Pois é, tanta gente perguntou “por que vocês não demitem esse cara” que esse dia finalmente chegou. Brincadeiras à parte, hoje é mesmo meu último dia de Trivela. Eles não me demitiram mas aceitaram que eu fosse embora e deixasse tudo com eles.

O normal de uma despedida como essa é a gente começar pelo começo mas eu vou começar pelo fim, pelo orgulho, pela felicidade que eu tenho de entregar um trabalho de 15 anos nas mãos do Lobo, do Bonsa e do Stein. De fato, eles são os donos da Trivela há muito tempo, não porque eu “deixasse” eles mandarem em tudo mas porque eles conquistaram esse tudo. Na real, quem determina os rumos da Trivela há alguns anos são eles, eles são a Trivela. No papel, também serão eles a partir de hoje.

Voltando pro começo, então: quando eu cheguei aqui, em 2005, já não era tudo mato. Cassiano e Tomaz (com a ajuda do Martin no começo, mas ele eu nem conheci) tinham começado tudo em 98. Quando eu cheguei, apresentado a eles pelo Carlão, que então era o terceiro sócio do site, a Trivela já tinha alma e caráter. Eu trouxe muita coisa, tenho certeza disso, mas esse caráter, a principal força da Trivela até hoje, já estava aqui.

Outra grande alegria, além de passar o bastão para o trio que assume, é ter conseguido reencontrar o Cassiano depois de dez anos sem nos falarmos. Quando ele me perguntou porque eu tinha ido atrás dele depois de tanto tempo foi isso que eu disse pra ele: eu tenho muito orgulho de tudo o que eu fiz pela Trivela mas eu sei o quanto do caráter dele está impresso no que ela tem de bom, e eu sentia falta de poder dizer isso pra ele e pra quem mais quisesse ouvir.

Se eu quiser citar todo mundo eu vou esquecer alguém, certo? A lista é longa e prestigiosa mas eu não vou conseguir mencionar todos e não quero ser injusto.

Não tenho como não citar Bertozzi e Gustavo, que cada um do seu jeito pegaram o site em um patamar e entregaram para quem veio depois alguns patamares acima. São ídolos, queridos amigos, caras com quem aprendi demais sobre futebol.

Assim como o Luciano, nosso primeiro diretor de arte, o cara que deu a cara da revista Trivela, um amigo que fiz para a vida.

Revista Trivela de 2009 (Foto: Desformatados.com)

Não tenho como não citar a Mayra, com quem eu aprendi tanto sobre futebol, sobre jornalismo e sobre o meu machismo. Acho que ela não sabe o tamanho da admiração que eu tenho por tudo o que ela construiu, e talvez não tenha idéia da influência que isso teve sobre mim não só profissionalmente como pessoalmente.

Como a Mayra, a Bia também teve papel enorme nisso. Assim como a Mayra, nunca tentou impor o reconhecimento que merecia. Eu reconheço demais a importância de ambas para a Trivela e para a meu esforço em ser um homem menos pior

Um caso à parte, porém, é o do Ubiratan. A contribuição dele para a Trivela é incalculável. Nosso primeiro repórter contratado depois virou nosso editor, foi provavelmente, entre idas e vindas, o nosso editor mais duradouro e foi quem ajudou a solidificar nossa obsessão pela profundidade e pela seriedade.

Um dos seres humanos mais extraordinários que eu já conheci, um cérebro fora do normal acompanhado por um coração igualmente gigantesco. É um privilégio ter convivido com ele por tanto tempo, e poder continuar trocando experiências até hoje, ainda que ele penteie a couve quando monta o prato da feijoada – sim, ele monta o prato da feijoada.

Eu queria conseguir fazer uma retrospectiva desses 15 anos. De onde partimos, por onde passamos, onde chegamos. Do que acredito que adicionamos ao debate, do que deixamos como legado para quem nos acompanhou desde o começo.

De como quando a gente começou a falar de futebol europeu ainda predominava a tese de que o jogador brasileiro era especial, e de que por isso nosso futebol sempre seria especial. De como ainda predominava a teoria de que o futebol brasileiro era o único “bonito”. De como tinha ignorante falando besteira sobre futebol em geral, e europeu em especial, e se safando com isso.
De como machismo, homofobia e racismo não eram assuntos que a imprensa esportiva abordava.

Esse é outro dos maiores orgulhos que eu tenho em ter participado disso chamado Trivela. Futebol nunca foi só esporte, e mesmo que fosse a vida não é só futebol. Nós ajudamos a empurrar essas questões para o centro do debate mesmo quando isso rendia muito mais aporrinhação do que aplauso.

Quase nada do que nós fizemos fui eu que fiz, e eu não digo isso com falsa humildade. Alguns dos caras que construíram isso tudo fui eu que escolhi, outros eu quis demitir numerosas vezes e não me deixaram, e eles acabaram se provando tão bons quanto quem os segurou sempre disse que eram – ou mais.

Meu orgulho de ter construído isso é muito maior porque foi sempre uma construção coletiva. O mérito é apenas uma pequena parte meu, e isso também me dá indescritível alegria.

Por fim, termino onde comecei esse texto. Eu não vou nem começar a elogiar o trio Lobo, Bonsa e Stein. Eu não tenho palavras pra elogiar esses caras, não existem palavras, sem exagero. Tudo o que eu disse sobre todos os acima serve pra eles – com exceção da couve no prato de feijoada. Jornalistas espetaculares, seres humanos sem igual, de uma inteligência e preparo e determinação que só é igualada pela gentileza dos três, pelo absoluto altruísmo e preocupação com os outros antes de pensarem neles mesmos. Caras que merecem tudo o que a Trivela puder trazer de bom pra vida deles, e que isso seja muito.

A realidade é que eles não precisam de mim pra nada há muito tempo. Eles fizeram por merecer tomar todas as decisões sozinhos e receber os frutos dessas decisões.

Obrigado Cassiano, obrigado Carlão, obrigado Tomaz. Obrigado, Bira. Obrigado Lobo, Bonsa, Stein.

Obrigado Trivela. Foi lindo pra mim, foi lindo comigo, vai ser ainda mais lindo agora e sempre.

Nota dos editores: Caio é e sempre será um patrono da Trivela. É seguro dizer que a Trivela só existe até hoje por causa do Caio, porque ele segurou as pontas nos momentos mais difíceis e não deixou que o sonho morresse, mesmo que custando muito financeiramente e pessoalmente.

Cada um dos fundadores do site, lá no longínquo 1998, assim como Caio e todos que vieram depois, ajudaram a construir a história deste site, que se tornou muito mais do que isso ao longo do tempo – e que esperamos poder continuar fazendo mais e mais, para além dos limites do site, dentro das nossas poucas possibilidades.

Foi Caio quem viabilizou o projeto de tornar o site uma revista, em 2006, contra todos os obstáculos. Se durou até 2009, foi porque ele insistiu, mesmo com um mercado duro e cada vez mais caro. Foi também quem liderou a revista ESPN, que nasceu com muito do espírito Trivela e foi assim até o seu final. Se não foi possível que nenhuma das duas exista como impresso até hoje, é porque o mercado de conteúdo impresso é altamente deficitário, em geral.

A despedida é só uma formalidade, porque como já o avisamos, estará sempre convidado a continuar provocando debates e tem porta aberta sem precisar bater.

Caio pode não ser mais o editor executivo ou o diretor da Trivela, mas segue sendo uma pessoa que fez as estruturas dela estarem aqui, de pé até hoje, apesar de ameaças de desmonte, de rebaixamento, de fechar as portas. Ele nos provocou para sermos melhores e fazermos mais do que os outros já faziam. Tentamos manter essa mentalidade sempre. Obrigado, Caio, e volte sempre. A casa é sua.