Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

O Pará abriga o clássico mais vezes realizado no mundo, mas nem por isso seu estadual recebe o devido acompanhamento da grande imprensa nacional. A partir de 29 de abril de 1979, porém, o Parazão mereceu mais páginas do que o normal no “diário oficial do futebol brasileiro”, como a Placar se denominava na época: o tricampeão mundial Dario, o Dadá Maravilha, era reforço do Paysandu e disputava seu primeiro Clássico-Rei da Amazônia. Gerou alvoroço não só na Curuzu, mas também no Estádio Baenão, ao estimular como nunca a briga pela artilharia, e no Mangueirão, rendendo o maior público do confronto logo naquela sua primeira apresentação. O veterano respirava uma rivalidade sadia com Bira, o goleador remista, que originou uma grande amizade e respingou até no título brasileiro invicto do Internacional naquele mesmo ano. História cheia de reviravoltas que merece ser recapitulada nesta segunda, quando se completam 40 anos do primeiro Re-Pa de Dadá.

Prólogo: a Era Quarentinha, a Era Alcino e a troca de um craque por um título

Quarenta era o número de inscrição de Luís Gonzaga Lebrego em seu colégio, surgindo daí o apelido de um atacante que brilhou dos anos 1920 aos 1940 no Paysandu. Quando pendurou as chuteiras, em 1945, Quarenta, que chegara a passar brevemente por Vasco e São Paulo, era o maior campeão (dez estaduais) e o maior artilheiro alviazul.

Em 1950, o Papão já contava com um de seus filhos no time adulto: Valdir Cardoso Lebrego, logo apelidado de Quarentinha. Desde a aposentadoria do pai, em 1945, o Papão só havia vencido mais um estadual, em 1947 (rendendo a maior série do clube no campeonato, um penta, pois não houve torneio em 1946). Quarentinha sozinho não solucionou o jejum, mas deixou seus gols e atraiu o Vitória, antes de virar o maior artilheiro do Botafogo e chegar à Seleção.

A seca bicolor acabou após nove anos, em 1956. O gol do título foi anotado por uma promessa promovida naquele ano: outro Quarentinha, codinome de Paulo Benedito dos Santos Braga, que só penduraria as chuteiras em 1973. Enquanto jogou, era mais conhecido sem o diminutivo, tendo ganho o apelido de Quarenta em jogos de rua onde emulava o Quarenta original, embora atuasse mais como armador do que como matador.

Esse segundo Quarentinha superaria o recorde do velho Quarenta: ganhou 12 vezes o estadual, um recorde nacional exclusivo dele no Século XX. Na “Era Quarentinha”, o Paysandu jamais ficou duas temporadas seguidas sem vencer o Parazão, isolou-se como maior campeão estadual e também como maior vencedor do Re-Pa – mesmo com o Remo contando desde 1970 com um gigante no ataque: o carioca Alcino, que deixava para trás o Madureira e um processo criminal contra si por tentativa de assalto.

O estadual de 1971 foi o último a ter participação ativa de Quarentinha, figurante em só três jogos na campanha campeã de 1972. O desfecho de 1971 foi histórico, com virada nunca vista antes ou depois nos Re-Pas, a despeito da vitória parcial ser relativamente magra: mesmo na Curuzu, o Remo abrira 2-0 e segurava a uma vitória por 2-1 até os dez minutos finais, quando sofreu o gol do empate, anotado por Bené (maior artilheiro do Papão, tendo superado Quarenta). Na prorrogação, veio a virada por 3-2.

Como o acerto pela prorrogação foi verbal, o Remo por anos questionou judicialmente esse título. Sem a concorrência de Quarentinha, a pendurar as chuteiras ainda antes do Estadual de 1973 (em grande sinal de respeito, foi prestigiado pelos rivais: o Remo forneceu o Baenão e a Tuna se dispôs a ser o adversário no amistoso festivo), Alcino e o Remo emendaram um tricampeonato seguido. O Leão não vencia duas vezes seguidas o Parazão desde seu próprio tri de 1950 a 1952. Isso e um tabu de 23 jogos no período alçaram Alcino ao posto geralmente aceito de maior ídolo remista. Também se tornou, na época, o maior artilheiro azulino, outra fonte para a sua idolatria – assim como seu carisma.

Em 1976, foi a vez do Paysandu aproveitar a ausência de um carrasco: Alcino reforçara um Grêmio sedento para impedir o octacampeonato gaúcho do Internacional (que acabaria ocorrendo). Sem a concorrência com o “Negão Motora”, o clube encerrou seu jejum no clássico e no Estadual, onde sua grande referência ofensiva era um paulistano que atendia por Roberto Bacuri. Uma outra opção de ataque, como 12º jogador, foi o amapaense Ubiratã Silva do Espírito Santo, o Bira.

Bira interessou ao Remo e o Paysandu concordou em troca do reconhecimento formal dos azulinos em relação àquela conquista bicolor de 1971. Quem seguiria na Curuzu seria o irmão do atacante, o lateral Aldo – depois destaque no Fluminense nos anos 80, chegando a ser cogitado para a Copa de 1986. Assim, um jogador foi a princípio trocado por um campeonato. Investimento esdrúxulo que deu retorno: como remista, Bira embalou, liderando o ataque do Leão no bicampeonato de 1977 e 1978. E um novo tri para o Baenão estava à vista em 1979: embora o Paysandu chegasse a ganhar até de 8-1 (do Liberato de Castro), caiu por 1-0 no clássico que encerrou o primeiro turno de novo Estadual. Gol de Bira…

Bira e Dario: protagonistas da luta recordista pela artilharia e amigos. Destaque também à mão quebrada de Dadá.

O ano de 1979 também encerrou a mais contínua série de Re-Pas travados na primeira divisão, em dérbis anuais travados na elite entre 1973 e 1978. Mas se nenhum desses clássicos rendia notas à parte na Placar, foi exatamente para o Estadual de 1979 que a rivalidade mereceria maior divulgação na revista. Em abril, enquanto os jornais já repercutiam a possibilidade de eleições diretas, a cerimônia do Oscar e o enforcamento de Ali Bhuttto (pai da mártir paquistanesa Benazir Bhutto), o Paysandu reagia à perda do turno negociando com um tricampeão mundial.

A chegada sinuosa de Dario

O Re-Pa que encerrou o primeiro turno ocorreu no dia 8 de abril e já no dia seguinte o rumor por Dadá Maravilha começou a circular, rendendo idas e vindas: no dia 11, a manchete de capa de A Província, em tempos menos comuns da primeira página repercutir o esporte, era “Contratação de Dario não foi concretizada”. Disputado com o Coritiba, o atacante pertencia à Ponte Preta, embora estivesse em outro ciclo no Atlético Mineiro, sob empréstimo. Os campineiros concordavam em redirecionar o empréstimo aos paraenses mediante 800 mil cruzeiros, mas toparam uma proposta pela metade. Escurinho também teria sido sondado.

No dia 12, uma chamada de capa mais discreta, ofuscada pela caça ugandense ao ditador deposto Idi Amin Dada e aos debates pela anistia no Brasil, já tinha outro tom: “Paissandu [sic] vai trazer Dario para fazer gols. A contratação (…) está praticamente concretizada (…). Ontem, o jogador deu uma entrevista nesse sentido, dizendo que preferiu Belém a Curitiba por causa do clima. (…) Receberá Cr$ 55 mil mensais”.

O tom foi repetido no dia 13, como chamada principal: “Os gols de Dario já estão chegando”, estampava a manchete cujo corpo mencionava declarações do craque: “Minha esposa, que é minha conselheira e decide muita coisa, quer que eu vá para Belém, pois é um centro parecido com Recife, onde o calor humano é maior, e de onde ela guarda saudades”, explicava, em referência à passagem pelo Sport (onde ajudou os rubro-negros a encerrar em 1975 um jejum estadual de treze anos, inimaginável atualmente – com direito a um recorde nacional ao marcar dez gols em um 14-0 sobre o Santo Amaro) e ao fato de sua mulher, Cleice Santos, ser também sua empresária; saía do Atlético pois o Galo “passa por uma situação financeira difícil. (…) Não há dinheiro para minha permanência em Belo Horizonte”.

O atacante também já exibia sua folclórica autopromoção: “que me desculpe o Bira, mas não gosto de ser segundo em campeonatos em que disputo. Ele é muito novo, tem um futuro promissor pela frente e vai se acostumar a ser segundo. Será o vice-artilheiro do campeonato. (…) Onde passo, sou artilheiro e campeão. A torcida que me aguarde, pois o Dadá é assim mesmo. Com Dadá em campo, não tem placar em branco”. Também prometia o “gol Belém” para sua estreia.

Imagem retirada da revista Placar de 11 de maio de 1979

O único ser a parar no ar como helicóptero e beija-flor chegava na época em que os cinemas, ainda exibindo o primeiro Superman de Christopher Reeve, anunciavam o slogan “Você vai acreditar que o homem pode voar”. A edição do dia 13 já continha inclusive a resposta de Bira: “Desde que estou no Remo, sempre fiz mais gols que Dario, no Atlético. Nas duas Copas Brasil [nome do Brasileirão na época], fiquei entre os melhores artilheiros e o Dario, bem longe disso. Até mesmo em termos de certame estadual, ele nunca me superou. Por isso, não vejo motivos para me preocupar. Ele pode ser bom fora de Belém, mas, aqui, o artilheiro sou eu. Não há dúvidas que se trata de um bom jogador. E quanto mais ansioso de gols ele vier, melhor para mim, pois a luta pela artilharia será mais interessante. Só que no final, tenho certeza que vai dar Bira na cabeça”.

Mas ainda havia suspense pela chegada de Dadá. No dia 17, A Província publicou duas notas lado a lado, uma delas chamada “Bira: os gols mais baratos do Brasil”, dando como certa que a estadia do atacante azulino estava no fim ante o interesse crescente de clubes de fora do Estado (incluindo o Grêmio) em contraste com um salário de “apenas 13 mil mensais para tantos gols”; a outra era “Stephen [Houart, diretor de futebol bicolor] desilude a fiel: Dario é difícil”, informando que por mais que o jogador estivesse apalavrado, a Ponte Preta ainda não havia fechado o negócio e recebera oferta mais vantajosa do Vila Nova goiano: “Ainda não fechamos o negócio, pois tem muitas variantes no caso, podendo ser até que deixemos Dario por Escurinho, Alcino ou mesmo Revetria”.

Outro dia depois, enfim, a confirmação: “Dario chega hoje e pode jogar sábado – deixando para anunciar somente quando já estava tudo certo, os dirigentes Hernan Souza Filho e Gervásio Brito contrataram, ontem, o jogador Dario, junto à Ponte Preta”. Parte do dinheiro seria pago a partir da renda de um amistoso entre os dois clubes agendado para o feriado de 1º de maio. Enquanto o Remo abria o segundo turno vencendo por 3-1 o Sport Belém, no único jogo da data, Dario era recepcionado no aeroporto por cerca de 3 mil torcedores. Essa chegada apoteótica já repercutia na Placar, onde, em referência a ofertas de outros clubes, Dario dizia que “eu já estava acertado com o Paysandu, e palavra de rei não volta atrás”.

O próprio Remo também tratou de receber Dadá, convidado junto com o técnico bicolor Paulo Emílio para assistir na tribuna de honra a partida do Leão contra o Tiradantes. Em referência a isso, Bira prometia “o gol Dario na galera”. Também admitia à Província que “a gente vira artilheiro e às vezes se acomoda. Aí aparece o Dario que fez eu despertar, pois o time está com toda a carga e vamos fazer gols para deixar qualquer Dario com inveja. Por isso, só tenho é que agradecer a contratação”.

A expectativa pela presença de Dario na Curuzu foi suficiente para uma renda de 10 mil cruzeiros para um simples treino, onde ele sequer compareceu, rendendo a manchete do dia 21 de A Província. Já o destaque do dia 22 no jornal era uma entrevista com o astro, que, indagado sobre a promessa do zagueiro rival Dutra em vestir uma saia se sofresse um gol do veterano, replicou: “Vou pedir ao Dutra que deixe eu escolher o pano para fazer a saia. Porque com o Dadá não se brinca. Nunca ninguém brincou. Ninguém nunca teve essa coragem. Eu, inclusive, quero parabenizar o Dutra, que mostra que é um rapaz otimista. Só que ele é otimista e eu sou positivista. Logo, tô acima dele…”. Dutra, ainda nos tempos de Vasco, havia defendido a seleção olímpica nos Jogos de 1968.

Ainda sem Dario, não regularizado perante a Federação Paraense, o Paysandu suou para vencer por 2-0 o Liberato de Castro em 21 de abril, em seu primeiro jogo pelo segundo turno. O Remo, por sua vez, bateu a Tuna no W.O.

Dario em sua estreia, contra o Sport Belém, no dia 26; e sem conseguir comemorar o gol no Re-Pa do dia 29 de abril: fisgou a coxa no lance

Em 23 de abril, o Paysandu deveria jogar com o Sport Belém, mas a rodada foi desmembrada e as duas equipes acertaram um encontro amistoso para o dia 26 – marcando assim a estreia de Dadá, autor de dois gols em vitória de 4-1: com o jogo ainda em 1-0 e com o adversário perto do empate, Dario arrancou para apanhar um cruzamento de Carlinhos, “tirou os zagueiros Edgar e Zeca com o corpo, invadiu a área e na saída de Ribamar, que se atirou nos seus pés”, driblou o goleiro e colocou calmamente a bola no gol aos 25 minutos. O Sport diminuiu aos 6 do segundo tempo e voltou a lutar pelo empate, mas sofreu o terceiro aos 21. Aos 26, Dario então anotou o segundo, em cabeceio que fez a bola quicar antes de entrar. Segundo a Placar, que saiu já em 4 de maio, os dois lances fizeram o “gol Belém” virar o “bigol Belelém”.

Quando essa Placar saiu, já havia ocorrido o Re-Pa histórico de 29 de abril. Ele foi mais aprofundado na edição posterior, em nota que havia reunido os dois rivais da artilharia para um passeio na Praça de República e na casa do próprio Dario, que censurara a esposa por ela oferecer uma cerveja ao rival: “Que isso, mulher? Quer que digam que Dario está desencaminhando o garoto Bira?”. O azulino mantinha o tom amistoso de outras entrevistas: “Você chegou em boa hora. Agora, haverá mais motivação”, embora repreendesse o veterano: “Dario, que história é essa de gol ‘Sossega Leão’? Amanhã, depois de marcar um gol, vou lhe fazer uma surpresa”, declaração que fez o bar virar “um pandemônio”.

Em A Província, a edição do dia 30 de abril destacava o primeiro título estadual invicto no Carioca pós-Maracanã, do Flamengo. Mas, sobretudo, o grande Re-Pa da véspera, capaz de colocar 64 mil pessoas em um Mangueirão ainda em ferradura – recorde de público na Região Norte do país só superado pelo Re-Pa que decidiu o Estadual de 1999. O placar foi aberto aos 3 minutos, com Bira escorando de cabeça um cruzamento de Bebeto – para então sair em disparada para cumprir a “surpresa” prometida a Dario: abraça-lo. Os outros azulinos logo se juntaram ao abraço no tricampeão, que admitira naquela nota da Placar que “eu podia esperar tudo, menos aquele abraço”. É a imagem que abre a matéria.

Bira receberia inclusive um prêmio de 5 mil cruzeiros da Caixa Econômica Federal por ter anotado o gol mais rápido daquele domingo no país. Bem marcado por Dutra e Marajó a ainda sem condições ideais de jogo, Dario pouco apareceu no primeiro tempo e apenas a partir dos 30 minutos o Paysandu iniciou um pique pelo empate, segundo a avaliação de A Província. Porém, aos 42 minutos, o Remo balançou novamente as redes, com Bebeto – mas o bandeira Hamilton Batista terminou anulando o lance, enxergando impedimento. Revoltado, o remista Aderson (que passaria pelo Flamengo) acabou expulso por reclamação.

Mesmo jogando contra dez, a reação bicolor tardou até os 29 minutos do segundo tempo. Foi quando o ponteiro Lupercínio (que defenderia o Botafogo) recebeu na esquerda, deu três dribles seguidos em Mareco e cruzou à meia-altura. Na confusão, Dario se esticou para aproveitar a sobra e marcar o “gol Sossega Leão”, embora se contundisse no lance, fisgando a coxa. Depois, só houve mais um lance de perigo, desperdiçado por Bira no finzinho, em chute fraco e prensado pelo marcador Lineu, servindo de recuo ao goleiro Reginaldo. O resultado salomônico não agradou ninguém: os remistas se ressentiam pelo gol anulado, e os bicolores, por não quebrarem um tabu de quase dois anos sem vencê-los, mesmo com o reforço – essa faceta, porém, logo seria revertida, contundentemente.

“Gol não chores mais” e “gol Pestalozzi”: sempre folclórico, Dario dava nomes aos gols antes de cada jogo

A briga intensa pela artilharia

Dois dias depois do Re-Pa, o Paysandu voltou a campo para o amistoso contra a Ponte Preta em 1º de maio; Carlos, Oscar, Dicá e Wanderley, servindo a seleção paulista do interior contra a da capital para outro amistoso do feriado, não vieram. A decepção no clássico colocava pressão naquele simples encontro. Dario manteve o hábito de batizar previamente cada gol e então anotou o “gol não chores mais”, abrindo aos 25 minutos uma goleada de 4-1 (e cavando pênalti para o segundo) que, apesar dos desfalques campineiros, surpreendeu – em grande fase, a Macaca, que decidiria seu Estadual, estava invicta há 18 jogos, como salientou A Província, que não teve dúvidas em dividir a manchete de capa entre esse jogo e o afogamento fatal do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Nos dias seguintes, enquanto A Província repercutia também a eleição de Margaret Thatcher, reconhecia que aquela goleada amistosa arejou a Curuzu, enquanto Dario aparecia como a atração beneficente na Fundação Pestalozzi – mas noticiava o entrave de que o pagamento à Ponte não fora realizado no prazo. A pendência logo foi acertada, mas Dario não atuou bem no compromisso seguinte, novamente pelo Estadual; a vitória de 1-0 sobre o Tiradentes, no dia 5, veio com sufoco, já aos 31 minutos do segundo tempo, em cabeceio de Hélido. O Remo, em contraste, bateu por 5-1 o Liberato, com Bira marcando duas vezes.

Dario, reconhecendo estar aquém do esperado, porém, prometia o “gol Pestalozzi” para o jogo seguinte – o compromisso contra o Sport Belém que havia sido adiado de 23 de abril, realizado em 9 de maio. No primeiro minuto e meio de jogo, o adversário abriu 1-0 e os bicolores, nervosos, chegaram a perder dois pênaltis, desferidos por Carlinhos. Mas Dadá cumpriu duas vezes o prometido, anotando dois “gols Pestalozzi” para consumar a virada por 2-1.

O Remo, com gol de Bira, bateu por 4-0 o Tiradentes e encerrou sua participação no segundo turno, com vitórias em todos os jogos, ficando no aguardo do clássico entre Paysandu e Tuna: o Papão precisava vencer para forçar um jogo-desempate. Dario, dessa vez, preferiu não nomear nenhum gol, alegando respeito ao goleiro cruzmaltino. Afinal, era o Bola de Prata da Placar no Brasileirão de 1977, Edson Cimento – que não era a única andorinha tunante: a Águia chegara a ganhar de 7-0 do Liberato naquele turno. Dadá superou Edson para abrir de cabeça o placar aos 23 minutos do segundo tempo. Porém, em falha da defesa alviazul, Jorginho empatou aos 35, aproveitando sobra de uma falta; houve ainda gols anulados aos dois lados.

O Remo, fora de campo, era campeão do segundo turno, para a fúria da torcida bicolor, que chegou a apedrejar o ônibus do time e enxergou inclusive boicote a Dario partindo dos próprios colegas – algo rechaçado pelo técnico Paulo Emílio, que dizia apenas que muitos ali apenas não estavam acostumados a jogar com o astro e/ou apenas enfrentavam má fase. Mas eram tempos em que os Estaduais costumavam ter pelo menos três turnos ou mais. E Dadá começava a engrenar enquanto os cinemas começavam a exibir O Franco-Atirador. Na abertura do terceiro turno, deixou o seu em goleada de 5-1 sobre o Tiradentes, indo à forra pelo encontro anterior: “A perna do Dadá não é bigorna para ficar levando pauladas”, reclamara sobre aquele 1-0 em que não jogara bem no segundo turno. Pela frente, um novo Re-Pa.

Dario em outro clássico, contra a Tuna, pela rodada final do segundo turno. À esquerda, duela com o goleiro Edson Cimento, Bola de Prata da Placar

A confiança bicolor em quebrar o incômodo tabu era destacada nos jornais, com Dario inclusive anunciando “o ‘gol convexo’, que é uma jogada em diagonal da esquerda para a direita”. Bira, por sua vez, era reportado como fechado com o Santos para depois do Estadual e retrucava que contra o tal “gol convexo” marcaria duas vezes – recebendo então a réplica: “Bira pode fazer dois, é ótimo artilheiro, mas eu faço um, o Bacuri outro e o Patrulha [Patrulheiro] completa. Fica 3-2 no placar”. A Província apontava ainda que àquela altura o Remo, apesar do tabu de onze jogos, tinha somente uma vitória a mais na rivalidade. Conta igualada em 27 de maio, com o 2-1 bicolor, a encerrar uma invencibilidade geral remista de 40 jogos.

Bira e Dario marcaram um gol cada naquele dia, a despeito de performances díspares: o azulino “criou o suficiente para marcar um gol e deixar outros tantos na iminência de serem convertidos”, enquanto o bicolor “não fez uma grande atuação. Foi severamente marcado por Dutra e em dados momentos não levou muito a sério o adversário. Na segunda fase, teve muitas chances e desperdiçou-as. Mas o gol Convexo foi o suficiente”, na apuração de A Província. O placar foi todo construído nos quinze minutos finais do primeiro tempo: o Paysandu era superior, mas Bira subiu mais alto para cabecear no canto direito de Reginaldo um cruzamento de Paulinho.

Sem se intimidar, o Papão igualou já aos 32. Lupercínio cobrou escanteio e Lineu recebeu bem colocado, puxando a bola para esquerda, evitando um zagueiro e tocando rasteiro na saída do goleiro Pedrinho – descrito como a melhor figura remista no jogo. No fim, Lupercínio cruzou após aplicar dois dribles em Marinho. Patrulheiro desviou, atraindo o goleiro Pedrinho para a disputa. A bola sobrou livre para Dario entrar com ela e tudo no gol e virar. No segundo tempo, o Paysandu soube segurar o resultado mesmo com um a menos: em curioso embate de irmãos, Aldo foi expulso ao acertar Bira ao buscar atrasar a cobrança de uma falta.

Enquanto um negro assumia pela primeira vez a presidência da Rodésia (não ainda Robert Mugabe, e sim Abel Muzarewa), o Remo se reabilitava, ganhando de 4-1 do Sport Belém, três gols de Bira – dois deles, em cobranças de falta. O Paysandu, por sua vez, tinha de encerrar outro tabu em clássicos: ainda não havia vencido a Tuna naquele Estadual, e para o dérbi no terceiro turno Dario prometeu o “gol apoteose”. Uma vitória dava o título do turno ao Papão, em encontro que seria apitado por um filho de paraenses: Arnaldo Cézar Coelho. Enquanto Renato Sá encerrava a famosa invencibilidade flamenguista de 52 jogos, Dadá cumpria sua promessa, mas não bastou.

Em duelo com duas viradas, Gabriel pôs os tunantes à frente aos 13 minutos, com Dario cavando aos 19 um pênalti, derrubado após driblar o goleiro Sabá. Bacuri converteu e aos 44 minutos Dadá marcou o seu “gol Apoteose”, em chute com categoria certeira para completar um longo lançamento de Marcos; mas no segundo tempo Adilton (aos 13) e Quaresma (aos 24) decretaram a virada lusa, embolando o turno: ambos estavam com quatro pontos, ao lado de Remo e Sport Belém. Ainda assim, Dario era bem humorado à Província: “Eu prometi que o gol seria bonito, magnífico, belo mesmo. A bola fez aquela curva. Quer dizer, foi mais ‘convexo’ do que ‘apoteose’. Mas não importa: a ordem dos fatores não altera o produto. Gol é gol”.

Dario e seu “gol convexo” para encerrar cerca de dois anos sem vitórias bicolores no Re-Pa

O Paysandu reabilitou-se com um 3-0 diante do Liberato, com Dario anotando o terceiro enquanto o Remo folgava. No dia 10 de junho, enquanto João Paulo II encerrava sua primeira visita como Papa à Polônia, as duas torcidas tiveram catarse em uma rodada dupla no Mangueirão: o Papão, que perderia as chances de título se empatasse, aplicou 5-0 no Sport Belém (com dois de Dario) e o Leão fez ainda mais – 8-0 no Liberato, em placar inaugurado com um minuto e meio e ampliado com quatro. Aos 16, Bira marcou pela primeira vez, repetindo aos 19. O primeiro tempo acabou em 5-0 e no segundo Bira fez os outros três; o mais bonito foi o sétimo, gol direito a chapéu no goleiro Miguel.

Folgando na rodada final, restava ao Paysandu (que aproveitou a brecha para capitalizar em cima de Dario em dois amistosos no Amapá; Dadá acumularia três gols na excursão, mas nela fraturaria uma mão) torcer pelo empate entre Remo e Tuna para vencer o turno – ou pegaria em jogo-extra o vencedor do clássico. Enquanto o caos sandinista para derrubar a ditadura dos Somoza na Nicarágua (repercutindo nos esportes, com o país se ausentando dali a algumas semanas dos Jogos Pan-Americanos), o falecimento de John Wayne e sessões de O Expresso da Meia-Noite preenchiam algumas páginas de A Província, Bira engordou seus números. Anotou de pênalti o segundo no 3-0 contra os cruzmaltinos.

Estava forçado um Re-Pa extra pelo terceiro turno e era Bira (agora noticiado como possível reforço do Flamengo caso os cariocas se desfizessem de Cláudio Adão) quem tomava a iniciativa em nomear gols, prometendo o “gol retorno” – “Estou esperando o Paysandu, como quem espera Cristo, para ganhar o terceiro turno e iniciar um novo tabu”, vociferava. Já Dario, mesmo com a mão engessada, se dispôs a jogar para marcar o “gol asilo”, dedicado aos idosos “do Asilo Dom Macedo Costa”. Ambos marcaram os gols prometidos, mas Dadá sorriu mais: repetiu-se o 2-1, com Bacuri aproveitando livre um rebote de Pedrinho para abrir o placar perto do fim do primeiro tempo. Aos 7, um cabeceio de Bira em cruzamento de Luís Augusto empatou.

O Leão, porém, não se oxigenou e o Papão explorou bem seus ponteiros. Um deles, o driblador Patrulheiro, serviu então Dario pela esquerda. O veterano tocou na saída de Pedrinho para dar números finais e o terceiro turno aos alviazuis, em 20 de junho. O quarto turno do Parazão de 1979, por sua vez, seria espaçado, ao atravessar o mês de férias em julho – enquanto que em paralelo o Paulistão começava a encerrar a sua edição válida ainda por 1978 (!). Mesmo sem jogar vistosamente, o Paysandu abriu o quarto turno batendo por 3-0 o Sport Belém – Dario deixou o dele, o segundo do jogo. O Remo, por sua vez, também arrancou uma vitória vista como pouca convincente, um 2-0 sobre o Tiradentes. Bira fez o primeiro enquanto João Figueiredo assinava a Lei da Anistia.

A seguir, o Paysandu teve nova oportunidade para encerrar seu jejum contra a Tuna, ocasião para a qual o espirituoso Dario, àquela altura com 17 gols em 14 jogos, prometeu o “gol topázio”, pois “o topázio é assim como o Dadá: brilhante”. A promessa não foi cumprida, com Dadá atuando de modo mais recuado, mas o Papão desengasgou, com um 4-1, gols distribuídos entre Carlinhos e Aldo (cada um marcando dois). Dario também passou em branco no jogo seguinte, mas os alviazuis souberam bater por 2-0 o Liberato em 4 de julho, ganhando então folga de três semanas no Estadual.

Enquanto o Paysandu voltava a capitalizar com Dario, agora em excursão pelo Maranhão, depois pelo Amazonas em prol de um embate entre Dadá e Jairzinho (na época, jogador do Fast) e por fim pelo interior paraense adentro (incluindo a inauguração do estádio da cidade de Breves), o Remo vencia por 5-0 o Liberato e por 3-0 o clássico com a Tuna. Bira, que prometera quatro gols no Liberato, passou em branco, mas compensou no dérbi, anotando dois em um triunfo sem esforço – os dois últimos, primeiramente driblando uma saída afobada de Edson Cimento aos 37 do primeiro tempo e depois aproveitando cruzamento de Marinho para ganhar a corrida e tocar para o canto esquerdo de Edson.

Cenas do emocionante terceiro turno: rodada dupla de goleadas da dupla Re-Pa, que precisou de um clássico extra para definir o título em favor do Papão

Por trás dos gols do artilheiro remista, confusão, pois Bira não tinha seu contrato renovado e falava publicamente que poderia deixar o Leão com o Estadual em andamento; após a vitória sobre a Tuna, foi a vez dos azulinos folgarem entre 18 de julho e 5 de agosto para uma excursão por Rondônia e Acre. Em 25 de julho, o Papão voltou ao Estadual em forma: sapecou um 8-1 no Tiradentes, mesmo com Dario continuando em branco. Ainda houve tempo para uma rápida excursão bicolor ao Amapá antes do Re-Pa finalizar o quarto turno em 5 de agosto. Na semana de tensão, chamou a atenção o desânimo de Bira, cujo negócio com o Flamengo, especulado como certo, foi desmentido.

Já Dario prometia encerrar seu jejum com “o gol ascórbico”, pois “será um gol vitaminado, de entusiasmo, de esperança à prova de tabus”. E foi feliz: Lupercínio abriu o placar aos 33 minutos do primeiro tempo, driblando duas vezes Dutra antes de mandar de curva para as redes. Dadá, que havia perdido boas oportunidades, pôde cumprir a promessa duas vezes na segunda, com dois golaços: aos 29, encobriu o goleiro Dico, e aos 41 concluiu após driblar quase toda a defesa adversária. O veterano inclusive tivera um pênalti não marcado sobre si ainda aos 14 minutos do segundo tempo. Bira, por sua vez, foi mesmo apático, segundo avaliações de A Província.

O Remo venceu os dois primeiros turnos, enquanto o Paysandu venceu os dois outros. Estava forçada uma finalíssima? Não. Os turnos serviam apenas como classificatórios a um quadrangular final, com cada vencedor começando com pontos extras para cada turno vencido. Assim, a dupla Re-Pa começaria à frente de Tuna e Sport Belém, os outros dois classificados. Frio, o zagueiro azulino Dutra era confiante: “Papão mereceu, mas seremos tri”. Por outro lado, Dario revelava uma tranquilidade ao menos financeira, assumindo que a amizade com Bira chegava ao nível de até dividirem os bichos que cada um ganhava. A declaração repercutiu também na Placar.

O Paysandu abriu o quadrangular com Dario anotando os dois gols de vitória apática por 2-0 sobre o Sport Belém, ambos no primeiro tempo – chutando certo a partir de lançamento preciso de Carlinhos para abrir o placar aos 21 minutos e fechando-o aos 36 com um cabeceio forte em belo cruzamento de Marcos. Cheio de pose, Dario, referindo-se na terceira pessoa, dizia que “Dadá é a 8ª maravilha do mundo”, em nota do dia 12 de agosto de A Província: “Dadá é uma dádiva de Deus. Não foi Dario José dos Santos que quis vir a Belém. Foi o Divino Mestre que mandou Dadá. (…). O azulino, por mais que sofra, gosta do Dadá. Ele sofre apenas porque lamenta não ter o Dadá ao seu lado, mas fica feliz em saber que sua presença em campo está assegurada. Isto porque ele sabe que com Dadá em campo, o clássico tem mais vida. Por isso, o remista gosta do Dadá. Todo mundo gosta do Dadá. Aliás, o Dadá só tem amigos (…). Por onde passo, sou investimento. A cota com Dario é uma, sem Dadá é outra. No Amapá, os promotores da excursão imploraram para que pelo menos eu pusesse os pés em campo, apesar da diarreia…”.

O Remo, por sua vez, começou o turno já no clássico com a Tuna Luso, que precisava da vitória para sonhar em tirar a diferença de dois pontos para a beneficiada dupla Re-Pa. Em um clássico duro, Bira voltou a ter estrela: aproveitou cruzamento de Mesquita para marcar o único gol do jogo já aos 43 do segundo tempo, precisamente em uma das únicas vezes em que teria aparecido no jogo, segundo a rigorosa avaliação de A Província; a outra foi justamente em outro gol, anulado. A vitória devolveu a confiança aos azulinos. Já Dario era só humor, prometendo o “gol Cachaça” para amistoso em Abaetetuba em meio à folga de dez dias do clube no Estadual (não marcou, mas o Papão venceu por 2-0).

Na rodada final do quarto turno, Dario marcou duas vezes

Alien – o 8º Passageiro chegava aos cinemas, mas o que mais repercutia em A Província era uma festança de Dario em Castanhal a embriagar os remistas Bira, Paulinho, Marajó e Lúcio Santos, repreendidos pelo xerife Dutra na reapresentação. Bira marcou aos 13 e aos 17 minutos contra o Sport Belém no compromisso seguinte, mas o elenco treinado por Paulo Amaral não escapou de vaias em um jogo apático, segundo reportou o jornal. Dario, por sua vez, falava em retribuir a disciplinada zaga tunante com o “gol Gentileza” para o clássico com os cruzmaltinos. Não caiu bem: o adversário, mordido, cometeu três pênaltis, embora só um tenha sido assinalado, já aos 30 minutos do segundo tempo.

Bacuri converteu o pênalti para dar a vitória mínima em um clássico sufocante, já em 19 de agosto. Dadá, embora tenha disparado três cabeceios perigosos e um bom chute, saiu de campo lesionado. Restava o Re-Pa do dia 26 de agosto, com a dupla igualada na liderança do quadrangular. Tamanha tensão fez Dario inclusive denunciar uma tentativa de atropelamento, conseguindo desviar sua moto de um carro que avançara em sua direção. Não que perdesse o humor: “Só volto a andar de moto, segunda-feira [após a final], pois se me atropelarem, já morro campeão”, prometendo jogar “até de muletas”. Mas seu possível desfalque também repercutiu na Placar que saiu na antevéspera daquela decisão.

Na véspera, Dario continuava confiante a ponto de prometer “o gol Feio”, explicando o nome: “Um clássico decisivo é cheio de beleza. Todos querem ver coisas bonitas, gols maravilhosos, jogadas estupendas. No fim das contas, o feio fica esquecido. Coitado. Ninguém gosta do feio. O feio é odiado, massacrado e esquecido. Que culpa tem o pobre? Mas o Dadá, que sempre nota os esquecidos, lembrou do feio. Agora, o gol será feio devido às circunstâncias, pode até ser de canela. E certamente depois ele vai se tornar bonito com os aplausos da galera. O feio merece um momento de beleza. E quem vai fazer isso é o Dadá”.

Apitada por Arnaldo Cézar Coelho, a grande final não repercutiu tanto na Placar, mas não por falta de interesse da revista e sim por contratempos logísticos contra o correspondente Júlio Lynch: “Um engarrafamento monstro domina a rodovia Augusto Montenegro. A torcida do Remo está descendo em direção à sede, na Avenida Nazaré, em autêntico carnaval. No caminho, outros saem de suas casas e engrossam a festa. Desculpe o atraso no envio da matéria”, iniciava a nota, transcrevendo o telex enviado pelo jornalista. A Província, por sua vez, publicou na edição do dia 27 um reconhecimento do técnico Paulo Emílio de que o excesso de otimismo bicolor pela embalo recente teria sido “o começo do fim”.

E como foi, afinal, o jogo? O primeiro tempo foi equilibrado, com chances lá e cá, em especial em defesa aos 22 minutos do goleiro remista Dico – descrita como “sensacional”, em chute à queima roupa de Evandro, desviado para escanteio. Aos 26, Bira respondeu desferindo um petardo em bola que passou à esquerda da trave e aos 39 foi a vez do azulino Mesquita quase marcar de bicicleta, defendida por Carlos Afonso. O Remo estava melhor, mas aos 3 minutos os bicolores engataram um contra-ataque fulminante. Evandro passou por Bira e cruzou, com Dico defendendo parcialmente, sem impedir que Lupercínio aproveitasse livre o rebote. Após alguns minutos de afobação e pressão, o gol do empate sai aos 20: o zagueiro China chutou, a bola desviou na zaga e sobrou para Luís Augusto pôr no fundo das redes.

O empate esfriou o jogo por dez minutos sem maiores chances, quando então a vitória é decretada: aos 31, Mesquita lançou Bira em profundidade, driblando Carlos Afonso para marcar o gol do título – o “gol Belo”, conforme ele nomeou na festa, em sarro ao “gol Feio” prometido por Dadá e não cumprido; o veterano jogou mal, embora A Província reconhecesse que a violência foi bastante empregada para para-lo, e a reação bicolor nos quinze minutos finais foi mais na base do desespero do que da precisão. Dutra, seu marcador, enaltecia ao jornal: “Vencemos o jogo na garra”, enquanto Dadá, dizendo-se “caçado como um leopardo”, retrucava: “Dutra merece 15 anos de cadeia”. A Placar também repercutiu as reclamações do astro: “Pisaram na minha mão quebrada e bateram firme na minha bicheira. Se eu não sou de circo, acabo mal”.

O gol do título, de Bira, que já driblou Carlos Afonso: em um Estadual de reviravoltas, um Re-Pa vencido de virada

Epílogo: Bira, com a bênção de Dario, no único campeão invicto do Brasileirão

Ao todo, Dario marcou 26 gols em dezessete jogos no Estadual. Números que lhe fariam artilheiro em qualquer outra edição, menos naquela: Bira, estimulado pelo concorrente, somou 32, recorde absoluto em toda a história do Parazão. A concorrência foi mesmo feroz: Bira marcou os mesmos 26 gols de Dario a partir do momento em que o amigo ingressou na disputa, que já estava em andamento. Amigo, mesmo: jantavam juntos todas as segundas-feiras após os jogos de domingo e Dadá alertava o jovem, segundo outras matérias da Placar: “Centroavante como você nunca fica desempregado, mas tome cuidado com os cartolas e falsos amigos”.

Caro demais para continuar no Pará, Dario foi jogar no Náutico. Bira também não continuou, por uma ajuda de Dadá. Clube em que Dario foi campeão brasileiro em 1976, o Internacional lhe consultou para saber se Bira era mesmo um grande atacante. Dario garantiu que sim e Bira foi ao Inter ainda em 1979. Os remistas passaram maus bocados sem o seu artilheiro. Encararam um jejum de títulos até 1986 e só voltaram a conquistar o estadual de maneira contínua a partir de 1989. Em contrapartida, o Paysandu incorporaria um talismã colorado para impor sua hegemonia no Parazão: Chico Spina, fundamental no Beira-Rio em 1979. Nos anos 1980, viraria homem-gol do Papão e carrasco azulino.

O Brasileirão de 1979 começaria em setembro, e, apesar de ter a maior quantidade de participantes em sua história (94 clubes!), possuía uma fórmula enxuta de grupos que lhe permitiu acabar na antevéspera de Natal. O colorado era o mais vitorioso clube do Brasil na década e ao fim do ano, com Bira entre os titulares, terminaria campeão brasileiro mais uma vez, a última até hoje, e invicto (único a conseguir isso no Brasileirão), além de ser vice na Libertadores de 1980. O amapaense contribuiu com cinco gols, mesmo fraturando o braço assim que chegou ao clube. Todavia, se sonhava com a seleção em 1979, em 1983 já disputava a segunda divisão – e vencia, inclusive marcando um dos gols do título do Juventus da Mooca nas finais contra o CSA. Antes, em 1982, jogando em outro ex-clube de Dadá, o Atlético Mineiro, Bira declarou que apenas sempre tentou imitar Dario… 

Dadá, por sua vez, seguiu Rei para os bicolores mesmo sem coroa. Foi ovacionado em um regresso em 2002, agora como comentarista da Rede Globo na transmissão da vitoriosa campanha do Papão na Copa dos Campeões, máxima conquista nacional do futebol paraense.

Bira à frente de Falcão no Inter campeão brasileiro invicto de 1979