Holanda

25 anos da Euro 1988: quando a Holanda aprendeu que podia

Antes da Copa de 1974, a Holanda fazia parte de uma escala menor, quase ignorada no futebol europeu e mundial. Não era plenamente inexperiente em grandes cenários (já participara dos Mundiais de 1934 e 1938), mas também era um time inofensivo. Como se sabe, 1974 mudou o modo como a seleção holandesa é vista mundo afora. Só que aquela competição também iniciou o estereótipo trágico: a Holanda joga bonito e perde.

Isso foi visto à exaustão. Nas Copas do Mundo, em 1990, 1998, 2010… nas Eurocopas de 1992, 2000, 2008, 2012… enfim, várias vezes esperava-se o “agora vai” que traria o título tantas vezes merecido. Mas o “agora vai” só foi uma vez. Talvez, por isso mesmo, essa vez em que a Oranje “foi” esteja sendo tão lembrada atualmente, quando completa 25 anos. Além de ser o único título da história da seleção adulta, a Eurocopa de 1988 marcou a vida do país. Movimentou-o a ponto de provocar grandes comoções populares e levar músicas às paradas de sucesso.

Mas, ora bolas, este é um site que fala predominantemente de futebol. Aí é que a conquista da Euro fica ainda mais importante. Ela uniu aquela que é considerada a segunda grande geração de jogadores da história do país. Transformou os destaques dessa geração em estrelas, na Holanda e fora dela. E foi o símbolo de como 1988 é o grande ano da história do futebol holandês, com o PSV conquistando a Tríplice Coroa, o Ajax chegando à final da Recopa (na qual perdeu para o Mechelen, da Bélgica – que tinha quatro holandeses em sua escalação, mais o técnico Aad de Mos)…

Enfim, por todos esses motivos, a coluna fará um especial até a próxima quinta-feira, mostrando como foi a trajetória na Euro 1988, quando a Holanda teve a certeza de que podia ganhar algum dia, que não estava condenada a ser a eterna perdedora. E na sexta, a discussão da “ressaca”, baseada em mais uma eliminação após bom começo – esta, no Europeu sub-21 recém-terminado: afinal de contas, quais as lições que 1988 deixou para a Holanda? E por que elas não estão sendo seguidas?

Hora de lembrar a Euro 1988, quando a seleção da Holanda soube que podia.

Parte I: Michels e a federação escrevem certo por linhas tortas

Durante a década de 1980, a Holanda sofreu com uma palavra: entressafra. Não havia mais a sabedoria tática de Ruud Krol, o esforço de Johan Neeskens, a elegância de Robert Rensenbrink e acima de tudo, a genialidade de Johan Cruyff. Ao mesmo tempo, por mais que seu talento técnico fosse indiscutível, a geração que surgia desde o início daquela década ainda não se mostrara capaz de desabrochar em campo. Um bom exemplo disso é que a Chuteira de Ouro já até fora ganha por Wim Kieft (1981/82) e Marco van Basten (1985/86).

Mas algo continuava interrompendo o caminho de volta a uma grande competição. O duro caminho até que a nova geração ganhasse experiência suficiente incluiu duas dolorosas experiências em eliminatórias. Na qualificação para a Euro 1984, a vaga para a Espanha foi perdida no número de gols pró, após a Roja golear Malta por 12 a 1, na última rodada do grupo 7. Nas eliminatórias para a Copa de 1986, a Oranje foi para a repescagem contra a Bélgica, rival histórica. E perdeu o lugar no Mundial, por um gol, que os Diabos Vermelhos marcaram fora de casa (1 a 0 Bélgica, em Bruxelas; 2 a 1 em Roterdã, na volta).

Antes das eliminatórias para a Eurocopa, em 1986, Rinus Michels recebeu a tarefa de acumular o cargo de diretor técnico da federação holandesa com o comando da Oranje. E os comandados de Michels tiveram seus percalços. Empates com Polônia e Grécia, em casa, eram resultados pouco auspiciosos. A Holanda continuava na frente do grupo 5, estava invicta, mas qualquer falha podia ser fatal.

E essa falha veio em 28 de outubro de 1987, na penúltima rodada das eliminatórias, numa goleada por 8 a 0, contra o Chipre, em Roterdã: quando o placar estava em 1 a 0, um rapaz de 21 anos, presente nas arquibancadas do De Kuip, atirou uma laranja, que acertou a cabeça do goleiro cipriota, Andris Charitou. Este teve de deixar o campo, e os companheiros de time também o fizeram, alegando falta de condições para continuarem jogando em segurança.

Depois, houve o retorno, e o jogo seguiu até os 8 a 0. Mas a Uefa acompanhou o incidente e anulou a vitória. Drama à vista: com 10 pontos, um à frente da Grécia, a Oranje teria de passar por um duríssimo confronto direto contra os helênicos, em Rodes, na última rodada, para assegurar sua classificação. Aí entrou a influência de Jacques Hogewoning, presidente da KNVB, a federação holandesa. Ainda durante a partida, Hogewoning mandou Co Greep, especialista médico da federação, para verificar as condições de Charitou. E lá viu que o goleiro estava em boas condições – algo confirmado pelo médico da seleção cipriota.

A equipe da KNVB trouxe tal informação no julgamento da Uefa em relação ao incidente. E deu certo: uma pena que poderia ser de vitória por 3 a 0 “dada” ao adversário transformou-se na obrigação de jogar uma nova partida contra o Chipre, com portões fechados, além do pagamento de uma multa. Algo contornável. Tão contornável que a Holanda fez tranquilos 4 a 0 nos cipriotas, em Amsterdã, no De Meer, em 9 de dezembro de 1987, e garantiu a classificação para a Eurocopa. Na última rodada, ainda houve a vitória sobre os gregos, por 3 a 0, em 16 de dezembro. E só aí a preparação para a Eurocopa pôde começar.

Durante a preparação, em três amistosos, Rinus Michels chegou a algumas conclusões, que levaram à formação do time titular. A primeira era óbvia: os jogadores que vinham sendo convocados eram inegavelmente talentosos, mas não tinham o nível de compreensão tática da geração de 1974. Sozinhos, não conseguiriam concretizar uma revolução tática, como se vira havia 14 anos. Logo, o esquema tático deveria ser mais básico, já em sua origem. E assim foi, com a Holanda escalada num 4-4-2.

A segunda conclusão: sabia-se que Michels era um técnico absurdamente rígido em suas convicções. Sendo assim, a convocação do grupo de 20 jogadores que viajou à Alemanha para a Euro obedecia unicamente a seus critérios. Stanley Menzo, do Ajax, era um goleiro mais afeito ao jogo com os pés, que tanto fazia parte do Futebol Total? Michels não queria saber: como o titular Hans van Breukelen tinha mais capacidades debaixo das traves, o reserva também teria de ser assim. Logo, Menzo ficou de fora, e Joop Hiele, do Feyenoord, foi convocado.

A terceira e mais importante conclusão também tem algo de óbvio: como um dos ideólogos do Futebol Total, Michels exigia dedicação ao lado coletivo da equipe. Sempre. Se houvesse algum jogador altamente habilidoso, mas sem compromisso, certamente iria para o banco de reservas. Essa era a razão principal para o atacante Marco van Basten, talvez o grande jogador holandês daquela geração, ficar entre os suplentes, a princípio: Rinus Michels não gostava de Marco. Achava-o um jogador preciosista, uma vedete, que preferia o gol bonito e as luzes dos refletores à ajuda estóica para o time. Exatamente a grande virtude de John Bosman, atacante titular da equipe. Discreto, Bosman era jogador bem mais ao gosto de Michels.

O outro motivo para Van Basten não ser a grande estrela do time era a já presente propensão dele a lesões. No final de 1987, o tornozelo que o faria encerrar a carreira precocemente passou pela primeira cirurgia, forçando o atacante a ficar cinco meses sem jogar. Além disso, Van Basten sofreu uma microfratura num osso próximo ao olho, e precisou de algum repouso na concentração holandesa para a competição, em Noordwijk. O próprio reconheceu que precisaria mostrar talento aos poucos: “Eu estava machucado, no Milan. Precisava entrar em forma novamente, e foi lógico, da parte de Michels, pensar na base do ‘em time que está ganhando não se mexe’”.

E a escalação do time também foi sendo montada para privilegiar o esforço, pedindo o talento apenas quando ele fosse necessário. No miolo de zaga, Ronald Koeman e Rijkaard sabiam avançar com habilidade para o ataque – e Rijkaard poderia até ser improvisado como volante. Sendo assim, era quase obrigatório que os laterais fossem mais defensivos, como eram Berry van Aerle, na direita, e Adri van Tiggelen, na esquerda.

Também foi para evitar que o espírito ofensivo dos dois zagueiros vitimasse sempre o goleiro Van Breukelen que Michels escalou Jan Wouters e Arnold Mühren, dois volantes mais afeitos à marcação, no seu 4-4-2. O veterano Mühren, de 37 anos, ainda tinha a capacidade de ser bom nos lançamentos longos, podendo ajudar Erwin Koeman e Vanenburg, que ficaram na armação.

E aí, no ataque, enquanto Bosman faria o serviço sujo de marcar a saída de bola adversária, haveria a grande estrela: Ruud Gullit. Eleito o melhor jogador do ano em 1987, pelas revistas France Football e World Soccer, Ruud era o capitão da Oranje. Além de exuberante tecnicamente, era o homem de confiança de Rinus Michels em campo. Gullit era o camisa 10, literalmente. Era a grande esperança, com Van Basten à meia-bomba.

Van Breukelen; Van Aerle, Koeman, Rijkaard e Van Tiggelen; Wouters, Mühren, Erwin Koeman e Vanenburg; Gullit e Bosman. Eis a escalação com que a Holanda voltaria a uma competição de grande fama. E alcançou o sucesso. Mas não sem dificuldades. Nem sem mudanças.

Tatica Holanda 1988

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