Volta por cima

O Lyon foi a Glasgow desacreditado. O time precisava derrotar o Rangers fora de casa, uma missão à primeira vista bastante difícil, caso quisesse se classificar para as oitavas-de-final da Liga dos Campeões. A Copa Uefa parecia seu destino mais certo, um prêmio de consolação admitido até mesmo por seu presidente, Jean-Michel Aulas. No entanto, ao contrário do esperado, os lioneses voltaram da Escócia com um 3 a 0 categórico. Uma prova de sua recuperação na temporada e uma demonstração de melhoria de rendimento em uma hora crucial.
Os Gers carregavam uma invencibilidade de onze jogos em Ibrox pela competição. Precisavam apenas de um empate para passar de fase. Entraram em campo com apenas um atacante (Cousin), entupiram o meio-campo e apostaram na retranca para garantir um resultado favorável. Uma tática destruída com o gol marcado por Govou aos 16 minutos de jogo. Antes disso, os lioneses deram mostras de tranqüilidade mesmo com o estádio e as circunstâncias completamente contrários.
Foi exatamente esse ar sereno que faltou ao OL quando enfrentou o Rangers pela primeira vez em Gerland. Lá, o time escocês se sentiu à vontade para determinar o ritmo de jogo sem haver uma reação organizada dos donos da casa. Desta vez, o Lyon mostrou-se sólido, principalmente em seu meio-campo. Destaca-se principalmente a figura de Toulalan, grande responsável na contenção das jogadas armadas pelos Gers após a abertura do placar. Diante de uma defesa que ainda destoa do restante do grupo, o volante soube segurar muito bem as pontas, multiplicando-se em campo.
Se por um lado o OL manteve uma boa coesão, com uma equipe compacta e rápida tanto no combate como na passagem da bola para o ataque, o sistema defensivo merece atenção. Mais uma vez, Anderson e Grosso ficaram um degrau abaixo de seus companheiros, tornando-se presa fácil para se forçar uma jogada em cima deles. Pelo menos resta a convicção de que este problema será solucionado em grande parte com os retornos de Coupet e Cris.
Os dois, em recuperação de lesões, transmitem uma segurança que ainda não foi encontrada pelos defensores lioneses. Vercoutre está mais para um quebra-galho, para ser utilizado em jogos contra um Metz ou então nas fases preliminares da Copa da França ou da Liga. Anderson sente dificuldades para se entender com Squillaci, com constantes erros de posicionamento e até mesmo lentidão na hora de acompanhar um rival. Pelo menos Cris tem o mérito de conhecer melhor o estilo de jogo de seu companheiro.
O Lyon possui a pior defesa dos 16 classificados para as oitavas, com dez gols sofridos em seis jogos. Tudo bem, seis deles foram levados nas duas primeiras partidas, quando não jogou nada. Contudo, o progresso do OL na competição depende demais da evolução a passos mais largos de sua defesa.
Já o Olympique de Marselha… Bom, o time voltou a tremer quando pisou no gramado do Vélodrome. O Liverpool teve seus méritos por fazer uma partida excelente, mas o OM pecou por sua irregularidade. Em Anfield, os marselheses fizeram exatamente como deveriam ter repetido em casa: pressionaram o adversário em seu campo, dificultaram o toque de bola dos Reds e os forçaram ao erro com uma marcação eficiente em torno de seus jogadores-chave.
O gol de Gerrard logo no início exigia um postura mais forte do Olympique. Algo como o dono da casa que não tolera traquinagens e reprime o visitante ‘saidinho’ com rigor. Em vez dessa postura, o OM perdeu completamente o rumo, com uma impressionante fraqueza e falta de agressividade. Diante de um rival acuado, o Liverpool nada mais fez do que cumprir sua parte: acabar logo de uma vez com a conversa.
Os marselheses nem assimilaram as mudanças feitas por Gerets, com o intuito de reforçar a armação no meio-campo e priorizar a busca pelo ataque. O OM parecia entorpecido pelo sonífero da incompetência, o mesmo que o faz vagar por uma zona morta da tabela da Ligue 1. Com tamanha inconstância e sem alguém em campo capaz de chacoalhar seus companheiros para manter o foco, a vida do Olympique será difícil também na disputa da Copa Uefa.
Queda livre
O Lille roubou a cena na Ligue 1 nas últimas temporadas. Com elencos formados por jogadores desconhecidos, a equipe desbancou rivais de maior peso e até ameaçaram roubar o cetro do Lyon. Classificado dois anos seguidos para a disputa da Liga dos Campeões, o LOSC não fez feio no torneio continental e até chegou às oitavas-de-final. Entretanto, nem mesmo a ‘mágica’ de Claude Puel tem sido capaz de salvar a equipe em 2007/08. Com a derrota por 1 a 0 para o Toulouse, o time que se tornou a sensação da Ligue 1 nos últimos tempos aparece na zona de rebaixamento.
Nesta temporada, o Lille pagou caro por suas boas campanhas recentes. A queda de rendimento da equipe coincide com as grandes mudanças sofridas por seu elenco. Mathieu Bodmer, Kader Keita, Peter Odemwingie, Rafael Schmitz, Efstahios Tavlaridis, Mathieu Chalmé… Todos eles sentiram a necessidade de deixar o LOSC em busca de outros ares e deixaram o clube sem sua espinha dorsal. Neste momento, entra o segundo componente para explicar o fracasso.
Nos outros anos, o Lille evitou como pôde essa debandada geral. Em nome da chance de atuar em uma LC, os jogadores mais importantes preferiam permanecer no elenco. Havia uma ou outra perda, claro, mas a reposição quase sempre se mostrou acertada, com a contratação de um substituto nos mesmos moldes do antecessor. A idéia do ‘espírito de grupo’ montado por Puel, no qual o destaque fica por conta do conjunto e não por individualidades, mantinha-se firme. Essa época acabou.
A LC passada fez muito mal ao Lille. A eliminação traumática para o Manchester United nas oitavas-de-final afetou o desempenho na Ligue 1. Fora da zona de classificação até mesmo da Copa Intertoto, o clube perdeu seu principal argumento para convencer os atletas a seguir na equipe. Com a saída de diversos jogadores, era necessário ir ao mercado e fazer muitas compras. Como a contratação de um pacote de reforços não era o forte do LOSC, logo a situação piorou.
Maric, Tahirovic, Yanes, Kluivert e Béria chegaram à equipe, mas até agora se revelaram um grande fracasso. A contratação do atacante holandês é simbólica: ele chegou para ser a estrela da equipe, quebrando toda a ideologia firmada nos últimos tempos. Para piorar, em campo ele tem sido de pouca utilidade. Em 17 partidas, o Lille empatou nove delas. O time perdeu sua identidade e agora vaga como um zumbi pela parte de baixo da tabela da Ligue 1. Uma hora, a magia iria acabar, mas o LOSC conseguiu se afundar com uma velocidade impressionante.
Se o Lille chega à zona de rebaixamento, outro clube saiu dela, pelo menos por enquanto. O Paris Saint-Germain colocou a cabeça para fora d’água com a vitória por 1 a 0 sobre o Auxerre na casa do rival. O triunfo traz um pouco de alívio ao time da capital, mas não se deve pensar que o confronto com o AJA foi tranqüilo. Os jogadores do PSG sentiram a fúria da torcida antes do apito inicial: cerca de cem ‘pseudo-torcedores’ tentaram depredar o ônibus da delegação. Os atletas ainda precisaram de escolta policial para evitar agressões. Isso sem contar com os protestos nas arquibancadas do Abbé-Deschamps, com gritos de ‘um time para Paris’.
A vitória do PSG alivia um pouco o clima pesado, mas não deve iludir. O time foi dominado na maior parte do tempo pelo adversário e mal conseguia manter a posse de bola por muito tempo. Os parisienses contaram com uma falha defensiva do AJA no lance do gol de Luyindula para aproveitarem uma de suas únicas chances de gol. A tensão no Parc des Princes está longe de se dissipar.


