Holanda

A mudança, a crise, o projeto, a lembrança… e a saudade

Como se sabe, esta é uma coluna de futebol holandês. Exceto uma ou outra colaboração adicional para a Trivela, como o texto desta quinta com um apanhado histórico sobre o Nacional de Medellín, é a única coisa que faço para o site – a não ser pelo tempo que passei trabalhando diretamente na redação, entre 2009 e 2011. Já são oito anos, cinco meses e dez dias escrevendo, quase toda sexta.

É curioso, muito curioso. Sabe-se que o futebol holandês atrai cada vez menos atenção –se é que um dia realmente atraiu, mesmo em tempos de brilho de Romário, Ronaldo, Gomes, Alex etc. A má fase da seleção também não ajuda: tudo bem, terminará 2016 na segunda posição de seu grupo nas eliminatórias da Copa de 2018, mas não há a menor confiança sobre as possibilidades dela de realmente chegar à Rússia.

Com isso, sempre vem à cabeça a possibilidade de que, um dia, o editor Lobo – ou Stein, ou Bonsanti, ou Nathalia, não importa – cheguem para mim e falem. Ou escrevam, via mídias sociais. Ou sejam ainda mais impessoais e mandem um e-mail. Não importa: o conteúdo seria sempre o mesmo, algo do tipo “Felipe, sua coluna não tem muitos pageviews que a justifiquem, não traz muita visita ao site, melhor parar por aqui”. Eu responderia: “Tudo bem, sem problemas, caiu mesmo o interesse, valeu por esses anos”.

Não aconteceu (ainda, vai saber – risos). Continuo com esse espaço aqui. E às vezes confesso que me espanto com o fato de haver comentários dos leitores. Além de pensar que talvez o futebol holandês não seja tão desinteressante assim, também continua sendo um óbvio estimulante para continuar. “Mas há sempre coisas para falar? Como fazer para que a coluna não vire uma sequência semanal de Ajax, PSV e Feyenoord?”, pode-se perguntar.

Há, sempre há. E houve nesta semana. A coluna teria uma variedade considerável de temas para escolher. Para começo de conversa, o interesse crescente da federação holandesa em uma mudança no sistema de disputa para o Campeonato Holandês, já a partir da próxima temporada. Inspirado no relativo crescimento da Pro League na Bélgica, que ganhou certo espaço na Europa e mostra mais equilíbrio entre os campeões, pensa-se na adoção de um hexagonal ao final das rodadas regulares, para a decisão do título – sem contar a definição das vagas europeias, como até ocorreu em temporadas passadas. A ideia ainda está na fase inicial, mas certamente será discutida e comentada. Até aqui, mesmo.

Assim como a nova série de problemas entre o ADO Den Haag e o mecenas do clube, Hui Wang: o clube reclama que o dinheiro da Vansen United, empresa de Wang, novamente está demorando para chegar a Haia, enquanto o chinês retruca dizendo que o clube é que está fazendo mau uso do montante pesado investido. Sem contar o conflito cada vez mais crescente, à beira de explodir, entre o Conselho Deliberativo do clube, desejoso de manter a presença “holandesa” no clube, e Wang, cuja intenção é aumentar a presença de chineses na direção do Den Haag.

Mais assunto? Claro: a apresentação do ambicioso projeto do Feyenoord para seu novo estádio, à beira do Rio Maas, na zona sul de Roterdã, com duas claras intenções: não só substituir De Kuip, mas ser um complexo de entretenimento que traga muito mais dinheiro ao Stadionclub – com direito a cervejaria, hotel e cinema dentro do espaço. Óbvio, haverá muita conversa com a prefeitura, para ver se é possível haver alguma ajuda. Mais óbvio ainda, a iniciativa privada de Roterdã será chamada para abrir a carteira.

Enfim, tudo isso mereceria uma coluna. Mas não agora. O acidente aéreo que dispensa menção torna o futebol holandês, merecedor desse espaço, realmente desimportante. Só vale a pena citar as homenagens comuns e esperadas – fosse por mídias sociais, tanto de clubes quanto de jogadores fosse como o Ajax fez, com a simpática decisão de fazer uma carta para enviá-la a Chapecó, escrita e assinada pelo diretor geral Edwin van der Sar.

Talvez, até, o fato doloroso ocorrido no Cerro El Gordo, em La Ceja, na madrugada de terça, fosse um gancho para um texto trazendo uma triste lembrança relacionada com a Holanda: do desastre aéreo com um DC-8 da empresa surinamesa SLM, na cidade de Zanderij, também no Suriname, em 7 de junho de 1989, vitimando 176 pessoas e ferindo gravemente 11 – entre as quais, toda a delegação do Kleurrijk Elftal, o “11 colorido”, combinado formado a partir de 1986 com jogadores surinameses (ou holandeses com ascendência no país) para fazer jogos beneficentes na antiga colônia nederlandesa, contando com as óbvias presenças de gente como Ruud Gullit, Frank Rijkaard, Aron Winter, Henk Fräser – que se salvaram por não terem sido liberados por seus clubes – e Stanley Menzo – este escapou do desastre por ter viajado num voo anterior.

Tal sugestão foi dada pelo confrade Leandro Stein, na quarta passada. Mas com uma advertência: talvez fosse melhor esperar um pouco, pois o momento é de respeito e relembrar outro acidente poderia soar como oportunismo. Pois bem: o colunista decidiu que melhor do que a mudança do sistema de disputa, melhor do que a crise no ADO Den Haag, melhor do que o projeto do Feyenoord, melhor do que trazer mais dor com a triste lembrança do Kleurrijk Elftal, melhor do que tudo isso seria apenas o silêncio desta coluna, ainda que cheio de palavras, para dedicar a mente à torcida de que as famílias das vítimas consigam apoio no processo duro de transformar luto e dor em saudade e boas lembranças.

Enfim, fazer um texto que levasse a condolências. Como as que fizeram Davinson Sánchez, destaque do Nacional de Medellín na Copa Libertadores, já titular absoluto no Ajax. Ou o atacante brasileiro Alemão, do FC Eindhoven (segunda divisão holandesa) que defendeu a Chapecoense em 2014, ano em que ela conquistou o acesso à Série A.

Enfim, paremos por aqui. Qualquer outro assunto fica para a próxima semana.

Acompanhe nossa cobertura sobre a tragédia da Chapecoense aqui.

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