Holanda

25 anos da Euro 1988 (II): a sorte conspira a favor

Escalada para a primeira fase da Euro 1988, a Holanda teria dificuldade considerável no grupo B. Embora o nível técnico dos favoritos não fosse tão grande quanto o que Alemanha e Itália tinham, no grupo A, havia times elogiáveis. O principal favorito a liderar a chave era a União Soviética: em seu último grande momento no futebol, ela trazia uma equipe com jogadores já experientes das Copas de 1982 e 1986, como o goleiro Rinat Dasaev e o zagueiro Anatoli Demianenko, aliados a gente que vivia a melhor fase da carreira, como os atacantes Vassili Rats, destaque soviético na Copa de 1986, Igor Belanov, eleito o melhor jogador da Europa em 1986, e Alexei Mikhailichenko, que faria parte da equipe soviética medalha de ouro no torneio olímpico de futebol, nos Jogos de Seul, dali a alguns meses.

Embora com um time sem tantas novidades, a Inglaterra ainda sabia que Gary Lineker, Peter Beardsley e John Barnes tinham muito a contribuir, no ataque – e ainda havia Peter Shilton, já um estandarte do time inglês, no gol. Finalmente, a Oranje teria a incógnita Irlanda como última adversária. Jogando a primeira grande competição de sua história, a seleção irlandesa era guiada pelo ideário do técnico inglês Jack Charlton, que pedia muita dedicação na defesa. Ou seja: embora Frank Stapleton, Tony Cascarino e John Aldridge dessem algum brilho ao ataque, o que impressionava no Eire era o esforço hercúleo na marcação, expresso em gente como o zagueiro Mick McCarthy e o volante Paul McGrath – na verdade, zagueiro adiantado.

A Oranje chegou para a estreia contra a União Soviética, no dia 12 de junho, em Colônia, com um certo temor. No que daria aquele time meio desequilibrado taticamente, contra a equipe determinada e coesa de Valeri Lobanovsky? Deu numa partida dominada pelos de camisas laranjas. Mais impressionante: nenhum dos armadores destacou-se no ataque. Mais impressionante ainda: esse destaque não foi de Ruud Gullit. Foi da dupla de zaga. Avançando como elementos surpresas, Ronald Koeman e Rijkaard impressionaram. Ao mesmo tempo, a dedicação de Van Tiggelen, Van Aerle e Mühren impediu que a defesa ficasse absolutamente desguarnecida.

Aqui, faz-se necessário um parêntese: entre os dois “líberos” que a Holanda tinha, Rijkaard foi ainda mais impressionante. Marcou bem, saiu bem com a bola nos pés, trouxe perigo em chutes de fora da área, em trocas de passes… enfim, a atuação do camisa 17 foi classuda a ponto de impressionar o técnico argentino Cesar Luis Menotti, que estava em Colônia: “Eu nunca vi um líbero tão técnico na minha vida”.

Rijkaard chegara àquela Euro em baixa: após sair do Ajax brigado com o técnico Johan Cruyff, no meio de 1987, fora contratado pelo Sporting-POR. Mas a transação se deu fora do prazo, e o volante/zagueiro não poderia atuar pelos Leões. O jeito foi repassá-lo ao Zaragoza-ESP, ainda em 1987. Mas ele não impressionara ali. Até aquela partida contra a União Soviética. No estádio, estava Arrigo Sacchi, técnico do Milan. Impressionado, ali Sacchi decidiu pedir a contratação de Rijkaard a Silvio Berlusconi, já então o mecenas milanista. E o resto é história.

Mas voltemos ao jogo: a Holanda estava bem, até que houve uma falha de marcação de Van Tiggelen, pela esquerda, aos sete minutos do segundo tempo. Ele somente cercou o meia Vagiz Khidiatullin, sem dar o bote. E o soviético pôde inverter o jogo para Rats, que entrava pela área, do outro lado. O atacante bateu, de voleio, e fez 1 a 0 para a URSS. Nem com toda a ajuda de Koeman e Rijkaard ao ataque, a Oranje conseguiu vazar a meta de Dasaev. Rinus Michels, então, decidiu usar a arma que tinha no banco: tirou Vanenburg, apagado, e colocou Van Basten. Mas o camisa 12 também não conseguiu fazer muita coisa. E a União Soviética saiu na frente, no grupo A.

Claro, a boa atuação na estreia já deixara uma impressão de que era possível ir longe na Euro. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente era preferível vencer a Inglaterra. Ela fora derrotada por 1 a 0 pela Irlanda, começara pessimamente, mas era bom não brincar com um time experiente como o inglês. Mais uma derrota e a Holanda estaria eliminada. Era necessário ter alguém que trouxesse mais técnica ao ataque. Era necessário ter alguém que trouxesse mais temor à zaga adversária. John Bosman não causara muito tormento entre os soviéticos, na estreia. Enfim: mesmo que ele não estivesse em perfeita forma, Van Basten tinha de iniciar a partida. Era preciso correr riscos.

Rinus Michels decidiu corrê-los. Em Dusseldorf, no dia 15 de junho, Van Basten substituiu Bosman na escalação que começou o jogo contra os Three Lions. E que início cheio de sustos. No primeiro deles, Van Breukelen saiu mal do gol e foi driblado por Lineker, que chutou na trave. E a bola voltou ao goleiro holandês. No segundo susto, Glenn Hoddle cobrou falta na mesma trave que Lineker acertara. A bola bateu no poste, rolou próxima à linha do gol e foi dominada pela defesa holandesa.

A sorte estava virando. Prova disso foi o que se viu aos 44 minutos do primeiro tempo: após cruzamento de Gullit, da esquerda, Van Basten dominou na área, deu um drible humilhante em Tony Adams e bateu na saída de Shilton para abrir o placar. Eis ali a prova de que o camisa 12 tinha a habilidade que John Bosman não possuía, por mais esforçado e dedicado ao time que fosse.

No segundo tempo, aos seis minutos, Bryan Robson empatou para os ingleses. Só que, aos 26 minutos, Van Basten novamente apareceu livre, recebeu passe de Gullit na área e recolocou a Oranje na frente. E, aos 30, em jogada ensaiada (cobrança de escanteio, desviada na área para o complemento na segunda trave: lembram da Copa de 2010?), Van Basten emplacou o terceiro gol na partida. Definitivamente, com três gols em um jogo, o atacante mostrava a Michels que estava pronto para ser titular.

Caminho encontrado, a Holanda ganhava cada vez mais confiança. Mas não estava garantida nas semifinais da Euro. Afinal, a Irlanda era uma incógnita cada vez mais perigosa: ganhara da Inglaterra, e arrancara um empate por 1 a 1 contra a União Soviética. Tinha três pontos (lembre que a vitória valia dois pontos na época), um a mais do que a Oranje. Novamente, era vencer ou vencer. Mesmo que o nível técnico da seleção de Rinus Michels fosse superior ao dos irlandeses (e houvesse sido ampliado com a explosão de Van Basten), o jogo em Gelsenkirchen, no dia 18 de junho, era mais um caso em que a Holanda teria de matar um leão para seguir no torneio.

Novamente, houve sustos no começo: nos primeiros minutos de jogo, McGrath mandou uma bola na trave, de cabeça. Depois, só a Oranje trouxe perigo. Mas, por mais que se esforçasse, a dedicação irlandesa na defesa vencia as tentativas de ataque. Hora de Rinus Michels agir: aos cinco minutos do segundo tempo, ele colocou Wim Kieft no lugar de Erwin Koeman.

Ainda que a seleção estivesse agora armada num 4-3-3, a insistência resumia-se a cruzamentos para a área prontamente afastados de cabeça, ou a chutes de fora da área defendidos pelo goleiro Pat Bonner. A Holanda ia se cansando. A semifinal impensável chegava para consagrar a Irlanda. Mas tinha uma orelha no meio do caminho.

37 minutos do segundo tempo. Gullit cruza da direita, e Ray Houghton, atacante, tira de cabeça. De primeira, Ronald Koeman arrisca o voleio. Pega fraco. A bola saltita, Kieft voa para cabecear e dá com a orelha na bola. O destino dela muda, e ela continua saltitando, até morrer no canto esquerdo de Bonner. O 1 a 0 esperado viera, para explosão de Rinus Michels, no banco.

Enfim, com o destino e a habilidade conspirando a favor, a Holanda chegava à semifinal da Euro, aos trancos e barrancos. E enfrentaria a Alemanha, sua eterna arquirrival, sua algoz costumeira. Seria um jogo à parte. E foi.

Com Van Basten, além de manter a mobilidade, o ataque holandês ganhou em técnica
Com Van Basten, além de manter a mobilidade, o ataque holandês ganhou em técnica

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