Holanda

A crise no centenário do PSV. E o movimento formado para resolvê-la

Flamengo em 1995, Grêmio em 2003, Atlético-MG em 2008, Coritiba em 2009, Corinthians em 2010… No Brasil, é grande a lista de clubes que esperavam demais conseguirem vários motivos para festejos no ano do centenário, mas terminaram com as decepções se avolumando, enquanto os rivais é que comemoravam. A ponto da gíria “sem-ter-nada” se tornar corrente na voz dos torcedores que fazem galhofa do clube que passa o jubileu sem troféus entrando em sua sala.

Pois é o que acontece no PSV. A 104 dias do 31 de agosto em que completará 100 anos, o clube de Eindhoven já tem motivos para considerar que sua temporada foi um desastre. A equipe repatriou Mark van Bommel, esperando que este fosse um líder dentro de campo; manteve um ótimo elenco para os padrões do Campeonato Holandês, com vários bons jogadores, principalmente no setor ofensivo; e escolheu o rigoroso Dick Advocaat como técnico. Tudo para conseguir reconquistar a Eredivisie que já não tem há cinco anos.

Como se sabe, nada deu certo. O clube manteve-se na disputa do título nacional até o final da temporada regular, é verdade. Mas teve de ver o Ajax (que não é o maior rival dentro da Holanda, mas é o grande adversário no quesito “clube holandês mais conhecido no mundo) conquistando o tricampeonato, com direito a vitória decisiva dentro do Philips Stadion, na 30ª rodada. Havia ainda uma leve esperança de ter um prêmio de consolação, conquistando o bicampeonato da Copa da Holanda, na final contra o AZ.

Mas os Alkmaarders aproveitaram-se de um começo de jogo irresistível, com dois gols quase em sequência – o primeiro deles, belo gol de Adam Maher, com direito a drible humilhante em Bouma -, para fazerem 2 a 0 e entrarem na rota do título da KNVB Beker. Jürgen Locadia ainda diminuiu, mas novamente o PSV se frustrou num momento final. Para piorar, a última rodada do Holandês trouxe uma derrota para o Twente, por 3 a 1. Sendo vice-campeão somente por ter melhor saldo de gols do que o Feyenoord, o time de Eindhoven terminou sua temporada com indisfarçável decepção.

E a decepção fez com que uma crise de identidade já presente eclodisse definitivamente em público. Durante a temporada, a dificuldade em ter bons resultados começou a levantar o volume das críticas de parte da torcida do PSV, para a qual o clube se distanciou de sua origem, preferindo contratar jogadores estrangeiros a dar força às pratas da casa – e até fechando as portas à torcida, com a raridade que se tornaram treinos abertos em De Herdgang.

Impossível não lembrar a crise de identidade que o Ajax vivia, no final de 2010, com a situação atual do PSV. Era hora de alguém levantar a voz e se tornar o representante público dessa vontade de trazer o clube da Philips mais perto de suas origens. E assim como Johan Cruyff fez no Ajax, esse alguém foi um ex-jogador de grande fama em Eindhoven: Hans van Breukelen, talvez o melhor goleiro que o PSV já teve em sua história (dividindo o posto com Jan van Beveren, vá lá), tratou de assumir a liderança no movimento para mudar o PSV.

Atualmente diretor de sua própria empresa de palestras direcionadas à área corporativa, Van Breukelen tornou-se membro do conselho deliberativo do clube em julho de 2010. E assumiu o papel de porta-voz dos pedidos por mudanças na atual política do clube. Mais do que isso: viu outros ex-jogadores aliarem-se a ele. E não só ex-jogadores, mas também um ex-técnico. “Eu realmente falei com ele, e lhe disse que poderia contar com meu apoio, se fosse para melhorar o PSV. Meus laços com o clube são para sempre, e podem contar comigo para tudo que precisarem. Minha lealdade é com o clube e com Hans”, prometeu Guus Hiddink, falando ao diário “Algemeen Dagblad”.

Bastou: no início desta semana, a mudança foi deflagrada. O diretor técnico do PSV, Marcel Brands, confirmou o que já se esperava: a saída de Dick Advocaat e a efetivação de Phillip Cocu como novo técnico da equipe. Já explicada aqui pelo colega Leandro Stein, a chegada representou uma vitória da ala de Van Breukelen, já que Cocu era seu aliado de primeira hora – bem como seu auxiliar, Ernest Faber, também um ex-jogador dos Eindhovenaren. Mais do que isso: também a favor das mudanças propostas por Van Breukelen, André Ooijer e Ruud van Nistelrooy se tornarão técnicos de alguns times de base. Assim como o recém-aposentado Mark van Bommel – que mesmo expulso contra o Twente, na última partida de sua carreira, continua amado pela torcida, e será homenageado com um jogo de despedida, em 19 de julho.

Entre essas mudanças há o objetivo de dar maior respaldo aos jogadores vindos da base. Não é por outra razão que, mesmo tendo sido o goleiro titular durante a temporada, Boy Waterman será liberado para o retorno de Jeroen Zoet, emprestado ao RKC nos últimos dois anos. Zoet é considerado uma das maiores promessas da Holanda para o gol (deverá ser o titular da seleção holandesa no Europeu Sub-21, no mês que vem). Na zaga, o veterano Wilfred Bouma já sabe que não seguirá no clube, e talvez o brasileiro Marcelo siga o mesmo caminho. No meio-campo e no ataque, qualquer proposta polpuda por gente como Strootman e Mertens será analisada com carinho. Tudo para que gente como Locadia, ou Memphis Depay, ganhe mais e mais espaço.

2bommel+hoogenband

Além disso, a torcida ganhou um canal para se manifestar dentro do clube, enviando sugestões sobre como o PSV pode se aproximar mais dela. E o “ouvidor” será um orgulho de Eindhoven (e da Holanda): Pieter van den Hoogenband [na foto, ao lado de Van Bommel], torcedor e embaixador do PSV. Sim, Van den Hoogenband, o mesmo que brilhou na natação nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, vencendo o anfitrião e arquifavorito de então Ian Thorpe nos 100m, e a lenda Alexander Popov nos 200m.

Tendo visto como a interferência de um ex-jogador de peso deu certo nos destinos do Ajax, o PSV quer tentar a mesma experiência. Se servir para evitar a divisão interna no elenco e a distância excessiva entre os jogadores e o técnico, problemas vividos sob Dick Advocaat, já servirá um pouco. Mas se servir também para colocar o time de volta na rota dos títulos, levantar a voz e pedir por mudanças terá sido um feito tão grande de Van Breukelen quanto o pênalti que ele defendeu de Veloso, na disputa de penais que definiu a Copa dos Campeões 1987/88, garantindo a Tríplice Coroa e o único título do PSV na competição mais famosa da Europa.

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