A festa continua

A coluna ficou fora. E perdeu uma grande festa dentro do futebol holandês, ocorrida no fim da temporada passada. E de um modo até surpreendente. Em meio a uma reestruturação grande, o Ajax esperava somente disputar o título holandês a sério na próxima temporada. Porém, apregoar a necessidade de dar a volta por cima foi uma mentalidade que começou a vicejar dentro do elenco dos Ajacieden já naquele momento que parecia tão difícil.
Jogadores de qualidade, mas individualistas, perderam espaço, pouco a pouco, dentro do elenco. Paralelamente, os jogadores criados em casa foram recebendo cada vez mais espaço – bem, somente dois tiveram espaço efetivo dentro do time, é verdade, mas o uso da base passou a ser um hábito mais defendido. Além disso, jogadores que já vinham ocupando papel de destaque dentro do time de Amsterdã cresceram muito de produção na parte final da temporada.
Com todas essas características, o Ajax ganhou motivação. Começou a vencer. E o outro principal concorrente ao título na Eredivisie, o Twente, passou a acumular tropeços indesejáveis nas rodadas finais, perdendo a liderança para os Godenzonen. E uma coincidência agradável previu um duelo entre os dois candidatos ao título da Holanda, exatamente na última rodada do torneio. De quebra, a ampliação das coincidências fez com que Ajax e Twente fossem, também, os finalistas da Copa da Holanda. Cuja decisão, por si só, já foi uma belíssima prévia de como a “final” do Holandês prometia: um 3 a 2 do Twente, de virada, na prorrogação, após estar atrás por 2 a 0.
Mas o Ajax escolheu justamente o jogo mais importante de sua temporada para provar como a reformulação interna fez bem ao ambiente do clube. Vendo Siem de Jong ter uma daquelas atuações que ajudam um atleta a passar do status de “promessa” para “protagonista” – não só pelos dois gols nos 3 a 1, mas pelo fato de ter assumido o papel de comandante, armando, correndo, finalizando. Tudo isso, tendo como grande coadjuvante Christian Eriksen, de maturidade admirável para os seus 19 anos. E a atuação fervilhante dos Ajacieden os fez comemorar, com toda justiça, o 30º título nacional de sua história, acabando com um jejum de sete anos. A sonhada “terceira estrela” (a cada dez títulos nacionais, um clube holandês pode colocar uma estrela em seu distintivo) confirmava: a reformulação que visava a volta ao topo em 2011/12 já dava certo na primeira temporada.
Mas a festa precisava continuar. E ganhou novo ânimo dois dias depois daquele já histórico 15 de maio. Naquele dia, Theo Janssen foi o único jogador do Twente que ofereceu perigo constante. Fez o gol dos Enschedese, tentou galvanizar o time, armava jogadas, marcava com força, demonstrava vontade em campo. Como, aliás, fez em toda a temporada. Não por acaso, foi assim que, alternando impetuosidade e habilidade (nos 2 a 0 contra o PSV, fez o gol mais bonito da temporada), tornou-se o melhor jogador da Eredivisie – e, por que não, um dos bons meio-campistas da Europa em 2010/11.
Não impressiona, portanto, que o meio-campista de braços completamente tatuados tenha virado nome frequente em convocações da seleção holandesa. E que já houvesse declarado que gostaria de se transferir para um clube maior, terminada a temporada. O que surpreendeu é que, dois dias após a rodada decisiva do Campeonato Holandês, Janssen tenha sido flagrado na Amsterdam ArenA. Segundo o diário “De Telegraaf”, era para fechar a sua ida para o Ajax. E era mesmo: poucos dias depois, estava confirmada a assinatura do contrato de dois anos.
Ter contratado o “Jogador do Ano” na Holanda foi um grande golpe dos Amsterdammers. Com efeito duplo: enfraqueceu o Twente, um rival em potencial, que se viu separado de seu melhor jogador, e fortaleceu o elenco do Ajax. Tanto que, nesta semana, a saída de Demy de Zeeuw, rumo ao Spartak Moscou, nem foi tão lamentada assim.
Mas, para afirmar a volta ao topo na Holanda, era preciso contratar mais jogadores respeitáveis dentro do país. E o Ajax resolveu isso contratando também o melhor jogador da Jupiler League passada. Tudo bem, o atacante Derk Boerrigter não deixa de ser apenas um jogador a mais no elenco – e nada indica que será protagonista de imediato. Mas Boerrigter foi peça fundamental na incrível reação do RKC Waalwijk rumo ao acesso, tirando uma diferença de sete pontos do Zwolle e conquistando o troféu.
O Twente, por sua vez, somente saiu perdendo. Teve poucas defecções até agora, mas importantíssimas. Não bastasse a saída de Janssen, ainda viu Michel Preud'homme se mandar, enfeitiçado pelo dinheiro oferecido pelo Al-Shabab. Não que fosse proibido, mas ter trocado a sequência de um ótimo trabalho pelo lado financeiro foi medida temerária do ex-goleiro, que corre o risco de interromper o sólido desenvolvimento que experimentou até aqui na carreira de técnico – e que fatalmente o levaria a um centro maior do futebol europeu, ou até à própria seleção da Bélgica em que fez fama como jogador.
Somente após perder Preud'homme é que o clube de Enschede foi à luta. E acertou na escolha do novo comandante. Já que não deu para trazer de volta Steve McClaren, a aposta em Co Adriaanse faz sentido. Embora exigente e detalhista, o ex-técnico de Ajax, AZ e Porto é mais cauteloso do que alguns compatriotas congêneres. O desafio, agora, é fazer com que outros personagens importantes da equipe, como Douglas e Bryan Ruiz, não deixem a equipe. Pois, com a base atual, o Twente ainda é sério candidato a disputar a Eredivisie a sério – e fazer boas campanhas.
No PSV (que, apesar dos pesares e do fim de temporada melancólico, ainda é dos grandes na Holanda), ia tudo dentro dos conformes. Até a perda de Bálazs Dzsudzsák. Surpreendente pela rapidez com que o negócio foi confirmado, mas até compreensível: um dinheiro como o que o Anzhi investiu pelo húngaro é sempre bem vindo, ainda que o antigo camisa 22 dos Eindhovenaren fosse o grande destaque do time. E, com a renda obtida, foi possível fazer dois investimentos válidos, tirando de uma só vez Kevin Strootman e Dries Mertens do Utrecht.
Ótimo para o meio-campo dos Boeren, que ganha dois jogadores leves e capazes de atacar. Principalmente Mertens, que vinha sendo destaque no Utrecht exatamente pela rapidez nas chegadas à frente para finalizar. E Strootman, por sua vez, pode ser um armador muito mais leve do que Toivonen tem sido, trazendo mais velocidade à equipe de Fred Rutten. Sem contar que ainda podem vir Georginio Wijnaldum (endividado, o Feyenoord não ofereceria resistência) e Mounir El Hamdaoui, sem espaço no Ajax.
Mas Twente e PSV ainda vivem mais no campo das expectativas do que na realidade. E ainda são obrigados a verem a festa do retorno do Ajax ao topo da Holanda. Se a festa vai acabar, se as expectativas se concretizarão… serão coisas que a coluna vai acompanhar. E de modo mais regular. Sem ficar fora.



