Futebol francês

Zidane: A classe em azul

Quando a França entrar em campo contra a Romênia, em sua estreia na Eurocopa-2008, a equipe virará uma página em sua história. O torneio continental será a primeira grande competição na qual os Bleus não contarão com Zinedine Zidane. O técnico Raymond Domenech conhece a dificuldade de montar uma equipe sem sua principal referência nos últimos anos. Pior para quem ocupar a vaga no meio-campo azul, pois sempre terá sobre seus ombros a carga de pelo menos chegar perto de Zizou.

A forte imagem do astro deixando o campo do Olympiastadion, em Berlim, na decisão da Copa do Mundo de 2006, ilude quem pensa em Zidane como o responsável pela perda do título mundial para a Itália. A famosa cabeçada em Materazzi na prorrogação, quando o duelo estava empatado por 1 a 1, nada mais foi do que um gesto intempestivo, quase como para mostrar que ‘sim, sou feito de carne e osso como qualquer um’. Sua atuação nas quartas-de-final, quando acabou com o Brasil e deu um chapéu de presente para Ronaldo, suporia que Zizou veio de alguma terra desconhecida, onde seus habitantes primavam pela economia dos gestos e de energia para encantar com uma hábil precisão, o mínimo esforço para obter o máximo rendimento.

Nem foi um lugar tão distante assim o berço de Zizou. Marselha viu os primeiros passos do garoto, mais um membro de uma família de imigrantes argelinos no sul da França. Logo ele começou a bater bola nos clubes da região, quando um observador do Cannes gostou do que viu. Aos quinze anos, Zidane integrou o centro de formação do clube, comandado pelo treinador Guy Lacombe. Sua estréia na Ligue 1 veio em maio de 1989, contra o Nantes de Marcel Desailly e Didier Deschamps, mais tarde seus companheiros na seleção. Os Canários marcariam o começo da carreira do jovem: em fevereiro de 91, Zidane marcou seu primeiro gol como profissional, o que lhe rendeu um carro vermelho – presente de Alain Pedretti, presidente do Cannes.

Contratado pelo Bordeaux em 92, Zidane vestiu pela primeira vez a camisa da seleção dois anos mais tarde. Ele entrou em campo aos 18 minutos do segundo tempo e marcou os dois gols do empate com a República Tcheca. Nada mal para um novato, mas a história dele com os Bleus seguiria caminhos ainda mais gloriosos. Uma excelente campanha dos girondinos na Copa Uefa (o clube foi vice-campeão e deixou o Milan pelo caminho), gols e dribles (sendo o mais famoso a ‘roulette’) rendeu-lhe uma transferência para a Juventus.

Nos bianconeri, Zizou começou a trilhar o mesmo caminho talhado por Michel Platini. Além das taças em sequência, ele se tornou titular da seleção. O desempenho discreto na Euro-1996 parecia mais um estágio de amadurecimento. Dois anos depois, veio a grande glória do futebol francês, com a conquista do Mundial em um torneio disputado em casa – e com direito a dois gols de Zidane na final contra o Brasil.

Antes de partir para o ‘galáctico’ Real Madrid, Zidane levou os Bleus ao título da Eurocopa em 2000 e ganhou uma Bola de Ouro. Nos Merengues, na negociação mais cara da história (€ 77 milhões), o camisa cinco conduziu o clube blanco ao título da Liga dos Campeões, com direito a um golaço de voleio na decisão contra o Bayer Leverkusen. O fiasco francês na Copa-2002 sugeriria o declínio da carreira de Zizou, ainda mais pelos resultados pouco sugestivos do Real Madrid dentro de campo, apesar dos grandes investimentos feitos na montagem de elencos com nomes estelares.

Em 2004, a história de Zidane na seleção francesa teria um breve intervalo. Naquele ano, ele anunciou sua despedida dos Bleus. Com o clamor do público, imprensa e um pedido especial feito pelo treinador Raymond Domenech, o meia mudou de ideia quase um ano depois. Ele queria ter a honra de conduzir a equipe em sua última valsa, em campos alemães. Na final contra a Squadra Azzurra, Zizou provou porque chegou ao topo. Ninguém teria autoridade maior para cobrar um pênalti, logo em uma decisão de Copa, com direito à cavadinha ‘à Panenka’ quando se tem um goleiro como Buffon do outro lado.

Não foram à toa seus três troféus de melhor do mundo da Fifa, seus recordes, sua fama e o encanto despertado em quem admira o futebol com os olhos de um apreciador da arte clássica. Para Zidane, era simples demais esquadrinhar o campo, saber o momento exato do passe, medir a força necessária para impulsionar a bola, acionar a visão periférica para localizar seus companheiros e os marcadores. E tudo isso com um estilo elegante, discreto e, ao mesmo tempo, fatal.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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