônus ao clube da Frísia, no caso de um eventual título. Nada. Ao mesmo tempo que ia negando, o Heero deixava aberta a porta para uma negociação final. Até que a meia-noite chegou. E Dost ficou no Heerenveen, que foi o único a comemorar a resolução final, por meio do presidente Robert Veenstra: “Para o futebol profissional, foi a única solução correta.”

As declarações de Dost eram cheias de mágoa: “Serão meses em que eu jogarei sem vontade. Eu tinha dito que, depois de uma conversa com o treinador, poderia passar uma borracha nesse assunto, mas ele chegou após a pausa de inverno, na frente de todo o vestiário, e disse definitivamente que eu não jogaria. Fiz o meu melhor, quero jogar e ter prazer no Heerenveen. Mas não posso. Por isso queria ir para outro clube.”

Rob Jansen prosseguia nas lamentações: “O garoto está destruído.” E Danny Hesp, presidente do sindicato dos jogadores sob contrato, também fez coro às críticas pelo modo como a negociação foi conduzida: “Naturalmente, ele sabia que tinha assinado um contrato de cinco anos, mas o Heerenveen deveria ter feito a negociação. Poderia ter ganho um milhão de euros com Dost.”

E, sem alternativa, o Ajax terminará a temporada com o atual elenco. Provavelmente, Lorenzo Ebecilio, que estava sendo pego da base a conta-gotas, será efetivado e fará o papel que Emanuelson fazia pela esquerda, enquanto Siem de Jong jogará pelo meio, como Suárez – isso, se El Hamdaoui não voltar a atuar, recuperado que está de contusão. Sulejmani, por sua vez, ficará jogando pela esquerda. Até deu certo contra o NAC Breda, no primeiro jogo pós-Suárez: 3 a 0. Continuará dando certo?

Com rival como esse, quem precisa de rivais?

O Racing Genk saiu da 24ª rodada do Campeonato Belga como o grande vencedor da rodada. Afinal de contas, cumprira seu papel vencendo o Zulte Waregem fora de casa, no jogo de abertura da rodada. Viu o Mechelen ser um rival mais duro do que o esperado para o Anderlecht, fazendo com que os Mauves amargassem apenas um 0 a 0. Aí, a diferença do Genk em relação aos líderes da Jupiler League caiu para quatro pontos. Poderia cair para um. Era só vencer o Sint-Truiden, em jogo atrasado da 21ª rodada. Em casa.

Tudo começou como esperado: logo aos oito minutos, Elianiv Barda fez 1 a 0. Mas ninguém contava com o empate dos Canários, visitantes, com Nils Schouterden, no fim do primeiro tempo. O Genk passou o resto do jogo pressionando em busca do segundo gol. Não o conseguiu. E o Anderlecht segue com uma vantagem que, se não é tão grande, ainda lhe dá alguma segurança na primeira posição.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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