Holanda

A torcida do NAC Breda se uniu em protestos e conseguiu impedir a venda do clube ao City Group

City Football Group manteve uma parceria com o NAC, mas foi repelido quando tentou se tornar acionista majoritário

Contar com o apoio do City Football Group é bem visto por muitas torcidas, que gostariam de ter seu clube alavancado – e esse sentimento existe dentro do Brasil. Porém, não é todo mundo que deseja ter uma companhia estrangeira colocando em xeque a própria tradição da agremiação e transformando o time num satélite. Em março, o grupo emiratense foi anunciado como novo acionista majoritário do NAC Breda, da segunda divisão do Campeonato Holandês – um parceiro antigo no empréstimo de jogadores. A notícia, entretanto, não foi bem recebida pela torcida aurinegra e diversos protestos aconteceram, inclusive no estádio do Manchester City. Neste fim de abril, então, a transação seria barrada e o City Group desistiria da aquisição. Vitória dos torcedores, que poderão seguir atrelados às raízes locais – mesmo que um salto competitivo se torne mais difícil.

O NAC Breda entrou no portfólio do City Football Group na última década. O grupo dono do Manchester City passou a usar o clube holandês para emprestar jovens das categorias de base e dar rodagem a eles numa liga de segundo escalão. O fluxo mais intenso aconteceu em 2016/17, quando seis jogadores do time sub-23 dos celestes reforçaram os aurinegros na segunda divisão do Campeonato Holandês. Alguns foram titulares e contribuíram para o acesso à elite. Já na Eredivisie, nomes como Angeliño e Pablo Marí defenderam o NAC por meio dessa parceria. A equipe se manteve na primeira divisão por duas temporadas, até cair em 2018/19. Seguiu com pontuais atletas cedidos pelo clube inglês na segundona.

Tal aproximação fez o City Football Group vislumbrar uma possibilidade quando, em março, o empresário Wim van Aalst alinhou a venda de sua parcela como acionista majoritário do NAC Breda. Os emiratenses imaginaram que a relação estabelecida com o clube geraria uma resistência menor da torcida contra a aquisição. Teriam em mãos uma equipe bastante tradicional da Eredivisie, com um título da liga e um da copa em seu passado (apesar de geralmente transitar no meio da tabela), além de uma base de torcedores numerosa. Contudo, a própria população da cidade não estava disposta a aceitar os novos proprietários.

A partir de então, uma onda de protestos se iniciou no Estádio Rat Varlegh, a casa do NAC Breda. Os ultras encabeçavam as manifestações contrárias ao City Football Group, com faixas e bandeiras. Porém, a mobilização também contaria com a participação de muitos outros frequentadores das arquibancadas, de crianças a idosos. O ápice aconteceu no fim de março, quando os holandeses pegaram a estrada e fizeram protestos em estádios dos outros clubes europeus pertencentes ao City Football Group. No Estádio Etihad, durante uma partida do Manchester City, a faixa dizendo “Fique fora do nosso território, o NAC não é uma história do City Group” foi exibida brevemente nos portões e nas tribunas, até ser retirada pelos seguranças. Ações do tipo também aconteceram em partidas do Troyes (França) e Lommel (Bélgica), peixes pequenos na estrutura do grupo.

“Geralmente, um grupo de torcedores faz todas as faixas – esse é o trabalho deles, então ninguém mais faz. Mas quando chegamos ao estádio, foi incrível: muitas pessoas tinham aparecido com suas faixas também. Havia toalhas de mesa, lençóis, qualquer coisa – todas com mensagens claras contra a venda. Foi muito bom ver isso. Uma surpresa para nós, mas uma mensagem realmente poderosa de que estávamos todos juntos nessa”, conta Leon Deckers, torcedor do NAC e editor da principal fanzine do clube, ao site Joe.co.uk. Segundo ele, as principais manifestações em prol do City Football Group vieram nas redes sociais. Todavia, em contas anônimas que tinham estilos de escrita parecidos – os famosos robôs, que infestam principalmente o Twitter.

Diferentemente do que acontece em outros continentes, os clubes europeus do City Football Group não costumam passar por uma mudança de identidade. Troyes, Lommel e Girona não precisaram adotar o celeste em seus uniformes ou adicionar o “City” ao nome, tal qual aconteceu com Torque e Melbourne Heart. A questão para a torcida do NAC Breda, contudo, não era só o risco da descaracterização. A equipe ficaria à mercê das decisões dos emiratenses, que poderiam seguir rumos indesejados, mesmo com o aumento do investimento. E, a observar esses outros times satélites, não é que o City Football Group promova um crescimento acelerado. Nem esse bônus seria garantido.

Além do mais, a própria relação política com os Emirados Árabes era uma preocupação. “A venda não era do interesse do nosso clube. Temos uma cultura de torcedores muito forte aqui. Prezamos muito por esse vínculo entre clube, torcedores e nossa comunidade. Não queríamos ser parte de algum grande grupo internacional de capital privado. O futebol torna possível o sportswashing e também não queríamos ser parte disso. Uma vez que você pega esse dinheiro, não pode opinar sobre mais nada. Você nunca mais vai ganhar uma discussão sobre direitos humanos depois disso. Não era é isso que defendemos, então precisávamos fazer algo”, também analisa Deckers.

Diante da resistência, o próprio Wim van Aalst se manifestou. O acionista majoritário do NAC Breda apontou que a venda seria o melhor caminho para “permitir investimentos maiores”. Em carta aos demais acionistas, disse que “alguns não ouviam os argumentos racionais” e até que a sobrevivência estaria em risco sem o City Group. Apesar do sonho de reconquistar títulos que não vêm há décadas, os torcedores ainda preferiam ter o poder decisório mais próximo e a identidade imutável. Para fazer sua vontade valer, contaram com um mecanismo da legislação interna que protege os interesses da torcida: a chamada “golden share”, obtida por acionistas minoritários específicos, que, por sua representatividade, podem barrar decisões cruciais.

No caso do NAC Breda, a golden share pertence à NOAD, a fundação do clube que aparece como segunda maior acionista. O nome faz referência a um dos times que se fundiram para a formação dos aurinegros em 1912 e a entidade, antiga administradora da associação antes da abertura do capital, é composta exatamente por torcedores, no papel de acionistas minoritários. Diante da repercussão, a NOAD acionou o seu poder de veto e fez a vontade da massa insatisfeita. Dispensou, inclusive, outras duas propostas de empresários estrangeiros (uma delas de americanos) para a compra das ações. Paralelamente, o próprio City Football Group anunciou a desistência do negócio, também em consequência da reação negativa.

A NOAD já começou um processo para adquirir as ações de Wim van Aalst e afastar o acionista majoritário do clube. A ideia da fundação é simples e bem aceita pelos torcedores: buscar empresários locais que desejem fazer as aquisições e participar do cotidiano do clube. O City Football Group pagaria €7 milhões a Van Aalst para obter suas ações, embora a totalidade da participação do empresário chegue a €12 milhões.

Ainda que o NAC ocupe atualmente o meio da tabela na segunda divisão, o clube tem seus atrativos para investimentos. A agremiação está inserida numa área metropolitana de 500 mil habitantes. Além disso, o estádio costuma receber uma média de 17 mil torcedores por jogo, que não sofreu alterações drásticas depois do rebaixamento mais recente e já foi retomada após o fim das restrições da pandemia. A quem quiser se envolver, contudo, é importante conhecer a paixão que rege o entorno. É preciso construir pontes e valorizar a localidade.

“Tivemos a sorte de conseguir esse veto. Muitos clubes não estão, mas nós já estávamos preparados para o dia em que alguém tentaria tomar nosso clube. Só espero que mais clubes possam fazer isso no futuro. A reação nos deixou cientes que nossa ação é muito especial. Estamos orgulhosos por termos trabalhado tanto – mais recentemente e também quando organizamos a golden share. Isso dá a Davi uma chance contra Golias. Talvez o City Group esteja acostumado a pegar clubes que já estão em baixa e ficam felizes em serem comprados, mas eles erraram conosco. Tiveram uma grande surpresa no nosso clube”, concluiu Deckers.

Num futebol muitas vezes resumido a dinheiro, uma história como a do NAC Breda mostra outro lado. Os clubes se engrandecem com os seus títulos e seus feitos, mas nem todos estão dispostos a admitir qualquer negócio para obter um crescimento. Também é importante manter um enraizamento na cidade e uma relação próxima com a sua gente. Porque, afinal, o futebol se vive além dos 90 minutos e o pertencimento tantas vezes vale mais que o mero resultado. Para os torcedores aurinegros, já conhecendo o City Football Group, a avaliação era de que não valia a pena colocar em xeque a história centenária por uma aventura com pessoas desconexas da realidade local. E, dentro desse orgulho, essa é uma vitória que ninguém tira deles.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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