França

Zidane abriu o coração sobre o passado e o futuro, numa excelente entrevista para celebrar seus 50 anos

O L'Équipe publicou uma longa entrevista com Zidane no dia em que o craque completa 50 anos de idade, abordando várias fases de sua vida

Um dos maiores gênios da bola chega aos 50 anos. Zinédine Zidane suscita os mais diferentes sentimentos ao redor do futebol. Quase sempre positivos, mesmo por quem foi maltratado pelo craque em duas Copas do Mundo. Zizou é sinônimo de classe, de qualidade técnica, de atuações inesquecíveis. De conquistas, sobretudo, como jogador e como treinador. E possui muitas histórias para contar, especialmente pelos grandes momentos que experimentou – como ele tinha gosto por isso…

Nesta quinta-feira, para celebrar a data, o L’Équipe publicou uma longa entrevista com Zidane. Ele repassa diversos momentos de sua vida e também fala sobre o futuro. Abaixo, traduzimos parte das respostas. Trazem um pouco mais da personalidade e da história de um gigante.

Zinedine Zidane (CLEMENT MAHOUDEAU/AFP via Getty Images)

As relíquias dos tempos de jogador

“Meus pais guardam tudo. Mesmo um ingresso, eles guardam! Nada está perdido com minha mãe. Vinte ou trinta anos depois, eu reencontro as coisas. Ela é impressionante: as camisas, os recortes de jornais. Do Bordeaux à seleção francesa, coloquei as mãos em coisas que eu nem sabia que existiam mais. E não tentei recuperar! Mesmo meus filhos não podem. Meus pais deixam tudo num lugar seguro. Minha mãe guarda também minha Bola de Ouro. Ela permanece protegida num estojo e não está mesmo em casa, escondida. Ninguém pode tocar nela. Sentimentalmente e simbolicamente, ela está bem com meus pais. E, com eles, permanece um pouco comigo. Sou capaz de dar tudo, não tenho quase nada da minha carreira. Só dois ou três objetos. Não sou materialista. Quando quero ver as coisas, vou a Marselha. Meus filhos de vez em quando me criticam por isso”.

O empenho no início

“Meus pais não ficaram muito felizes por eu deixar os estudos. Eu estava focado no futebol. Com minha mudança a Cannes, disse a mim mesmo que ia me empenhar por meus pais. Eu queria que eles se orgulhassem de mim. Coloquei tudo no futebol. Eu batia por horas com o pé esquerdo, ia assistir os profissionais sempre que podia. Depois do treino deles, pegava a bola sozinho e ia treinar de novo. Com 15 anos, eu sabia o que queria: ter sucesso no futebol, ter sucesso para os meus pais”

A infância como fanático por bola

“Aos dez anos, eu era fanático por futebol. Fiz aniversário quase no mesmo dia da semifinal da Copa de 1982 em Sevilha. Eu me lembro daquele jogo. Também da Euro 1984. Em 1986, no México, Maradona foi uma loucura! Eu tinha 14 anos e Maradona me arrebatou. Ainda hoje gosto desses jogos de 1986, não só das fotos, mas também de ver as partidas. Todos se lembram dos dois gols extraordinários contra a Inglaterra, mas também há a vitória sobre a Bélgica. Magnífico. Era alucinante o que Maradona fez em campo. Minhas primeiras grandes lembranças são de Sevilha. O jogo com meu pai, em família. Schumacher, Battiston caído. Giresse e sua alegria, a recuperação de Trésor… Bossis agachado depois de seu pênalti. Parece que foi ontem na minha cabeça. É também a época da Téléfoot, eu brigava para ver as imagens. O futebol estrangeiro. Aqueles nomes eram míticos: Nottingham Forest, Ipswich Town, Borussia Mönchengladbach… Eu vibrava!”

A idolatria por Francescoli

“Francescoli era mais que meu ídolo. Eu era fanático por ele. Era mais que mimetismo. Dissequei tudo o que ele fazia. Eu tinha que refazer dentro de campo. Treinei até chegar lá. Olhei tudo com lupa para repetir. Além disso, eu ia ao estádio nessa época, ficava no alto das arquibancadas do Vélodrome, atrás do gol. Adorava também Karl-Hein Förster, Blaz Sliskovic que fazia gols olímpicos. Tinha também Papin, depois, contra quem eu até joguei. Mas tudo em Francescoli me cativava. A técnica. Acho que, de alguma forma, cheguei a parecer com ele. Tecnicamente, de qualquer forma, Enzo era majestoso”.

A importância da seleção

“É especial quando você recebe a camisa da seleção. Minhas primeiras equipes foram singulares. Tinha jogadores incríveis como Cantona, Ginola ou Blanc. Quando você joga pelos Bleus, é magnífico. É tão forte, poderoso. As emoções pela seleção são melhores de se viver do que de se contar. A seleção é tudo, tudo ao máximo para mim”.

A final de 1998

“Muitas vezes pensei nessa vitória, nessa final. Agora um pouco menos. Mas, quando eu mergulho de volta nela, está cheia de memórias. É magnífico. Nossa geração fez algo grande. Então, a vida continuou. Troquei minha camisa daquele jogo com Ronaldo. Ele tem a dos dois gols. A da comemoração eu joguei na arquibancada, porque tinha uma camiseta por baixo. Eu devo ter feito alguém realmente feliz. A outra não sei para quem dei”

A Bola de Ouro de 1998

“Eu estava confiante nas semanas anteriores à votação. Fiquei um pouco empolgado em algumas entrevistas. Nunca fui de dizer que merecia isso ou aquilo. Mas, com essa Bola de Ouro, em 1998, eu falei um pouco. Não era tanto eu, mas eu realmente queria ter. Eu era o melhor jogador do mundo. Isso não acontece com frequência! E, para mim, foi a única vez que ganhei. Podem existir preferências nos votos, mas, quando você ganha, você ganha. Você é o melhor do mundo no momento. E isso é lindo”.

Zinedine Zidane (Pressinphoto/Shutterstock / Imago / OneFootball)

O melhor momento da carreira

“Os seis primeiros meses até a final de 1998 foram meus melhores, não os seis últimos. Depois da Copa, eu estava catastrófico. Não conseguia botar um pé atrás dos outros. Meus companheiros diziam que era meu primo que tinha voltado à Juventus. Quando você ganha um grande título, tende a relaxar. E eu estava realmente relaxado. É difícil recuperar, leva tempo. Depois de janeiro, eu melhorei, mas machuquei o joelho em fevereiro e a temporada acabou. Depois voltei ao topo na temporada 1999/00, com a vitória apoteótica na Euro. Eu estava no topo! Acho que 1998 foi meu ano, mas minha melhor temporada foi 1999/00. Não só para mim, mas para toda a nossa geração dos Bleus. Nossa seleção era excepcional. A Euro 2000 continua a ser o ápice dessa geração. Era impossível jogar com a gente naquela competição”.

A transferência para o Real Madrid

“O valor é bizarro. Ainda mais em francos, com todos aqueles zeros. Foi alucinante. Eu não tive escolha. Foi assim. A Juventus tinha o direito de pedir o que desejasse. E o Real Madrid, de pagar. Eu tinha acabado de fazer 29 anos. Sabia que me faltava isso, o Real Madrid. De alguma maneira, eu precisava dessa transferência para voltar a impulsionar minha carreira. Estava na Juve há cinco anos, ganhei tudo exceção feita à Champions. Perdemos duas vezes. Eu precisava dessa motivação, desse novo desafio. O Real Madrid estava na minha cabeça e foi ficando mais forte aos poucos. Quando você foi bem na Juve e ganhou tudo com a França, tem que começar em outro plano. O Real Madrid era a minha. E sabia que estava na mente de Florentino. Quando ele tem algo na cabeça, tudo vai muito rápido também”.

O gol da final da Champions de 2002

“Se é o gol mais bonito da minha carreira não sei. Pode ser. Mas um dos mais importantes, sim. Eu precisava disso para ganhar a primeira Champions. Eu também precisava ser decisivo com o Real Madrid em uma grande final. Eu tinha feito isso com a seleção, com a Juventus em outros troféus, tinha que marcar minha primeira temporada com o Real Madrid. Quando eu fiz isso, fiquei mais relaxado. Depois, foi apenas um bônus. Também perdi três finais europeias antes de vencer esta. Estava na quarta final, não deveria deixar escapar. A sequência é perfeita. Tudo acontece como deveria, em todos os níveis. Sempre fui melhor quando o jogo era importante. Com toda humildade: quanto mais importante era, melhor eu ia”.

A Copa de 2002

“Não me arrependo de ter ido para a Copa de 2002. Faz parte da minha jornada. Esses são os momentos complicados de uma carreira, você também precisar viver isso para aproveitar o resto. Cheguei sozinho ao Japão. Treinei sozinho. Mas sou eu que tenho culpa. Ganhei a Champions em 15 de maio, meu filho nasce em 18, no dia 20 estou no avião. E, alguns dias depois, jogo o amistoso contra a Coreia do Sul, depois de uma temporada cheia e intensa. Mas eu estava eufórico. Amava aquilo, queria estar com os companheiros. Enquanto isso, Roger Lemerre me diz que tenho tempo, mas eu que precipitei as coisas. Deveria ter me acalmado. Senti a coxa. Passei então meu tempo longe do grupo, eles treinavam e eu me tratava. Fiz tudo errado. Fiz tudo para voltar na última partida, mas não estava bem contra a Dinamarca”.

Quando quase se aposentou da seleção

“Em 2004, eu estava muito perto de parar tudo. Tudo. Aos 32 anos. Mas durou apenas um segundo na minha cabeça. Na primeira pausa internacional, saio de férias com minha esposa e meus filhos. Eu aproveito, foi ótimo. Mas, quando volto, me digo que faltava algo. Eu tive que voltar para a seleção. Demorei um segundo para dizer que vou parar e três dias para pensar que precisava voltar à seleção. Demorei um ano para voltar porque não podia dizer que já voltaria. Também aconteceram encontros com Claude Makélélé e Lilian Thuram, que haviam parado. A gente se viu, conversou sobre isso muitas vezes. Eles também sentiam falta. Finalmente decidimos voltar para ficar juntos. Era o que Claude, Lilian e eu queríamos”.

O jogo contra o Brasil em 2006

“Para eu subir e dançar sobre uma mesa, tem mesmo que ser algo excepcional. Assim que duas pessoas chegam, eu não consigo mais. Na frente de 40, tem que ser mesmo de euforia. Quando vemos as imagens, vemos a atmosfera entre nós. É mágico. Ribéry com Jacques Chirac, isso é enorme! Franck falou com o presidente como se fosse um amigo de bairro, eu não podia acreditar! Aquele foi um dos meus melhores jogos com os Bleus, e eu estava lesionado. Eu me machuquei contra a Espanha, marcando o terceiro gol. Tinha um caroço na coxa, quase ninguém sabia. Passo por exames, dizem que não vou jogar contra o Brasil. Eu respondo: ‘O quê? De jeito nenhum!’. A equipe médica fez de tudo para eu jogar, porque eu queria muito. E joguei! Cada jogo podia ser meu último. Tinha tanto isso na cabeça que era impossível não jogar contra o Brasil. Queria aproveitar cada segundo. Foi tão forte”

A final de 2006

“Estávamos no sétimo minuto. Faltavam 83. Eu tinha que tentar o pênalti de cavadinha. Mesmo que eu perca, posso me recuperar. Falta tempo. E tenho diante de mim um dos melhores goleiros do mundo, Gigi. Ele me conhece. Tenho que surpreender. Dura dez segundos na minha cabeça. Nunca tinha batido de cavadinha. Mas isso não é desrespeito. Sei que alguns goleiros interpretam dessa forma, mas não é o caso. Não vou para humilhar, vou para fazer o gol. Essa final não foi nosso melhor jogo. Especialmente meu, pessoalmente. Mas tudo bem, é assim, aconteceu o que aconteceu. Muitas coisas aconteceram nessa final. Tem esse pênalti, a cabeçada que Gigi salvou. Poderíamos ter vencido por 2 a 1. Depois disso, acaba para mim. Não tenho orgulho”.

Zinedine Zidane (Imago/OneFootball)

A cabeçada em Materazzi

“Naquele dia, minha mãe estava muito cansada. Falei com minha irmã várias vezes por telefone. Sei que minha mãe não está bem, mas não é algo grave. Mesmo assim, fico preocupado. Ainda me concentro. Mas são das coisas que se acumulam. A pressão, isso, aquilo. Materazzi não fala sobre minha mãe, é verdade, ele insulta minha irmã, que estava com minha mãe na época. Em campo ocorrem insultos, todo mundo fala um do outro, às vezes mal, mas você não faz nada. Naquele dia, aconteceu o que aconteceu. Ele desencadeou algo falando da minha irmã. Um segundo e acabou, mas então você tem que aceitar. Não tenho orgulho, mas faz parte da minha jornada. Naquela época, eu era mais frágil. Às vezes é nesses momentos que você pode fazer algo errado… Termina assim. É difícil, mas esta é minha carreira. A história da minha vida. Com meus dois gols na final de 1998. É por isso que digo que a seleção não terminou para mim. De forma alguma, não quero terminar assim. Não acabou”.

A formação como técnico

“Nunca imaginei uma vida fora do futebol. É o que amo, minha paixão, o que conheço melhor. Não pulei etapas, fiz as coisas na ordem para virar treinador. Era uma obrigação para mim. Não queria um passe livre. Nunca disse a mim mesmo que era Zidane e dariam o diploma. Eu queria mergulhar na formação de verdade. Também pensei em todos os treinadores que não se chamam Zinédine Zidane. Também precisava respeitá-los enquanto fazia esse curso. Tem muita gente que é boa, tem ideias, mas não faz porque não tem espaço. Eu pude fazer esse grande treinamento com grandes caras. Aproveitei meu status, mas fiz três anos de formação”.

O gosto por treinar craques

“Ajuda ter vivido coisas como eles. Mas, acima de tudo, você não deve querer ser mais do que eles. Você é o treinador, não tem problema. É você quem dita o caminho, mas não deve irritá-los. São eles que fazem a diferença em campo. E, nisso, eu não tenho ego. Já vivi situações com muitos treinadores ou jogadores que queriam ser maiores do que os outros. Em algum momento, isso não funciona. Vou ser básico ao dizer, mas, quanto maiores e mais importantes os jogadores, mais fácil é treiná-los. De verdade. Eles sabem o que estão fazendo, estão focados, sabem para onde vão. O vínculo que tenho com eles é numa partida específica, em ações precisas, a tática, o adversário. É por isso que também amo gerir os grandes jogadores”.

A relação com os jogadores

“Karim não precisava progredir, mas ele gostava de ficar depois dos treinos. Na frente do gol, dei dois ou três truques para ele em troca. Minha comissão técnica e eu amávamos ficar com um ou dois jogadores depois do treino, mesmo com o goleiro. Eu me divertia. Meus pés ainda estão lá! Fazíamos exercícios divertidos, desafios. E eu ganhei muitas vezes. Adoro ficar com meus jogadores, jogar com eles. É uma forma de transmitir. Depois, fiquei com os craques, a nata. Não tinha muito para transmitir a eles pessoalmente, na técnica, eles não precisavam. Trabalhei principalmente como equipe”.

O carinho por Benzema

“Temos um afeto. Karim é como o irmão mais novo que nunca tive. Sou o último da família. Nosso relacionamento foi crescendo. Nós nos conhecemos quando ele chegou a Madri e eu era o assessor do presidente, depois o auxiliar de Carlo. Agora nos vemos um pouco menos, trocamos mensagens. Mas ele sabe onde estou, eu sei onde ele está. A temporada dele não me surpreende. É apenas a continuidade. Eu sabia que ele era capaz de fazer isso. Ele sempre foi bem no Real. Ele é simplesmente excepcional!”

A experiência como técnico do Real

“É difícil dizer qual o momento mais marcante. O gol de Bale contra o Liverpool? O de Cristiano contra a Juventus? A bicicleta dele, você vai para Turim e ganha por 3 a 0, eu alucino. É um momento forte como treinador. Há também o gol de Cristiano quando vencemos a Roma na minha estreia pela Champions. Todos os jogadores vêm até mim, pulam em meus braços. É tocante. Sentimos isso, vemos na imagem que fiquei como uma criança. Vivi esses momentos como jogador e são em outro nível como treinador. Eu tinha mais prazer mesmo no treino. A partida não era tão divertida porque há uma sentença. É bizarro dizer isso. Há mais ação, mais pressão. Nos treinos, era simplesmente excepcional com esses jogadores. A diversão estava realmente lá. Gostava de fazer brincadeiras com Modric, Benzema, Kroos, um toque”

Levar a Champions como jogador e como técnico

“É diferente. Mas tudo é maravilhoso. Como treinador nós somos responsáveis de 25 jogadores, mas não só. Por um clube também, por um nome como o Real Madrid, por uma instituição. É um fardo enorme que não carregamos da mesma forma como jogadores. Quando você vence, três vezes seguidas, é um grande e profundo sentimento de realização ao seu redor, para todo o clube. Ganhar a Champions nunca é sorte. É o que funciona, especialmente três vezes seguidas. Trabalhei feito maluco. Trabalhamos muito. Meus jogadores acreditavam em mim, eu acreditei neles. Nós conseguimos isso. É muito trabalho com minha comissão técnica. Ganhar como jogador não tem o mesmo empenho. Não são as mesmas jornadas e a mesma tensão. Como treinador você trabalha e não só para você, nunca para. Fisicamente, às vezes eu estava em casa, mas meu cérebro continuava no estádio. Já estava pensando no treino seguinte, no que tinha de dizer a um jogador”.

Zinedine Zidane (Getty Images)

O impacto como técnico na Champions

“Não fiquei surpreso por conquistar a Champions em seis meses. Porque, quando faço algo, é para ganhar. Eu sou um vencedor, sem pretensão. Eu vivo para vencer. Caso contrário, eu não faço. Nem sempre ganhamos, mas faço tudo por isso. Quando ganho, não me surpreendo, porque dei tudo. Eu trabalhei. E, quando você trabalha, tem o direito de ser recompensado. A recompensa vem do trabalho e isso significa que você merece”

A personalidade

“Sou instintivo, não gosto de coisas fixas, que vou fazer isso ou aquilo. Não. Por exemplo, eu era treinador. Não queria mais fazer isso o tempo todo, então parei. E voltarei quando quiser retomar. Amo essa ideia de vida, da minha vida. Eu faço o que sinto, quando sinto. E aí você não se engana. Se você ouve demais, se dizem muita coisa ao seu redor, você pensa e há uma chance de errar. Eu faço tudo com meu coração. Está indo bem. Então, se você errar não se importa”.

A opinião política

“Eu não gosto de me exibir. Tem gente que gosta de se expor, de falar, de dar sua opinião. Não é uma crítica, mas isso não é para mim. Prefiro estar do outro lado, olhar, amo observar. Isso não me impede de opinar sobre os assuntos que me interessam, e são muitos, bem além do futebol. Mas não preciso necessariamente me expressar, exceto quando necessário, e faço isso. Quero saber, amo assistir a debates, o que não costumava fazer antes. Política, entre outros. Mas não quero estar lá, estou acima de tudo no futebol. Essa é minha paixão. Mas, novamente, isso não significa que não tenha uma posição sobre as questões. Tenho opinião sobre tudo. Pergunte aos meus amigos. Mas não preciso falar quando os microfones se tensionam”.

A representatividade da identidade argelina

“Minha ascensão, claro, é motivo de orgulho. As pessoas na rua falam comigo sobre isso, sobre o fato de eu seguir o mesmo. É bacana. Eles veem que eu fiz minha parte, mas sem deixar o meu lugar. Isso não significa que eu não saiba o que represento, e fico orgulhoso se isso inspirar as pessoas. Isso não significa que não me engajo, mas faço do meu jeito. Se eu tiver que falar sobre um assunto importante, não tenho problema. Mas por que, sob o pretexto de que tive sucesso na minha área, alguém desejaria que eu falasse sobre tudo? Porque sou conhecido? Mesmo que tenha evoluído socialmente e financeiramente, deveria dar opinião sobre tudo? Não, não, não. Faço coisas, muitas coisas, mas sem a necessidade de expor”

Treinar o PSG

“Nunca diga nunca. Especialmente quando você é treinador hoje em dia. Quando eu era jogador, eu podia escolher quase todos os clubes. Como treinador, não há cinquenta clubes para os quais eu posso ir. Há duas ou três possibilidades. É a realidade atual. Como técnico, você tem bem menos escolhas do que como jogador. Se vou a um clube, é para ganhar. Digo isso com toda a modéstia. É por isso que não posso ir a qualquer lugar. Por outras razões, também, não posso ir a qualquer time”

Treinar em outros países

“Algumas condições tornam as coisas mais difíceis. A língua, por exemplo. Quando me perguntam se eu quero ir a Manchester. Eu entendo o inglês, mas não domino totalmente. Sei que há treinadores que vão aos clubes sem falar a língua, mas eu trabalho de forma diferente. Para vencer, muitos elementos entram no jogo, é um contexto global. Eu sei do que preciso para ganhar. É claro que você pode não vencer, mas sei que você precisa pelo menos disso, disso e disso. E eu quero tudo ao meu lado para otimizar as chances”.

O desejo de treinar a França

“Quero ser treinador da seleção, claro. Serei, espero, algum dia. Quando? Não cabe a mim. Mas quero fechar meu ciclo com a seleção. Conheci a seleção como jogador. E é a coisa mais linda que já me aconteceu, é o auge. Assim, como vivi isso e hoje sou treinador, a seleção está enraizada em minha cabeça. Não sei se vou substituir Deschamps. Se tiver que acontecer, vai acontecer, agora ou não. Quando digo que quero dirigir a seleção um dia, assumo. Hoje, a equipe está em seu lugar, com seus objetivos. Mas, se a oportunidade vier em seguida, estarei lá. Novamente, não depende de mim. Mas meu desejo profundo é estar lá. A seleção é a coisa mais bonita que existe”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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