Futebol feminino

Ideia da Fifa para fomentar treinadoras é essencial, mas precisa cumprir um requisito

Órgão tenta aumentar número de mulheres em posições de comando em clubes e seleções

A Fifa divulgou mudanças nas regras do futebol feminino. Em um novo regulamento, divulgado nesta quinta-feira (19), a entidade máxima do futebol comunicou que comissões técnicas de cada seleção deverão ser formada por pelo menos duas mulheres. Além disso, ao menos uma delas deve ser treinadora principal ou auxiliar técnica.

O novo regulamento estreará na Copa do Mundo Sub-20 na Polônia, em setembro, e também será aplicado à Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil, além das competições de clubes da Fifa, como a Champions Cup e o Mundial de Clubes.

Por meio da ação, a entidade oferece às confederações associadas programas para ajudar a aumentar o número de treinadoras, como mentorias, bolsas de estudo e trilhas de desenvolvimento.

A Fifa defende que a sua iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla para garantir que o rápido crescimento do futebol feminino seja acompanhado por uma maior representação de mulheres em funções técnicas e de liderança.

A ação acontece em meio à percepção dos números alarmantemente baixos com relação à participação das mulheres em diferentes setores da modalidade. Na última Copa do Mundo Feminina, realizada em 2023, das 32 equipes participantes apenas 12 eram comandadas por mulheres.

Emma Hayes e Sarina Wiegman, técnicas da seleção dos Estados Unidos e da Inglaterra (Foto: IMAGO / PA Images)
Emma Hayes e Sarina Wiegman, técnicas da seleção dos Estados Unidos e da Inglaterra (Foto: IMAGO / PA Images)

Mas os números sofreram uma queda com o passar dos anos, já que sete dessas 12 seleções nacionais agora são comandadas por homens, enquanto quatro países anteriormente comandados por homens agora têm uma treinadora.

— Simplesmente não há mulheres suficientes no ramo do futebol atualmente. Precisamos fazer mais para acelerar a mudança, criando caminhos mais claros, ampliando as oportunidades e aumentando a visibilidade das mulheres à beira do campo –, afirmou Jill Ellis, diretora de futebol da Fifa.

A Fifa informou oferece às suas associações-membro programas e oportunidades de financiamento para ajudar a aumentar o número de treinadoras. Segundo a instituição, desde 2021, 795 treinadoras receberam apoio em 73 associações por meio do programa de bolsas de estudo para formação de treinadoras.

Programa da Fifa precisa ser igualitário

A ação da Fifa possui um viés importante para fomentar o desenvolvimento do futebol feminino, especialmente porque se faz mais do que necessária a presença de mais treinadoras ocupando a função.

No entanto, ainda há brechas para questionamentos sobre como será a ação na prática, considerando que, ao redor do mundo, a modalidade não recebe a mesma importância.

Considerando o próprio relatório da Fifa, ligas de futebol feminino contam com apenas 22% de treinadoras. No Brasil, de acordo com um levantamento feito pelo “ge”, apenas três dos 11 clubes foram comandados por mulheres no Campeonato Paulista, estadual mais forte do Brasil em 2024. No Brasileiro Feminino da Série A1, foram apenas quatro entre os 16 times.

Em nenhum dos dois campeonatos o número de mulheres no comando técnico das equipes superou os 30% na temporada passada. Estatística que se manteve também em 2025.

Tatiele Silveira e elenco do Colo-Colo (Foto: Reprodução/Instagram)
Tatiele Silveira e elenco do Colo-Colo (Foto: Reprodução/Instagram)

Mas para além dos números e da presença física, também é preciso garantir que essas mulheres sejam ouvidas pelos seus clubes e que tenham ferramentas para que possam desenvolver as suas equipes.

A boa intenção da Fifa também precisa caminhar junto com a vontade dos clubes e dos países, começando, claro, pelas oportunidades. É válido entender os motivos de alguns países nomearem mais mulheres ao cargo técnico do que outros.

E é aí que também entra o papel da Federação Internacional de Futebol: ela pode colaborar com os países que sofrem com a escassez de treinadoras para desenvolver mais profissionais e abrir caminhos para que mulheres alcancem cargos mais altos.

Em resumo, é necessário que projetos mais sólidos sejam construídos, otimizando o percurso desde a base até as equipes profissionais para que as ações sejam mantidas de forma permanente e não apenas em contextos e momentos específicos.


Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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