A hora é agora para o Ajax

Friamente, pode-se dizer que o espírito de reformulação que guiou o Ajax para esta temporada ainda não deu resultados concretos nem transformou o time de Amsterdã em candidato quase imbatível ao título da Eredivisie. Afinal de contas, os comandados de Marco van Basten só na última rodada conseguiram a primeira vitória fora de casa na Liga Holandesa. E, ainda assim, o Heracles Almelo fez jogo duro: só nos últimos quinze minutos o Ajax converteu um empate que seria prejudicial numa vitória que o fez chegar, definitivamente, à briga pela ponta da tabela (o time ocupa agora o quinto lugar, com 16 pontos, empatado com NAC Breda, a dois do líder AZ). Isso, sem contar a má estréia na fase de grupos da Copa da UEFA, com a derrota para o Aston Villa.
Contudo, mesmo sem brilhantismo, os Godenzonen começaram uma caminhada que pode muito bem dar em boa coisa. O 5 a 2 sofrido contra o Heerenveen parece ter feito cair a ficha de Van Basten e do próprio time: sem organização tática (a goleada dos frísios deveu-se basicamente à fragilidade da defesa contra um ataque que sufocou desde o começo) e entrega em campo (o treinador passou uma dura carraspana pública na apatia do time dentro do Abe Lenstra Stadion), o time correria o risco de fazer papel até pior do que nas últimas duas temporadas, quando pelo menos brigou pelo título holandês. A partir daí, mesmo com um estilo de jogo que provavelmente desagrada grande parte dos torcedores, os Ajacied engataram três vitórias em seqüência no campeonato. Com apenas duas derrotas – Willem II, na estréia, e a supracitada -, o time conseguiu um pequeno embalo. E a impressão de que a chance de melhora cresce é favorecida quando se observa que, num todo, a equipe parece ter entrado nos eixos, mesmo que nenhum dos jogadores parece ter atingido o ápice pessoal.
Isso começa na defesa: ela mal aparece entre as menos vazadas, mas não é uma peneira. Vermeer precisa diminuir um pouco o espalhafato nas defesas e no posicionamento, mas tem aproveitado bem a titularidade que ocupa, enquanto Stekelenburg recupera-se da lesão no ombro. Pela direita, Bruno Silva tem na discrição sua maior qualidade: raramente comete pixotadas. No miolo, a dupla Vermaelen-Oleguer vai se entrosando aos poucos. Destaque, principalmente, para o beque catalão, que, se não apagou de vez as péssimas memórias do Barcelona, não compromete na marcação e mostra-se perigoso no jogo aéreo, já tendo até marcado de cabeça o gol da vitória contra o Groningen. A esquerda, por enquanto, é o calcanhar de Aquiles: Van der Wiel ainda tem deficiências na marcação, mesmo mal de Emanuelson. Mas nada que treinos não resolvam.
O meio-campo também está mais fortalecido, principalmente na proteção à defesa, tarefa bem cumprida, ora por De Jong, ora por Lindgren, que ainda têm capacidade de entregar bem a bola para Vertonghen. O belga, por sua vez, vai se transformando no esteio do Ajax. Não só mostra excelente condução de bola, mas também aparenta capacidade de chegar mais à frente para concluir, como na vitória contra o Vitesse por 3 a 0, quando marcou dois gols. Tal habilidade já lhe rende mais oportunidades como armador do time, ocupando o lugar de Gabri, que vem jogando mais recuado.
Já o ataque dos alvirrubros é motivo de controvérsia. Finalizadores mais eficientes do time, Huntelaar e Suarez têm um desempenho perigosamente irregular na Eredivisie. Quando está mal, a única coisa que Suarez consegue fazer é ser insistente na saída de bola; já em um bom dia, atormenta quantos marcadores houver pela direita, com sua velocidade e dribles insinuantes. Se o Ajax cai de produção, Hunter torna-se nulo em campo, isolado no ataque; caso o time funcione, ele, mesmo que não consiga sair da área para buscar jogo (característica que mostrou em campeonatos passados), continua finalizando como poucos na Holanda. A dupla acaba eclipsando o desempenho do terceiro atacante, seja ele o agora contundido Cvitanich, seja Leonardo. E, bem ou mal, ainda salva o Ajax. Ambos foram os autores dos gols no 2 a 0 contra o NEC Nijmegen e no 3 a 1 contra o Heracles – neste, dois de Huntelaar.
E a hora do Ajax solucionar a inconstância na Eredivisie é agora. Com a seqüência de três vitórias, começa também a série de partidas contra companheiros de ponta no campeonato; dos próximos quatro jogos, três são contra oponentes diretos – Twente, PSV e AZ -, além de uma oportunidade de “respiro” contra o Sparta Rotterdam. Tendo desempenhos louváveis (leia-se vitórias) contra todos, os Amsterdammers conseguirão credenciar-se em definitivo para buscar o título nacional que não vem desde 2003/04. E Huntelaar, quem sabe, consiga a tão sonhada transferência para um grande centro europeu.
A coisa ficou azul (e preta) na Bélgica
Quando falou sobre a Jupiler League, a coluna passada disse que a chegada definitiva do Club Brugge à briga pelo primeiro lugar do Campeonato Belga dependia de o Standard não perder, contra o Genk, os mesmos pontos que quase perdera de modo bobo contra o Mons. Tudo bem que o KRC faça ótima campanha, como quinto colocado, mas o time de Laszlo Bölöni não teve a mesma sorte que tivera na oitava rodada. Empatou sem gols. E deu ao Brugge a chance de, com um jogo a menos, poder chegar à liderança. Ultrapassando até o Anderlecht, que esmagou o Malines (7 a 1).
O time de Jacky Mathijssen só não assumiu o primeiro lugar da Liga de modo isolado porque, antes de cumprir jogo atrasado da 2ª rodada contra o Zulte-Waregem, no meio de semana, perdeu a partida contra o Gent por 3 a 0. Mas os Blauw-en-Zwart aproveitaram o mole dado pelos Rouches exemplarmente, não correndo riscos contra o Zulte e, em onze minutos, praticamente garantindo a vitória por 2 a 0.
Pouco surpreendente. Por mais demorada que tenha sido a ascensão, o time de Mathijssen consegue mesclar experiência e juventude em bons jogadores. Mostra disso é a dupla de ataque. O nigeriano Akpala figura entre os artilheiros da Jupiler e tem a valiosa companhia do artilheiro das Eliminatórias européias para a Copa, Sonck, ao seu lado. No meio-campo, o croata Ivan Leko e Simaeys se sobressaem (tendo sempre à disposição, no banco, o bom marroquino Dirar). Na defesa, Stijnen mostra a mesma capacidade das atuações na seleção belga. O equilíbrio ajuda nas atuações do Brugge, e será de grande valia para a partida contra o KV Kortrijk. Sem contar que o Standard abre a rodada contra o Charleroi e pode repetir o vacilo da última rodada.



