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Znicz Pruszków e o dia em que fugir do rebaixamento virou festa

*Por Breno Peçanha

Quantas vezes você já viu um clube comemorar o décimo quarto lugar na liga? Poucas vezes, exceto em casos em que a equipe lutou bravamente contra a degola e se salvou. Agora some isso ao fato de que o exemplo a seguir vem da segunda divisão polonesa. A relevância é zero, certo? Certo, mas não se você for o treinador do clube.

Gosto de jogar Football Manager pelas experiências que me proporciona. A graça do jogo não está em treinar um clube de alto nível, mas sim em se colocar no limite, desafiando-se ao máximo com os piores clubes possíveis. Foi assim que fui parar no Znicz Pruszków, clube recém-promovido à segunda divisão do futebol polonês no meu jogo. Apesar de não possuir muitos títulos, um rapaz muito habilidoso passou pelo clube entre 2007 e 2009, marcando mais de trinta gols em duas temporadas e se tornando ídolo da torcida. Seu nome? Robert Lewandowski. O objetivo da minha passagem pela Polônia é desenvolver uma geração de ouro dentro do clube. Sendo assim, estou estritamente proibido de contratar e devo recorrer apenas às categorias de base. Agora fica mais fácil de entender o título, não é? Com um time extremamente fraco, minha única saída é esperar e me virar com o que tenho, contando com um elenco que é, certamente, um dos piores da divisão.

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Na primeira temporada (2016/17), já consegui um verdadeiro milagre ao escapar do rebaixamento, replicando o que Jorginho tentou fazer com o Vasco na temporada atual (com sucesso, no entanto). O campeonato possui 34 rodadas, os três últimos colocados são rebaixados diretamente, e o décimo quinto vai para os playoffs de rebaixamento contra uma equipe de divisão inferior. É bom lembrar que esta é a última divisão ativa do país. O rebaixamento significa o fim da minha jornada no Znicz. Ao começar a temporada, após quatro pontos em três jogos, parecia que o meio de tabela seria alcançável, mas entramos na zona de rebaixamento na quarta rodada e passamos vinte jogos sem vencer um jogo, com treze empates e sete derrotas. Pasmem: havia um time pior do que o nosso. Portanto, ficamos na penúltima posição durante boa parte do tempo.

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Após finalmente vencer uma partida, resolvi remover todas as instruções do time, já que havia funcionado na partida anterior. A princípio, duas derrotas nos deixaram extremamente preocupados, e a direção decretou: ou você conquista sete pontos em cinco jogos, ou está na rua. Desafio aceito.

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Com um empate e uma vitória nos dois jogos seguintes, parecia que a tarefa seria fácil, mas duas derrotas nos jogos seguintes nos colocaram numa situação extremamente delicada. Nossa equipe precisava vencer o sétimo colocado fora de casa. Caso contrário, ao fim da partida uma carta estaria no meu escritório, esperando para ser assinada. Contudo, quando ninguém mais esperava, nosso time foi valente e venceu fora de casa por 4 a 2, garantindo meu emprego por mais um tempo.

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Após o milagre fora de casa, mostramos um futebol que ainda não havíamos mostrado na temporada e vencemos quatro jogos em sequência, o que nos deixou na incrível situação de chegarmos à última rodada fora da zona de rebaixamento, algo que não acontecia desde a terceira rodada. Uma vitória nos garantiria na divisão atual, e até mesmo um empate nos salvaria, dependendo de outros resultados. E foi o que aconteceu. Marcamos um gol aos seis minutos e, mesmo com a expulsão de Baranowski, nosso lateral esquerdo, conseguimos segurar a vitória até os 40 minutos do segundo tempo, quando tomamos o empate. Nada que nos prejudicasse, visto que os resultados da rodada nos ajudaram, mantendo o Znicz Pruszków na segunda divisão.

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Esta é a hora em que o leitor pensa: história legal, mas já vi mais emocionantes. Calma, leitor, eu concordo com você. Ao final da primeira temporada, fiz muita festa com a improvável permanência, mas, ainda que com circunstâncias diferentes, a segunda temporada foi ainda mais incrível, com emoção até o último minuto. Literalmente.

Com o elenco um pouco enfraquecido, principalmente pela saída de Banazewski, nosso melhor ponta e um dos pilares da equipe, chegamos à segunda temporada cotados para o último lugar e com odds de 100-1. A imprensa praticamente decretava nosso rebaixamento, e sabíamos que seria difícil. Por sorte, um jovem chamado Adrian Zak surgiu em nossa categoria de base e conseguiu substituir Banazewski com maestria. Mas a luta continuaria.

O clube demonstrou a garra do final da temporada passada e fez um ótimo início de campanha – para os padrões do clube, é claro. Chegamos a ficar na metade de cima da tabela por boa parte do primeiro turno e terminamos a primeira metade do campeonato na décima posição. Nada mal para um time que era cotado para ser lanterna isolado. Porém, os problemas de lesão se acumularam, e a má fase voltou a assombrar o clube de Pruszków, com sete jogos sem vencer. A briga pelo rebaixamento voltou a ser uma ameaça real, e começamos a nos aproximar perigosamente do descenso.

Mesmo com alguns bons resultados no caminho, a ameaça permanecia, já que o campeonato estava bem embolado. A pontuação da temporada anterior foi ultrapassada com três jogos para o fim, e nem isso foi suficiente para nos livrar da degola antecipadamente. Na penúltima rodada, uma vitória garantiria nossa equipe na mesma divisão, mas enfrentamos o líder do campeonato fora de casa e fomos massacrados, com um 4 a 1 humilhante, apesar de conseguirmos um gol de honra nos acréscimos do segundo tempo.

Com a derrota pesada, chegamos à última rodada na 16ª posição, ou seja, dentro da zona de rebaixamento. Os dois clubes atrás de mim já haviam sido rebaixados. A luta para fugir da queda estava entre o Stomil, 13º colocado com 40 pontos, Sandecja, Olimpia Zambrow e Znicz Pruszkow, todos com 38 pontos. Enquanto o Stomil jogava fora de casa, mas parecia praticamente livre, o Sandecja enfrentou o terceiro colocado em casa, e Olimpia Zambrow e Znicz Pruszkow fizeram o jogo do ano, com os dois encarando uma verdadeira decisão.

Após uma palestra inflamada, fomos para o jogo fora de casa, com o estádio razoavelmente cheio. O duelo começou quente, com nosso goleiro Misztal fazendo uma defesa milagrosa logo aos dois minutos de jogo. A partida permaneceu bem aberta, com chances perigosas para os dois lados, apesar de nenhuma equipe se arriscar. Enquanto isso, no jogo do Sandecja, os donos da casa abriram o placar, resultado péssimo para nossa equipe e que nos devolvia à zona de rebaixamento. Por algum motivo, ultrapassaríamos o Sandecja com os dois jogos empatados. Creio eu que o confronto direto contou como fator de desempate.

O jogo permaneceu quente, mas as duas torcidas fizeram festa quando o gol de empate sofrido pelo Sandecja foi anunciado pelo narrador do estádio do Olimpia Zambrow. Enquanto isso, o Stomil ia perdendo fora de casa, outro bom resultado. Tudo parecia dar certo para nossa equipe, que foi para o intervalo na 15ª posição, indo para os playoffs de rebaixamento.

Após mais uma palestra inflamada, resolvi substituir o atacante Kita, fundamental na temporada anterior, pelo veterano Wisniewski, já que precisava de presença de área. Voltamos então para o segundo tempo e sofremos com a pressão do Olimpia Zambrow nos primeiros cinco minutos, mas nos seguramos bem e conseguimos evitar o abafa. O jogo foi ficando extremamente morno, sem muitas chances de gol, e tudo parecia sob controle. Até que, aos 27 minutos do segundo tempo, começou nosso calvário, que ainda duraria mais 20 longos minutos.

Baranowski deu um carrinho por trás no atacante do Olimpia Zambrow. Dentro da área, pênalti. Por sorte, o juiz só deu cartão amarelo para o lateral, mas naquele momento eu já temia o pior e gritava para o time ir para cima, antes mesmo da cobrança do pênalti. Eu só havia esquecido que nosso goleiro, Misztal, é extremamente experiente e habilidoso. Ele ficou no meio do gol para defender a cobrança de segurança do atacante adversário! Muita festa da nossa torcida, mas era só o começo do drama.

Após alguns minutos de pouca competitivdade, o placar do estádio anunciou: gol do Sandecja. O nosso concorrente conseguiu o tento de que precisava para escapar do rebaixamento, e nossa briga, agora, era com Stomil e Olimpia Zambrow. Um simples gol nos tiraria da zona de rebaixamento. Resolvi jogar o time para cima, tirando o volante Danilczyk e colocando o atacante Kraska, mudando do 4-1-2-3 para o 4-2-4 como se muda de roupa. A partir daí, nosso time começou a pressionar, perdendo duas chances na cara com Wisniewski, o que me deixou extremamente irritado. Talvez esta tenha sido a mudança mais inteligente da minha vida, mas coloquei Kraska como Oportunista e o lento Wisniewski, que atua como jogador alvo, de Atacante Recuado, tudo para aproveitar as enfiadas de bola com um jogador mais rápido.

Eis que, aos 44 minutos do segundo tempo, minha estratégia deu certo. Kraska recebeu ótima bola de Wisniewski, passou pelo lateral e pelo zagueiro adversários e bateu no ângulo, sem chances para o goleiro. Gol. Vibração no estádio, mas parou tudo. O auxiliar levantou a bandeira: impedimento marcado. No replay, deu para ver que o nosso atacante estava atrás do defensor adversário, o que gerou muita revolta, não só no manager virtual, mas no manager real que aqui escreve. Após ficar dez minutos com o jogo pausado para xingar o bandeirinha e os criadores do jogo de todos os nomes possíveis, resolvi retomar a partida e jogar o minuto que restava, sabe-se lá por qual motivo. Já eram 4:30 da manhã, e o que eu mais queria era dormir naquele momento.

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Mesma linha até que se prove o contrário

Parecia destino, mas a carreira que mais me prendeu até agora no FM16 não poderia terminar com rebaixamento após um gol mal anulado. Não mesmo. No lance seguinte, Wisniewski puxou um rápido contra-ataque e tocou para Kraska, no círculo central, que esperou e passou para Strjewski, que subiu pela ponta direita. Ele esperou a passagem de Wisniewski e cruzou de muito longe, e a bola foi certeira no pé do grandalhão, que chegou esteve de frente para o gol e finalizou para grande defesa do goleiro. Na volta, outro chute de Wisniewski, fraquinho, mas que desviou no goleiro e morreu mansamente na lateral da rede, para delírio dos poucos torcedores do Znicz presentes.

Era a vitória! Uma rápida olhada para o bandeirinha, e a confirmação do gol. Festa total no setor visitante, celebração maluca dos jogadores e do treinador; expressões tristes do outro. Fim de jogo: 1 a 0 para o Znicz, que subiu para o 14º lugar e escapou do rebaixamento! Quem caiu em nosso lugar? O Olimpia Zambrow, mas nós não nos responsabilizamos.

Assim ficou a classificação da liga
Assim ficou a classificação da liga

Mais uma temporada está pra começar. Ainda estou no começo da carreira, e ninguém sabe o que vai acontecer depois. Só espero que não seja tão sofrido, acho que já estourei a cota faz tempo.

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