França

Wenger: “Passo por uma desintoxicação, depois de 35 anos trabalhando como treinador”

Arsène Wenger vive um mês de agosto bastante diferente do que aconteceu nas últimas décadas. Nada de intensidade na preparação à temporada que vai começar, nada de pressão pelo início dos campeonatos, nada de empenho na contratação de novos jogadores durante o mercado de transferências. Após deixar o Arsenal, o comandante aproveita a calmaria desfrutando das paisagens paradisíacas na Córsega, onde se encontra com os amigos, mas também reflete sobre tudo o que viveu.

Nesta semana, Wenger deu uma interessante entrevista ao Corse-Matin, jornal local. Falou sobre sua história, sobre suas visões e também sobre a nova realidade. Não quis apenas fazer previsões mais incisivas sobre o futuro, deixando a vida acontecer depois de tantas cobranças sobre o seu trabalho. Abaixo, destacamos os principais trechos. Confira:

A vida sem trabalho

“Podemos falar de uma desintoxicação, depois de 35 anos trabalhando como treinador. É a primeira vez desde então que eu não participo da pré-temporada de um campeonato. Dito isso, é mais fácil eu me curar em uma paisagem como a da Córsega. Minha vida está melhor do que eu pensava. Quando você se mantém ocupado como aconteceu comigo, sempre teme se sentir vazio. Mas eu rapidamente me organizei nesse novo estágio da vida. Eu pratico vários esportes, aqui eu saio para comer com meus amigos, converso muito também, posso permanecer por horas contemplando o horizonte. Eu leio todos os dias, atualmente um livro de Philip Roth chamado ‘Casei com um comunista'”.

Impressões sobre a Copa do Mundo

“Eu acompanhei toda a Copa do Mundo como comentarista na beIN, e cinco vezes fiz a viagem de Paris a Moscou. Antes da competição, nós temíamos o pior. Parecia que íamos ao cinema já sabendo que veríamos um filme ruim. E depois, todo mundo saiu agradavelmente surpreso pela qualidade da organização e pela recepção, assim como pelo nível de educação e de cultura dos russos. Quanto à competição, infelizmente se tornou uma Eurocopa com um convidado, o Brasil. A África não tem um time que pode vencer, assim como a Ásia. O resto dos sul-americanos não estão mais à altura de suas ambições”.

O título da França

“A França talvez seja o único time que tenha crescido durante a Copa. Nós vimos equipes que começaram bem, mas depois caíram de nível, enquanto a França se revelou em progressão constante. Eu digo também que o título aconteceu por um estado de espírito irrepreensível, mas igualmente por uma superioridade que se demonstrou em termos de força física. Eu disse desde o início que a França era favorita, porque possuía a melhor combinação entre qualidade técnica e força física”.

Como analisa a carreira

“Orgulho nunca foi meu ponto forte. Tenho orgulho, em todo caso, de ter trabalhado com os valores que permaneceram importantes aos meus olhos: o respeito às pessoas, a seriedade, a integridade, o senso de responsabilidade. Eu não sou estúpido o suficiente em pensar que não cometi erros. Por outro lado, eu não tenho remorsos, porque permaneci fiel aos meus valores que são importantes no esporte, especialmente no mais alto nível”.

As virtudes como treinador

“Minha longevidade reflete sobretudo a consistência do esforço e da concentração. O fato é que eu também me comprometi profundamente com o clube. Idealmente, para mim, o técnico deve ter influência sobre o desenvolvimento dos jogadores, o estilo de jogo, os resultados, a estrutura do clube e o seu tamanho. No geral, essa influência só pode ser efetiva através da duração da presença e do poder que você tem no clube. Nesse ambiente versátil, duração é a incógnita da equação. Longevidade também pode ser uma forma de resistência, mas consistência em resultados é essencial”.

O apelido de professor

“Nunca fui um professor no sentido de quem geralmente sabe melhor ou mais que os outros, mas por ajudar a encontrar um caminho que permite se expressar. Em meu espírito, um treinador é um guia, assim como um professor. Então, você pode ser um bom ou um mau guia”.

A paixão sobre outras áreas e a possibilidade de tentar o novo

“Para arqueologia, não sei o suficiente sobre composições de solo. Política não mais. O que me da prazer em ser treinador é que temos uma boa visão das teorias, precisamos mostrar que elas funcionam todos os finais de semana e que o resultado é imediato. Na política, entre a teoria e a prática, o tempo é muito grande”.

O futuro

“Eu decidi que não vou mais decidir. Eu permaneci intoxicado por um longo tempo, então fiz a promessa que não vou tomar decisão alguma até setembro”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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