A união faz… nada
O gol de Niklas Moisander poderia ter animado bastante o Ajax, contra o Real Madrid, na segunda rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. Afinal, deixava o placar em um 2 a 1 reversível, e representava o fim de um jejum de 326 minutos sem colocar a bola na rede pelo maior torneio continental europeu. E os Ajacieden se animaram. Resultado: Cristiano Ronaldo fez a equipe despencar da realidade, marcando mais dois gols e estampando um 4 a 1 que poderia ter sido até maior em Amsterdã, não fosse a boa partida de Vermeer, no gol.
Em Parc Astrid, o Anderlecht tinha razão para ter mais esperanças de vitória, até. O empate contra o Milan, fora de casa, dera uma confiança que os Mauves não suspeitavam que poderiam ter para a sequência da fase de grupos. Obviamente, ver o Málaga vencer o Zenit trazia certo alerta, mas o time de John van den Brom estaria motivado e atento o suficiente para arrancar uma vitória que poderia fazer crescer o sonho de uma classificação às oitavas de final. Mas tudo isso desmoronou quando Eliseu fez o belo gol que abriu o caminho para o 3 a 0 que consolidou a boa surpresa que têm sido os Boquerones na LC.
As derrotas algo vexaminosas de Ajax e Anderlecht não foram eclipsadas nem pelo desempenho mais honroso na Liga Europa, com as boas vitórias de PSV e Club Brugge. E, novamente, o sentimento de impotência que tem afligido os clubes belgas e holandeses em competições europeias, há muito tempo, voltou à tona. Trazendo junto dele a ideia de unir os Campeonatos Belga e Holandês em um só, formando a BeNeLiga.
Tal ideia nem é rara – vez por outra, Michel Platini, presidente da Uefa, sugere que seria a única maneira de fazer o futebol da região ser forte novamente. E o homem a trazê-la de volta à ribalta foi Roland Duchâtelet. O presidente do Standard foi até além, na entrevista dada à revista “Sport”: “A BeNeLiga nem deve mais ser discutida, é muito óbvia. É a sequência lógica da briga entre as diferentes ligas europeias, há algum tempo. Você tem a Inglaterra, a Alemanha, a França, a Espanha e a Itália, chamemos esses de os cinco grandes. Daí, vêm Rússia e Turquia. E aí fica o desnível com o resto. Precisamos formar com os holandeses uma competição de ponta, ou nunca mais seremos concorrentes perigosos. Quem não vê isso é um idiota”.
Pensar que dois campeonatos nacionais vindos de pequenos países possam se unir é uma ideia bastante plausível. Ainda mais porque a concorrência com as equipes dos “cinco grandes” que Duchâtelet lembrou só fica mais desigual a cada ano. Para termo de comparação: o time que entrou em campo pelo Ajax, na última quarta, tinha, na soma dos valores de todos os jogadores, 4,9 milhões de euros. Os titulares do Real Madrid, juntos, somavam 302 milhões. Pano rápido.
Além disso, a medida já foi adotada no futebol feminino. Para solucionar a falta de equilíbrio tanto na Eredivisie das mulheres (dos cinco campeonatos, desde 2007/08, o AZ ganhou três), quanto na primeira divisão belga (disputada desde 1971/72, o Standard Fémina, equipe de mulheres do clube de Liège, levou três dos últimos quatro campeonatos), a BeNeLiga foi adotada. 16 clubes, com holandeses num grupo e belgas noutro. Os campeões de cada grupo, então, farão a decisão da primeira BeNeLiga feminina.
Tal medida foi saudável, e até propiciou o retorno de algumas jogadoras prestigiosas, como a holandesa Anouk Hoogendijk, grande destaque do país. Ainda assim, é de se pensar se obteria êxito completo no caso do futebol masculino. Para começo de conversa: dentro da própria Bélgica, a divisão entre Valônia (parte francófona) e Flandres (parte nederlandófona) já é cada vez mais clara na federação. A começar pela cisão das divisões dos times amadores, já disputadas por províncias, não mais unindo flamengos e valões. Ou seja, num país que já imagina a sua divisão, não seria coerente a união com a Holanda.
E, por sinal, o futebol holandês ainda espera pelo resultado que surgirá do contrato de venda de direitos de televisão feito com a FOX News. Caso o dinheiro seja melhor administrado, haverá menor chance de clubes ficarem à mercê da compra por mecenas – coisa que acontece com o Vitesse, como se falou aqui, e provavelmente ainda se falará. Bem ou mal, já atualmente, os clubes holandeses ainda vivem em um cenário pouco mais sustentável do que os belgas. Isso pode ser visto pelos patrocinadores na camisa das equipes: geralmente concentrados em um espaço, na Holanda, poluem a camisa, na Bélgica.
Então, antes de a união entre os Campeonatos Holandês e Belga ser confirmada, muita discussão deverá ser feita. Afinal de contas, de nada adiantará a fusão das ligas, se nada mudar nem fazer com que o poder de compra dos clubes cresça. Terá sido um típico caso da união que não fez força. Aliás, que não fez nada.



