Ao longo de sua história de mais de cinco décadas, a Copa São Paulo de Juniores assistiu ao despontar de vários grandes nomes que marcariam a história do futebol brasileiro. Mas possivelmente nunca uma mesma equipe tenha conseguido reunir tantos jogadores que vingaram quanto a do Flamengo que levantou o título do torneio em 31 de janeiro de 1990, há exatos 30 anos – mesmo depois de ter perdido alguns de seus astros ao longo da campanha.

Era janeiro de 1990, e o Flamengo vivia seu primeiro começo de temporada após a despedida de Zico do clube. Apesar de contar com grandes jogadores no elenco, como Junior, Leandro (em seus últimos meses de carreira), Renato Gaúcho, Zinho e Leonardo, os rubro-negros se mostravam desorientados, em crise de identidade. E ainda tinham acabado de assistir a Bebeto, o ex-herdeiro do Galinho, levar o rival Vasco ao título brasileiro.

O clube tentou buscar novos substitutos para Zico em Carlos Alberto Dias (que iria para o Botafogo após negociação turbulenta), no gremista Cuca e no corintiano Neto. Mas acabou trazendo para vestir a 10 o meia Edu Marangon, ex-promessa da Portuguesa, ex-Seleção, contratado do Torino (após passagem por empréstimo pelo Porto), mas que ainda não havia se firmado como grande jogador. O momento do time de cima não parecia muito animador.

Mas nos juniores as apostas pareciam boas. O time, treinado por Ernesto Paulo e sob os cuidados do diretor de futebol amador Paulo Orro, terminara o ano de 1989 com duas importantes conquistas: o Campeonato Estadual e o Torneio Fernando Horta, passando por cima dos adversários sem cerimônias. Agora ambicionava enfim conquistar a Copa São Paulo, competição considerada o Campeonato Brasileiro da categoria.

O torneio

O regulamento da primeira fase da Copinha era repleto de peculiaridades: vitória normal valia dois pontos, praxe na época. Mas se o vencedor marcasse três ou mais gols, ganharia três pontos. Empate só valia um ponto para cada equipe se fosse com gols. Se terminasse em 0 a 0, haveria disputa de pênaltis, e apenas o vencedor somaria um ponto. O perdedor ficaria sem nada, assim como os derrotados por qualquer placar no tempo normal.

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Nesta fase, o Fla ficou no Grupo C, sediado em Santos, ao lado do Criciúma e de quatro clubes paulistas: Botafogo de Ribeirão Preto, Nacional da capital, Central Brasileira de Cotia e o próprio Santos. A estreia foi num sábado, 6 de janeiro, na Vila Belmiro, diante do Botafogo-SP, campeão paulista da categoria. O time entrou em campo com Adriano; Mário Carlos, Tita, Júnior Baiano e Piá; Fabinho, Marquinhos, Marcelinho e Djalminha; Paulo Nunes e Nélio.

Depois de sair atrás no marcador logo aos 15 minutos de jogo, quando o zagueiro Lúcio abriu o placar de cabeça para o adversário em cobrança de escanteio, o Flamengo – que reclamou de um pênalti não marcado em Nélio – empatou aos 36 ainda da etapa inicial e em outra jogada pelo alto: Fabinho testou cruzamento da esquerda para garantir o primeiro ponto. Mas para a Folha de São Paulo, o grande destaque da partida foi outro meia rubro-negro:

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“O personagem do jogo foi o meia-direita Marcelinho, do Flamengo. Ele tem 18 anos, ganha NCz$ 1.900,00 e seu pai é motorista da Empresa Municipal de Lixo, no Rio de Janeiro. O jogador já substituiu Zico algumas vezes no time profissional. Ele mede 1,69 m, pesa 62 quilos e tem o estilo de jogo de Adílio, ex-jogador do Flamengo. Marcelinho passa pelo mesmo projeto que Zico passou para ganhar maior força muscular. Ele já engordou 11 quilos em dois anos de Flamengo”.

Dois dias depois, contra o Nacional no estádio do Clube Atlético Portuários, o Fla não teria Júnior Baiano e Djalminha, expulsos na estreia e substituídos por Edmílson na zaga e Luís Antônio no meio, respectivamente. Os rubro-negros dominaram amplamente o primeiro tempo, mas só marcaram com Nélio, aos 32 minutos. No segundo, teve que se segurar para garantir o resultado após duas novas expulsões: a do meia Marquinhos e do técnico Ernesto Paulo.

No dia 10, novamente no estádio do Portuários, o Flamengo voltou a campo contra o Central Brasileira, que surpreendera ao bater o Santos na estreia. Desta vez, porém, não houve espaço para zebra: deu Fla 2 a 0, gols de Paulo Nunes, que viveu de fato um dia especial. Além de dar a vitória ao Rubro-Negro, o atacante recebeu o anúncio de sua convocação para a seleção brasileira de juniores que disputaria a Copa Atlântica, em Las Palmas, na Espanha.

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Além de Paulo Nunes, os meias Marquinhos e Marcelinho também foram chamados pelo técnico Homero Cavalheiro, mais o zagueiro Rogério, já profissionalizado e não inscrito na Copinha. Notícia boa para os meninos e nem tanto para o Flamengo: caso a equipe se classificasse (o que era bem provável), os jogadores seriam desfalque certo nas fases seguintes e decisivas, já que teriam que se apresentar à Seleção e viajar às Ilhas Canárias dentro de alguns dias.

Sem muito tempo para lamentar, o Flamengo voltou à Vila Belmiro no dia 12 para enfrentar o Criciúma. E logo aos 12 minutos Djalminha abriu o marcador. Quatro minutos antes do intervalo, porém, Júnior Baiano cochilou e permitiu que o atacante Everaldo entrasse sozinho na área para empatar. Na etapa final, o Fla cansou de desperdiçar chances de gol, até que Paulo Nunes, aos 37 minutos, deu novamente a vitória – e a classificação – ao time.

Com a vaga assegurada, o Flamengo voltou à Vila Belmiro, agora diante do dono da casa, o Santos. O jogo, porém, foi tudo menos tranquilo. Tentando empurrar seu time, que jogava suas últimas chances de classificação, a torcida santista atirou pedras nos rubro-negros, paralisando a partida por 13 minutos. O lateral Mário Carlos revidou a agressão e foi expulso. Além dele, Nélio também levou o vermelho, assim como os santistas Júlio César e França.

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E até houve futebol, com o Flamengo jogando muito bem, mas sem sorte nas finalizações. Mas faltaram os gols. Aí, de acordo com o regulamento, o ponto seria decidido nos pênaltis. E o Fla venceu por 5 a 4. O clube deixou a primeira colocação (e a vantagem de pular uma fase no mata-mata da competição) escapar para as mãos do Botafogo-SP, mas pôde comemorar o sucesso em seu pedido para protelar da apresentação de seus convocados.

Encarando a Lusa de Dener

Na primeira etapa eliminatória, o rival foi a Tuna Luso, do Pará, em jogo disputado no Canindé em 16 de janeiro. Vitória fácil por 3 a 1, com gols de Piá, Marcelinho e Djalminha. Luciano, de pênalti, descontou para os paraenses. O próximo adversário seria a dona da casa, a Portuguesa, nada menos que o time de melhor campanha e melhor ataque da fase de grupos, comandado pelo talentosíssimo Dener, e que logo mostraria sua força.

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O centroavante Sinval abriu o placar aos 34 minutos de jogo. Mas a cinco do fim da partida, o igualmente talentoso ataque rubro-negro arrancou empate em falta cobrada por Marcelinho. A decisão foi para os pênaltis, e quem brilhou foi o goleiro Adriano, titular da base após o empréstimo de Milagres no ano anterior: defendeu três cobranças da Lusa, garantindo a vitória do Flamengo – que sequer precisou bater seu último pênalti – por 3 a 2.

A fase seguinte seria disputada de maneira diferente: os seis classificados foram divididos em dois triangulares (Grupos Verde e Amarelo), com os dois primeiros colocados avançando às semifinais. O grupo do Flamengo, o Amarelo, tinha dois adversários paulistas: o Corinthians e o Juventus da Mooca, de grande tradição nas categorias de base. E o primeiro duelo seria contra o Moleque Travesso, em seu estádio da Rua Javari.

Além de não contar mais com os convocados para a seleção de juniores, o Flamengo também não teve o zagueiro Tita, cumprindo suspensão após ter sido expulso contra a Portuguesa. Mesmo com campo pesado, o Flamengo começou melhor e abriu o placar com Nélio, aos oito minutos. Aos 39, o Juventus teve a chance do empate num pênalti de Piá em Anderson. Mas Adriano voltou a brilhar e defendeu a cobrança forte e rasteira de Ricardo. 

Um minuto depois, porém, não foi possível evitar o empate do time paulistano, com gol de Índio II. Nem a virada, logo no começo do segundo tempo, por obra de Rogério. Depois de perder a invencibilidade na competição, o Flamengo precisaria juntar os cacos e se reerguer para passar pelo Corinthians, que também perdera para o Juventus por 2 a 0, num confronto decisivo para ambas as equipes rumo às semifinais.

Djalminha comanda o baile

O duelo entre os garotos dos times mais populares de Rio de Janeiro e de São Paulo, marcado para 25 de janeiro, data do aniversário da capital paulista, no estádio do Pacaembu, entraria para a história da competição. Sem Marcelinho, Marquinhos e Paulo Nunes, destaques nas fases anteriores, o meia Djalminha chamou para si a responsabilidade de decidir. E fez uma partida absolutamente avassaladora diante do Timão.

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Primeiro, o meia lançou Nélio para abrir o placar aos 15 minutos. Aos 29, bateu falta do meio da rua e o goleiro Márcio aceitou. E a três minutos do fim da primeira etapa, converteu pênalti sofrido por Fabinho para marcar o terceiro. Tudo isso só no primeiro tempo. Veio a etapa final e o massacre rubro-negro seguiu. Logo aos cinco minutos, Djalminha bateu falta da direita e Piá desviou de cabeça. Aos dez, Wladimir descontou para o Corinthians. 

Mas a máquina do Fla não parou. Djalminha balançou as redes mais três vezes: cobrando pênalti sofrido por Nélio aos 17; cabeceando quase sem ângulo uma bola cruzada da direita aos 34; e, por fim, fechando o placar com um golaço espetacular de cobertura quase do meio-campo, selando – para quem não perdeu a conta – os fantásticos 7 a 1. Os cinco gols de Djalminha naquela tarde levaram o meia a se isolar na artilharia do torneio.

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Embalado, o time também não tomou conhecimento do Internacional, primeiro colocado no Grupo Verde à frente de São Paulo e Santo André, na semifinal em Suzano. Jogando em contra-ataques rápidos, abriu o placar no primeiro tempo com Luis Antônio, aos 20 minutos, e depois definiu a vitória na segunda etapa, em duas cobranças de falta de Djalminha: na primeira, Fabinho escorou de cabeça aos 15; na segunda, o chute foi direto, de longe, aos 36.

E quem seria o adversário da grande final do dia 31 de janeiro no Pacaembu? De novo o Juventus, que derrotara o São Paulo por 2 a 1 na outra semifinal. Oportunidade de ouro para uma revanche, concretizada quando Djalminha serviu Júnior Baiano com um passe magnífico. O zagueirão se aventurou no ataque como um autêntico centroavante e encobriu o goleiro Alê com um toque de fora da área para marcar o único gol do jogo aos 28 minutos.

A festa foi grande, com volta olímpica, choro, pagamento de promessa e o capitão Djalminha levantando merecidamente o troféu. A partir dali, entretanto, começava uma nova história. Ernesto Paulo se despediu do comando do time para comandar a seleção brasileira sub-20 e chegou a dirigir a equipe principal interinamente após a saída de Paulo Roberto Falcão. Ainda no fim de 1991, teria passagem pelos profissionais do Botafogo.

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A grande safra da base mostraria seu valor no time de cima. Ainda em 1990, Marquinhos, Marcelinho, Nélio, Piá e Djalminha (além de Rogério) participaram da campanha vitoriosa na Copa do Brasil. No ano seguinte, Paulo Nunes se juntou a estes na disputa do Brasileiro e da Libertadores e, no segundo semestre, Fabinho e Júnior Baiano entraram no time nas campanhas dos títulos da Copa Rio e do Estadual, além do Brasileiro em 1992.

Além destes, o goleiro Adriano, o meia-atacante Luís Antônio e o volante Fábio Augusto também integraram o elenco principal por alguns anos, considerados boas promessas, mas sem terem longa sequência como titulares. O último, após rodar por vários clubes, acabaria retornando à Gávea em 2001. Por outro lado, outros nomes do elenco tiveram muito poucas chances no time de cima e, embora bem cotados na época, sumiram na poeira.

O lateral-direito Mário Carlos disputou o segundo turno (Taça Rio) do Estadual naquele 1990, sem conseguir se firmar. O volante Rodrigo Dias (ou Rodrigão), embora chegasse a integrar a seleção vice-campeã mundial sub-20 em 1991, fez apenas uma partida pelo Flamengo, saindo para o Botafogo em 1992. E jogadores como os zagueiros Edmílson e Tita, o lateral-esquerdo Selé e o atacante Willians disputaram apenas uns poucos amistosos.

Aquele elenco campeão costuma ser tratado como “geração perdida” no Flamengo pelo fato de quase todos os seus principais destaques terem sido vendidos por valores irrisórios e talvez de modo precoce a outros clubes brasileiros, nos quais se afirmariam de vez no futebol. Há também a inescapável comparação com as crias da base dos anos 70, que viriam a compor a mais vitoriosa geração da história do clube, campeã continental e mundial em 1981.

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No entanto, há de se lembrar que muitos desses campeões há 30 anos foram peças importantes nos títulos rubro-negros que viriam imediatamente a seguir. Alguns deles, titulares em conquistas nacionais (Copa do Brasil 1990 e Brasileiro 1992). Júnior Baiano formou zagas fortes ao lado de Wilson Gottardo e Rogério. Piá fez muitos cruzamentos certeiros para cabeçadas de Gaúcho, com quem Paulo Nunes fez dupla que marcou época.

E se Marcelinho e Djalminha oscilaram, mas tiveram seus momentos de brilho até 1993, ano em que deixaram a Gávea, Fabinho, Nélio e Marquinhos se tornaram nomes sólidos na escalação rubro-negra por muitos anos (o segundo levou a Bola de Prata da Placar em 1992 e o terceiro disputou a Copa América com a Seleção no ano seguinte). Todos esses nomes marcaram não só a primeira conquista do clube na Copinha como a própria história da competição.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.