Carlinhos, o atleta PCD de eFootball que pode levar Corinthians a título mundial
Portador de uma doença rara, Carlinhos venceu diversos obstáculos na vida e está a seis jogos de realizar seu maior sonho
À Trivela, Carlos Antônio Schultz Barbosa não pensou duas vezes ao responder que o maior desejo que tem na vida é ser campeão mundial de eFootball.
Portador de uma doença degenerativa que desde a adolescência limita a coordenação motora, o jogador do Corinthians E-Sports poderia sonhar com uma melhor condição de saúde, mas prefere olhar para a realidade e ser grato.
– Feliz eu já sou. Por tudo o que eu passei, tudo o que eu vivo hoje, sou muito feliz. Pessoas me apoiam. Então, o meu maior sonho está na carreira – disse Carlinhos à reportagem.
Aos 22 anos de idade, ele está muito próximo de atingir o grande objetivo na vida. Entre os dias 20 e 21 de julho, Carlos disputará o campeonato mundial de eFootball em Tóquio, no Japão. O evento é organizado pela Konami, desenvolvedora do jogo, e conta com os 16 melhores “players” da linha.
Carlinhos embarcou na quinta-feira (17) e chegou à capital japonesa nesta sexta-feira (18). Acompanhado da mãe, Liliane, foi a primeira vez que o atleta viajou para fora do Brasil. E somente a segunda que ele voou de avião. A primeira, porém, havia sido em um trajeto curto, de Ponta Grossa ao Rio de Janeiro, e teve duração inferior a uma hora.
Desta vez, a viagem requeriu mais cuidados, especialmente médicos. Foi necessário que o trajeto fosse feito em duas etapas de 12 horas, com escala de oito a nove horas entre elas.
– Fomos atrás de consulta médica com neurologista, cardiologista, pneumologista. Todos aprovaram a ida dele. Têm algumas restrições, alguns cuidados que vamos ter que tomar. Vai ter que alugar um aparelho que ajuda o Carlos a respirar à noite. Vamos ter que levá-lo com bateria, que é o único permitido na aeronave. A médica orientou a fazer um trecho máximo de voo de 12 horas, com escala de oito a 10 horas para ele poder descansar e também que não canse tanto o organismo dele, devido à condição que ele possui – explicou Silvio Laércio Barbosa, pai de Carlinhos.
Carlinhos: “Tudo pra mim foi uma diversão”
Silvio e Liliane descobriram o problema de Carlinhos quando o filho tinha menos de um ano de idade. O jogador do Corinthians E-Sports é portador de uma doença chamada Atrofia Muscular Espinhal (AME), que ocorre por má formação genética.
É uma anomalia rara que, no caso de Carlinhos, tinha 25% de chance de se manifestar. No período da infância, o “pro player” só precisava fazer fisioterapia. A situação, porém, se agravou no estágio da adolescência, período que foi mais difícil para ele.
Apaixonado por futebol, Carlos jogava o eFootball desde a época que o jogo ainda se chamava Pro Evolution Soccer. Contudo, conforme a doença foi se agravando, ele passou a ter dificuldades de manejar o “joystic”. Aos poucos, precisou parar de jogar.

A alternativa foi encontrada na versão mobile do jogo de futebol desenvolvido pela Konami.
– Eu jogava Free Fire (jogo de ação-aventura), mas não era a mesma coisa, porque eu amo futebol. Aí comecei com o eFootball, que o mobile é muito bem feito, muito parecido com o do console. E eu me apaixonei, porque sentia falta do futebol – contou o pro player.
Carlinhos começou a jogar eFootball aos 17 anos de idade. Aos poucos, ganhou os primeiros campeonatos, com premiações modestas, que rendia em torno de R$ 150. Os resultados, porém, chamaram a atenção de equipes que o convidaram para fazer parte: Remo, Feras do Mobile, Fortaleza, Ceará, até chegar ao Corinthians, em fevereiro de 2025.
De todo modo, para Carlinhos tudo nunca deixou de ser uma diversão.
– Sempre amei o jogo, sempre joguei futebol. Comecei como diversão. E até hoje é um pouco de diversão. É onde eu me divirto, me sinto respeitado. Independentemente das dificuldades, eu me divirto muito. Isso me moveu no começo e me move até hoje – revelou o jogador.
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A seis jogos de realizar o grande sonho
Para chegar até o campeonato mundial de eFootball, Carlinhos precisou passar por uma árdua seletiva, que envolveu jogadores de diversas nacionalidades.
– São 70 milhões de players. Foram muitos jogos. Porque são várias seletivas. A primeira é fácil, são três jogos. A segunda tem que alcançar 20 vitórias seguidas. Ou seja, se você ganhou 19 e empatou uma, já começa de novo. Players aleatórios, do mundo inteiro. Vai um tempo. E a outra fase é um mata-mata. E assim vai indo. Mata-mata em mata-mata – explicou Carlos.
Durante o mata-mata, o jovem chegou até mesmo a derrotar o companheiro de clube, Júnior Medrado. A vitória gerou algumas resenhas internas no grupo de jogadores do Corinthians.
– A gente tira sarro do Medrado, porque ele fica bravo – disse Carlinhos aos risos.
A zoeira nos bastidores reflete muito o espírito de união entre os jogadores.
– Sem brincadeira, todo mundo (se ajuda). Todo mundo é muito legal. Nessa parte, o elenco é muito resenha. É muito próximo – destacou Carlinhos.
“Penso que furei a bolha”
Conhecido no mundo do e-sport brasileiro, Carlinhos acredita que a disputa do mundial de eFootball é a grande oportunidade dele furar a bolha da categoria.
– Agora o mundo todo vai ver não só a minha habilidade, mas a minha dificuldade – disse o jogador, referindo-se as limitações motoras que a doença o impõe.
Mal ele sabe que já furou a bolha da vida faz tempo. Carlinhos recebe mensagens de pessoas que se sentem inspiradas em relação à história que construiu e quer encorajar cada vez mais pessoas com deficiência a realizarem os seus sonhos, por mais difíceis que eles pareçam ser.
– A gente vê pessoas PCDs como influenciador, mas é difícil ver players de alto nível sendo PCDs. Então, espero ser exemplo para as pessoas terem coragem para serem pro players – contou Carlos.
O que Carlinhos precisa fazer para ser campeão mundial de eFootball?
Os 16 jogadores classificados à competição serão divididos em dois grupos com quatro times, onde se classificam o primeiro e o segundo colocado. Após esta fase, iniciam-se os mata-matas, com quartas, semis e final.
Além de Carlinhos, o Brasil também será representado por outros dois jogadores do Corinthians E-Sports: Juninho (no mobile) e Henrykinho (no console).
Haverá mais um jogador brasileiro na competição: João Victor Lopes, conhecido como “The Alpha”. Ele, porém, representará a Onic E-Sports, uma organização da Indonésia.
A torcida corintiana se prepara para acompanhar, que terão transmissão no YouTube, através do canal JL e-Sports.



