A disputa entre Zlatan Ibrahimovic e EA Sports pelas aparições no mais popular jogo de futebol do mundo, o Fifa 21, teve mais um capítulo nesta terça. A empresa se manifestou, disse que tem os direitos para ter os jogadores que estão no jogo e foi além: afirmou que está sendo colocada em uma disputa que ela não tem nada a ver. Isso porque há uma guerra declarada entre os agentes e a Fifa, que quer restringir sua atuação e seus ganhos também. O licenciamento do jogo de futebol mais vendido do mundo se tornou palco dessa disputa.

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O FIFA 21 foi lançado no dia 6 de outubro, com Kylian Mbappé na capa do game. Esta edição, a 28º da série, que faz também jogos da Copa do Mundo, inclui mais de 7 mil jogadores licenciados, além de 700 clubes, 90 estádios e 30 ligas. Os acordos da EA Sports são feitos com a FIFPro, o sindicato mundial de jogadores, que inclui  38 mil atletas e reúne sindicatos em 65 países, incluindo Suécia, de onde é Ibrahimovic, e Itália, onde o atacante joga – mas não inclui o Brasil.

Ibrahimovic questionou na segunda-feira, 23, quem autorizou que a sua imagem aparecesse no jogo. Questionou inclusive o papel da FIFPro, da qual diz não fazer parte. Ibra diz que nunca permitiu que a Fifa ou a FIFPro “ganhassem dinheiro usando o seu nome” e que seria hora de investigar. “@EASPORTS há 10 anos vocês estão fugindo sobre as perguntas dos direitos dos jogadores. Talvez agora você responda, ou talvez apenas no tribunal?”, escreveu o agente de Ibra, Mino Raiola, no Twitter.

Gareth Bale, jogador do Tottenham, também se manifestou no Twitter, perguntando quem é a FIFPro. A entidade organiza o prêmio de time do ano junto com a premiação da FIFA. Ibrahimovic já foi escolhido para o time do ano em 2013 e ambos já foram indicados ao prêmio algumas vezes.

O agente de Bale, Jonathan Barnett, disse que um potencial processo era “algo que está sendo analisado”. “No momento, os jogadores não são pagos”, afirmou o representante de Bale. “Nossa grande reclamação é que a Fifa está lançando muitas regras e regulações dizendo que estão cuidando dos melhores interesses dos jogadores, mas obviamente eles não estão”, afirmou o advogado.  

“O Fifa é o jogo líder no mundo e cria uma experiência autêntica, ano após ano nós trabalhamos com diversas ligas, clubes e talentos para garantir os direitos de aparência dos jogadores que nós incluímos. Um desses é um longo relacionamento com a representação global dos jogadores, FIFPro, que trabalha com um grande número de licenças e negocia acordos em benefícios dos atletas e seus sindicatos”, afirma uma nota da EA Sports, citada pela Gazzetta dello Sport.

A FIFPro trabalha com a EA Sports há 24 anos para garantir que o jogo tenha o licenciamento dos jogadores. Nas suas duas primeiras edições, o FIFA International Soccer, que era só com seleções, e depois o Fifa 95, já com clubes, os jogadores traziam nomes genéricos, como Janco Tianno, Tito Mancuso e Rico Salamar no Brasil, ou Roberto Favaro e Joe Della-Savia da Itália. Foi só a partir do FIFA 96 que os licenciamentos começaram, com clubes e jogadores com nomes oficiais, a partir da parceria com a FIFPro.

No caso do Milan, especificamente, a EA Sports fechou um acordo de parceria exclusiva com o clube em julho, o que inclui, além do licenciamento da marca para fins comerciais, como edições especiais do jogo com o logo do clube, poder gerar imagens ainda mais realistas dos seus jogadores, através de captação feita pela equipe da empresa com os jogadores. Isso é bastante comum, tanto que clubes como Flamengo, Corinthians, Palmeiras e São Paulo fecham acordos similares com o jogo concorrente do FIFA, o PES, da Konami, com os mesmos objetivos.

“Estamos cientes das várias discussões sobre licenciamentos de jogadores no EA Sports FIFA. A situação atual que se desenvolve nas redes sociais é uma tentativa de envolver o FIFA 21 em uma disputa entre uma série de terceiros e com a qual a EA Sports nada tem a ver”, informou a empresa, em nota enviada ao Mundo Deportivo.

“Para sermos muito claros, temos os direitos contratuais para incluir os visuais de todos os jogadores atualmente no nosso jogo. Como já dissemos, adquirimos estas licenças diretamente das ligas, clubes e jogadores individuais. Além disso, trabalhamos com a FIFPro para assegurar poder incluir tantos jogadores quanto pudermos para criar um jogo mais realista. Nesses casos, nossos direitos de aparência dos jogadores se dão pelo nosso acordo com o Milan e nossa associação exclusiva que ainda inclui a Premier League e todos os jogadores do Tottenham Hotspur”, informou ainda a empresa.

Uma disputa contra as regulações da Fifa aos super agentes

A afirmação da EA Sports sobre estar sendo arrastada para uma disputa da qual não faz parte não é à toa. No dia 5 de novembro, a Fifa divulgou planos para regular mais o trabalho desses super agentes, como Mino Raiola, um dos empresários mais poderosos do futebol. A entidade quer regular que os agentes possam representar apenas uma das partes em uma transferência, ou seja, só o jogador sendo negociado ou o clube envolvido, não os dois.

Ibrahimovic e o seu agente, Mino Raiola, em evento da Copa 2018 (Alexander Hassenstein/Getty Images/OneFootball)
Ibrahimovic e o seu agente, Mino Raiola, em evento da Copa 2018 (Alexander Hassenstein/Getty Images/OneFootball)

Haverá uma exceção, com o agente podendo representar tanto o clube comprador quanto o jogador envolvido se todas as partes concordarem com isso. Seria proibido, então, representar o clube vendedor e o jogador da transferência. Além disso, a ideia é limitar a comissão paga a esses empresários, que seriam de no máximo 3% do salário anual do jogador ou 10% da soma total da transferência. A título de comparação, Raiola teria faturado, segundo Giuseppe Marotta, ex-CEO da Juventus, € 27 milhões pela transferência de Paul Pogba do time italiano ao Manchester United, em 2016.

A ideia, é claro, não agradou muito os agentes de jogadores mais badalados da Europa, como Mino Raiola ou Jorge Mendes, dois dos principais representantes de jogadores no mundo. O projeto de limitação da ação dos agentes nas transferências nasceu do diretor jurídico e de compliance da Fifa, Emilio García Silvero. “Nós estamos muito cientes que há alguns grupos que não estão felizes com algumas partes do projeto, mas nós precisamos proteger o futebol dos abusos e práticas especulativas”, afirmou Silvero, citado pelo Guardian.

Depois da resposta da EA Sports, Mino Raiola voltou a se manifestar no Twitter. “FIFPro e AC Milan não têm direitos individuais dos jogadores, e eu tenho certeza que você sabe disso, já que eu disse a vocês muitas vezes, @EASports”, disse o empresário no Twitter, nesta terça. Ibrahimovic citou a resposta do agente e disse, também no Twitter: “Eu não sou membro da FIFPro”.

A guerra parece ser mais com a Fifa, a entidade, do que com o Fifa, o jogo. A EA Sports, porém, está no fogo cruzado e pode ter que se virar nos 30 para mostrar os seus acordos, aparentemente bem construídos. O que veremos é que os agentes tentarão mostrar que, sem eles, os jogadores podem ser deixados de lado. Este é um modo de por em evidência uma disputa de força que deixa a EA Sports ameaçada de ter que enfrentar processos, o que seria muito desgastante e, principalmente, custoso, mesmo que a companhia tenha convicção de ter razão. Algo que certamente já deve ter reclamado com a Fifa, para que não seja ela, a empresa de games, que tenha que pagar a conta de uma guerra que, na verdade, não a envolve.

Caso Brasileiro

A EA Sports já viveu uma situação semelhante no Brasil, onde já foi processada por uso indevido de imagem de jogadores nas edições do jogo entre 2015 e 2016. Com isso, várias questões foram levantadas, e, como não há negociação coletiva pela inclusão nem de clubes, nem de jogadores, a EA Sports, por exemplo, só tem alguns clubes na “Liga do Brasil”, todos com jogadores genéricos.

Houve uma mudança no entendimento da lei no Brasil, em 2011, que complicou mais ainda a possibilidade de ter uma entidade que represente os jogadores e tenha autorização para negociar por eles, como bem explica o Lei em Campo. É a razão também de empresas como a Sports Interactive, que faz o Football Manager, não licenciar e vender seu jogo no Brasil desde 2016.