Holanda
A novidade é o máximo
“Ah, a Holanda revela muita gente.” “Nossa, tem um molequinho surgindo lá na Holanda que vai arrebentar quando for para um grande clube.” “Que incrível é a escola de talentos do Ajax, a De Toekomst.” Essas três frases – ou variantes delas – são bastante mencionadas, quando se fala do futebol holandês. E todas elas são verdadeiras. Na Europa, provavelmente, a Holanda seja o país que mais leva suas categorias de base a sério: a maioria esmagadora dos times do Campeonato Holandês tem, pelo menos, um jovem entre os titulares absolutos.
Entretanto, isso também tem o seu lado ruim: há muito tempo, a oferta é tamanha que não se sabe direito se alguns novatos realmente vingarão ou se tiveram apenas um bom momento, um bom dia, e nada mais. Tal fenômeno tem acontecido muito, ultimamente, no país. E o seu momento mais recente se viu no último domingo, no bom clássico entre Feyenoord e Ajax, pela 10ª rodada do Campeonato Holandês. Embora sua inclusão entre os profissionais já fosse cogitada, não se esperava que o meia Jean-Paul Boëtius, de 18 anos, fosse estrear justamente no mais tradicional clássico do país. E o sobrinho de Urby Emanuelson não só estreou, como fez o primeiro gol do Feyenoord no empate por 2 a 2.
Pronto: bastou para que Boëtius se credenciasse como mais um jovem promissor saído da base frutífera do Stadionclub. Que, até por contar com clubes-satélite (caso do Excelsior), onde os jogadores podem se desenvolver, consegue mais condições de ter atletas que possam crescer na carreira. Porém, depois se vê como o potencial de todos é menor do que o previsto antes. A lista de jogadores revelados fulgurantemente no De Kuip, e que alcançam menos do que se pensava, é grande: Jonathan De Guzmán, Drenthe, Biseswar, Kermit Erasmus, Serginho Greene, Luigi Bruins… mesmo quem ainda merece algum crédito, como Leroy Fer, Castaignos e Wijnaldum, já começa a, digamos, passar do ponto.
Outra complicação é que a revelação de jovens é tão farta que mal sobra torneios em que eles possam ser testados satisfatoriamente. Uma das únicas oportunidades em que isso ocorre é na Copa da Holanda, que teve a sua terceira fase nesta semana. Jogando contra o ONS Boso Sneek (da Hoofdklasse, a quarta divisão do país), na última quarta, o Ajax lançou mão de um time bastante novato – os que entraram jogando formavam um time com média de idade de 19,7 anos. Dois deles marcaram os gols da vitória por 2 a 0: o atacante Viktor Fischer e o defensor Stefano Denswil. Fischer, inclusive, é apontado como “o próximo” da linha de produção de De Toekomst: com grande destaque no vice-campeonato na NextGen Series, ele já é observado por alguns graúdos do continente.
Outro clube que aproveitou a terceira fase para experimentar o enorme contingente de jovens que tem é o PSV: na vitória por 3 a 1 sobre o EHS (quarta divisão do país), recebeu a sua primeira oportunidade Gianluca Maria – holandês de nascimento, apesar do nome -, que também marcou o seu nome, definindo a vitória do time de Eindhoven por 3 a 1, também na quarta passada. Além disso, foi mais uma oportunidade para dois jogadores continuarem aparecendo entre os Boeren: o meia Memphis Depay, autor de um gol, e o atacante Jürgen Locadia, que já atuam, vez por outra, em jogos do Holandês. Locadia, inclusive, estreou na Eredivisie já marcando três gols, contra o VVV-Venlo.
O Twente é até mais conservador no uso dos jovens, mas os experimenta: os atacantes Edwin Gyasi e Joey Pelupessy, além do defensor alemão Mirco Born, já aparecem vez por outra na Eredivisie. O grande destaque da boa campanha do Vitesse é o meia Marco van Ginkel, de 20 anos (pré-convocado para o amistoso entre Holanda e Alemanha, por sinal). Assim como outro atacante, Mikhail Rosheuvel, no AZ. Na boa campanha que faz na liga, o Utrecht tem no armador australiano Tommy Oar seu grande destaque.
E até grandes times do exterior aproveitam para usar o torneio como “tubo de ensaio” de suas revelações. O Manchester City, por exemplo, fez isso com John Guidetti, no Feyenoord. E está fazendo com Dedryck Boyata, cedido ao Twente. Isso, fora os talentos que já vêm ganhando espaço na seleção, sob a reformulação que Louis van Gaal impôs: Van Rhijn, Clasie, Schaken, Martins Indi…
Mas é sempre bom ter em mente: não é por isso que a Holanda pode ser considerada um celeiro inesgotável de talentos. Um jogador experiente, que controle o ímpeto da molecada, embora possa não ser tão técnico, é tão útil quanto um garoto que surja imponente em um jogo ou outro. O importante não é aparecer bem, é continuar bem. O caminho para alcançar a fama e o talento de um Sneijder não é fácil. E é para percorrê-lo que os jovens da Eredivisie têm de se focar. Só aí a novidade continuará sendo o máximo.
Dedo podre
A edição passada da coluna falava da boa campanha do Vitesse. Pois bem: na 10ª rodada, finalmente a invencibilidade chegou ao fim. AZ 2 a 1, em Arnhem mesmo. Não é que o resultado tenha sido ruim – apesar dos pesares, os aurinegros continuam em terceiro lugar. Mas… novamente, a coluna se revela um verdadeiro iceberg pedólatra.



