por Tabata Viapiana

Uma história que começou a 50 anos. A Copa Libertadores da América ainda era novata, ainda nem tinha o nome pelo qual é conhecida, ainda era bastante amadora pelos padrões de hoje, ainda nem tinha representantes de todos os países da América do Sul, e ganhava um time brasileiro em sua lista de campeões. Foi quando o Santos bateu o Peñarol em três partidas para se tornar o primeiro brasileiro a conquistar a América.

O time era espetacular. Dos 11 titulares, sete eram bicampeões do mundo pela Seleção Brasileira. A equipe já havia conquistado o título nacional (Taça Brasil) em 1961, e por isso, se credenciou para disputar a terceira edição da Libertadores. O setor ofensivo do Peixe tinha que Pepe, Pelé e Coutinho. Ninguém podia negar que o time paulista entrava como um dos favoritos da competição.

Em 1962, nove equipes participaram da Libertadores – todos campeões de seus países no ano anterior (somente a Venezuela não teve um representante). A primeira fase era muito simples: três grupos com três times cada. Os clubes se enfrentavam duas vezes e o campeão de cada chave avançava para a semifinal. O Peñarol, por ser o campeão da edição anterior, tinha o privilégio de pular a fase de grupos e entrar automaticamente na semifinal.

Na primeira fase do torneio, o Santos foi arrasador. Foram três vitórias convincentes e somente um empate – com direito a goleadas por 6 a 1 em cima do Deportivo Municipal e 9 a 1 sobre o Cerro Porteño. Na semifinal, o adversário foi a Universidad Católica, do Chile, que por pouco não acabou com o sonho santista. No jogo de ida, empate em 1 a 1, em Santiago. Mas um gol de Zito, para um público de cerca de 15 mil pessoas na Vila Belmiro, credenciou o Peixe a disputar a final.

O maior desafio da equipe do técnico Lula viria justamente na grande decisão do torneio. A disputa era contra o Peñarol, uma das grandes forças da América do Sul, e campeão das duas edições anteriores da Libertadores. O regulamento era claro: em caso de vitória de um time na primeira partida e triunfo do outro no jogo de volta, um terceiro confronto decidiria o campeão.

E foi o que aconteceu. No primeiro encontro da história entre Santos e Peñarol, em 28 de julho de 1962, o Peixe venceu o clube uruguaio por 2 a 1, com dois gols de Coutinho, em pleno estádio Centenário de Montevidéu , com quase 55 mil torcedores do Peñarol presentes. Naquele momento, parecia que o título tinha destino certo e que o Santos de Pelé, Pepe e Coutinho conquistaria a América.

Mas não foi tão simples assim. O jogo de volta, dessa vez na Vila Belmiro, com público de 30 mil pessoas, foi marcado por polêmicas. Conhecida como a “Noite das Garrafadas”, a partida teve confusões entre jogadores, revolta da torcida do Peixe, gol e volta olímpica que não valeram e um confronto que durou apenas 51 minutos.

Por ter vencido o primeiro duelo, o Alvinegro precisava de apenas um empate para levantar a taça. O Peixe, no entanto, levou um balde de água logo aos 15 minutos, quando Spencer abriu o placar para o Peñarol (Spencer, aliás, é o recordista de gols em Libertadores – foram 54 em 11 edições que disputou). Empurrado pela torcida, o Santos foi em busca da virada e fechou o primeiro tempo vencendo por 2 a 1, com gols de Dorval (aos 18 minutos) e de Mengálvio (aos 35).

O roteiro estava traçado e tudo caminhava para a vitória alvinegra, se não fosse um gol de Spencer, ainda no início do segundo tempo. O gol de empate do Peñarol deu início à grande polêmica da noite. Após cobrança de escanteio de Joya, Spencer novamente balançou as redes do Peixe. Mas o goleiro Gilmar reclamou que o uruguaio Sasía jogou terra em seus olhos, o que acabou o prejudicando no lance. Pronto, foi o suficiente para a confusão ser armada na Vila Belmiro. Uma garrafa foi arremessada das arquibancadas do estádio e acertou o bandeirinha chileno Massaro – o auxiliar teve que receber atendimento médico, mas conseguiu voltar para o campo.

Após uma paralisação de mais de uma hora, a partida recomeçou com o placar de 2 a 2, suficiente para o título santista. A alegria do Peixe, no entanto, não durou muito. Aos 6 minutos da etapa final, Sasía marcou o terceiro gol do Peñarol. Novamente, confusão dentro de campo, dessa vez com reclamações dos jogadores brasileiros, alegando que houve falta em Calvet no lance do gol uruguaio.

A falta não foi marcada, o gol foi validado e o fato era que o Peñarol vencia o duelo por 3 a 2, resultado que levaria a decisão para o terceiro jogo. Mas o Santos não desistiu de lutar pelo empate. Aos 22 minutos, Pagão deixou tudo igual no placar: 3 a 3 e a torcida alvinegra explodiu de alegria nas arquibancadas da Vila Belmiro. Após o apito final, volta olímpica dos jogadores para comemorar o título inédito da Libertadores.

A festa foi imensa, mas de nada valeu. O árbitro da partida, o chileno Carlos Robles, já tinha encerrado o confronto antes do gol de empate do Santos. Na súmula do jogo, Robles escreveu que o duelo só durou 51 minutos e acabou quando o Peñarol ainda vencia por 3 a 2. O juiz alegou ter continuado a partida até o tempo regulamentar somente por medo de sofrer alguma represália da torcida do Peixe.

A Conmebol validou a súmula enviada por Carlos Robles e confirmou a vitória do Peñarol por 3 a 2 no segundo jogo da grande decisão. Com isso, uma terceira partida foi marcada para 30 de agosto, em estádio neutro. No Monumental de Núñez, em Buenos Aires, o Santos foi absoluto do início ao fim do confronto, e com gols de Coutinho e dois de Pelé, venceu com categoria o adversário uruguaio pelo placar de 3 a 0.

A história iniciada no dia 18 de fevereiro de 1962 teve seu final feliz quase seis meses depois. Aliviados, felizes e emocionados, enfim os torcedores santistas puderam extravasar e soltar o grito de campeão que estava entalado na garganta. Com justiça, a equipe do Rei Pelé conquistou a Libertadores da América daquele ano. Esse foi só o primeiro passo de um time que ainda seria bicampeão da Libertadores no ano seguinte e ganharia a Copa Intercontinental de 1962 e 1963 (equivalente ao Mundial de Clubes).

A campanha:

18/02 – Deportivo Municipal (BOL) 3×4 Santos
21/02 – Santos 6×1 Deportivo Municipal (BOL)
25/02 – Cerro Porteño (PAR) 1×1 Santos
28/02 – Santos 9×1 Cerro Porteño (PAR)
08/07 – Universidad Católia (CHI) 1×1 Santos
12/07 – Santos 1×0 Universidad Católica (CHI)
28/07 – Peñarol (URU) 1×2 Santos
02/08 – Santos 2×3 Peñarol (URU)
30/08 – Santos 3×0 Peñarol (URU)

Ficha Técnica da final

Santos 3×0 Peñarol
Local: Buenos Aires
Data: 30/08/1962

Santos: Gilmar; Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Peñarol: Maidana; Gonzales, Lescano e Cano; Caetano e Gonçalves; Rocha, Sasia, Matosa, Spencer e Joia. Árbitro: Leo Horn (Holanda)

Gols: Pelé (2) e Caetano (contra)