França

Uma fonte dos milagres na França

Por Nelson Oliveira

Talvez o futebol nunca tenha passado por uma fase em que tantos investidores não tenham o esporte como seu meio de renda principal. Um dos clubes europeus que tem ganhado destaque por esses motivos, mas também por bons resultados, é o Evian Thonon Gaillard, caçula da Ligue 1, a primeira divisão francesa. O Evian é financiado pela gigante Danone e foi batizado com o nome da água mineral do grupo, fabricada em fontes de Thonon-les-Bains, onde fica situada a sede do clube. Além da Danone, o clube também tem como acionistas os campeões mundiais Zinédine Zidane, Bixente Lizarazu e Alain Boghossian, o que deu ainda mais visibilidade ao projeto do ETG.

A equipe nasceu em 2003, depois da fusão entre FC Gaillard e Olympique Thonon Chablais, pequenas equipes de cidades distantes aproximadamente 40 quilômetros, na fronteira da França com a Suíça. Batizada inicialmente de Croix-de-Savoie, a equipe só se passou a chamar Evian em 2009, quando o grupo Danone já era responsável pela maior parte de suas ações. Porém, ao contrário de equipes com planos ambiciosos e altos orçamentos, como o Paris Saint-Germain, na própria França, o Evian tinha como objetivo chegar apenas à primeira divisão, com um orçamento reduzido. Feito que conseguiu após dois acessos consecutivos, a partir do Championnat National, a terceira divisão francesa. Na Ligue 1 desta temporada, após nove partidas, os Croix somam 8 pontos e ocupam a 15ª posição, um ponto acima da zona de rebaixamento.

O clube ganhou algum destaque na imprensa brasileira quando o zagueiro Cláudio Caçapa foi jogar lá, em janeiro deste ano. Atualmente, o único brasileiro que se encontra lá é o também zagueiro Felipe Saad, ex-Vitória, Paysandu e Botafogo, que chegou ao clube em 2010 depois de ser ídolo e vencer a Copa da França com o pequeno Guingamp, atualmente na terceira divisão.

Em entrevista exclusiva à Trivela, Saad, conta como o projeto do clube tem evoluído com os investimentos da multinacional e compara as estruturas dos pequenos clubes franceses com os de porte semelhante, no Brasil. “Os clubes do Brasil possuem vários campos de treinamento, onde os médicos estão presentes todos os dias e cada clube possui um conjunto de equipamentos de musculação e avaliação física. Os clubes franceses não contam com essa profissionalização”, revela. No caso específico do Evian, até mesmo o estádio apresenta problemas. O estádio Joseph Moynat, que tem capacidade para 3600 torcedores, foi vetado pela Federação Francesa e o clube manda seus jogos em Annecy, distante quase 80 quilômetros, em uma arena de 15600 lugares e que tem recebido bom público.

Saad, de 28 anos, jogou bastante na campanha dos alpinos na segundona, mas ainda não entrou em campo nesta Ligue 1. Ele acredita que seu reconhecimento como jogador profissional ainda está reservado para o futuro, mas, ainda que tenha alguns anos de carreira, já pensa no que fazer quando deixar os gramados. Graduado em Relações Públicas e fluente em inglês, francês e italiano, Saad tem boas credenciais para conseguir um bom emprego quando se aposentar. Confira a entrevista.

Quando você chegou ao Evian, o clube já havia mudado de nome e já recebia os investimentos da Danone. Como o projeto do clube tem evoluído?

Quando cheguei, ficou claro que o objetivo do Evian era subir para a Ligue 1 em três anos. Subimos já no primeiro. Como dizem na França, o jóquei foi mais rápido que o cavalo. Quer dizer que a evolução do clube superou a expectativa de todos e que alguns aspectos ainda precisam ser melhorados. Aqui no Evian os investimentos não são “ilimitados” como em Chelsea e Manchester City, por exemplo. Franck Riboud quer guardar uma imagem de empresa familiar, fazendo a ligação com uma equipe de futebol com valores morais e respeitosos. O orçamento é pequeno, se comparado com os maiores times franceses, mas os investimentos priorizam a contratação de jogadores de renome e na melhoria da estrutura do clube.

Para a estreia na Ligue 1, o Evian contratou jogadores experientes, como Sidney Govou e Christian Poulsen, pagando pouco por eles. Como não repetir os mesmos exemplos de Boulogne-sur-Mer e Arles-Avignon, times que subiram para a elite, caíram em um ano e depois fizeram péssimas campanhas na Ligue 2?

A ideia é guardar a ossatura dos dois títulos nos dois últimos anos. Porém, as contratações deste ano foram numerosas e os jogadores que deixaram o clube foram poucos, o que leva o Evian a ter talvez o maior grupo de jogadores da Ligue 1, com 29 profissionais. A vantagem é que existem poucos jogadores no último ano de contrato, ao contrário da situação de Boulogne e Arles. Dessa forma, se espera uma identificação maior com o clube e, consequentemente, um comprometimento maior para o futuro.

O estádio de Annecy fica distante da sede do clube (nota: Thonon-les-Bains, sede do clube, fica a 77 quilômetros e Gaillard, a 44), mas tem boa média de público. Em sua opinião, a que isso se deve?

A equipe está conseguindo atrair muitas pessoas aos jogos, a maioria delas por curiosidade. Torcedores fanáticos são muito poucos, pois o time é muito recente. A boa média se deve à rápida ascensão do clube e também às grandes equipes que vêm jogar no nosso estádio como Paris Saint-Germain, Lyon e Marseille.

Quais as maiores diferenças estruturais entre o Guingamp, que vinha com alguns problemas desde que foi rebaixado em 2004, e o Evian, que tem um projeto ambicioso? Você sentiu muito a mudança?

O Guingamp já possui seu estádio próprio, o Evian ainda não. O Guingamp possui um centro de treinamento permanente com dois campos e sala de musculação, por exemplo. Já o do Evian é provisório, em um terreno emprestado pela prefeitura, e a evolução está em andamento. A sala de musculação, por exemplo, acabou de ser montada.

A estrutura de clubes regionais brasileiros, como Paysandu ou Vitória, pelos quais você passou, são superiores às dos franceses?

Sinto muito a diferença em relação aos clubes do Brasil, que possuem vários campos de treinamento, onde os médicos estão presentes todos os dias e cada clube possui um conjunto de equipamentos de musculação e avaliação física. Os clubes franceses não contam com essa profissionalização. O Vitória, por exemplo, é reconhecido por sua excelente estrutura e divisão de base, assim como algumas equipes francesas como o Lens ou o Lyon, que não representam a norma. Já em termos de salário, não tenho base para comparação, porque desde 2007 não sei como estão os valores aí no Brasil.

No início desta temporada, jogadores italianos entraram em atrito com clubes e governos por causa de uma tentativa de aumento do pagamento de impostos. Na Espanha, houve greve para fazer com que houvesse mais garantias que os clubes com mais problemas financeiros não atrasariam salários dos jogadores. Você acha que existe possibilidade de acontecer algo parecido no futebol francês hoje em dia?

Não penso que seria possível uma greve na França, pois o sindicato dos jogadores (UNFP) nos representa muito bem. A França conta com um sistema de gestão modelo segundo os padrões da Uefa. Se o clube não provar que seu orçamento para a temporada está positivo, ele corre o risco de cair até para a quarta divisão, o que não acontece em outros países. Clubes franceses não possuem dívidas.

O controle fiscal é muito forte no país, fato que sofre muitas criticas dos amantes do futebol, pois afasta os jogadores mais bem pagos. Eles acabam escolhendo outros destinos, como a Inglaterra, onde pagam menos impostos e os clubes não tem responsabilidades fiscais e contábeis. Jogadores profissionais na França pagam muitos impostos, mas nunca deixarão de receber pelo seu trabalho realizado dentro de campo.

Em junho, o goleiro Rubinho, ex-Corinthians, concedeu entrevista à Trivela falando sobre o amadorismo das divisões inferiores na Itália e a existência de jogadores que buscavam ampliar sua renda vendendo produtos para outros e até mesmo participando de esquemas de apostas ilegais. Qual é a situação na França? Você já viu acontecer algo semelhante ou já imaginou que estivesse jogando uma partida manipulada?

Venda de outros produtos eu nunca presenciei. Por outro lado, apostar em jogos é uma pratica constante entre os jogadores franceses, embora eles nunca apostem em um jogo envolvendo a equipe em que atuam. Esta prática é ilegal. Mesmo a famosa mala branca, muito comum no Brasil, é muito mal vista na França e ainda não participei de um jogo com um incentivo oferecido por outra equipe para ganhá-lo.

Você acha que tem mais reconhecimento profissional na França? Pensa em voltar para o Brasil?

Creio que meu reconhecimento profissional ainda está por vir, na França ou no Brasil. Uma característica que me atrai na França é o fato de poder ser visto como um ser humano que tem um cérebro e uma vida fora dos campos, e não como apenas um jogador de futebol. O Brasil continua sendo minha terra natal, o país que eu amo e onde minha família se encontra, então, esta porta nunca estará fechada.

Sua formação universitária e o fato de falar quatro línguas (nota: além do português, Saad é fluente em inglês, francês e italiano) já te deu algum privilégio na carreira ou, por outro lado, certo desprezo, mais ou menos como o Kaká ou o já afirmaram sentir? A tua formação te faz pensar em seguir carreira como dirigente, técnico ou empresário de futebol após tua aposentadoria?

Nenhum privilégio. Muito mais dor de cabeça e um tratamento diferenciado, às vezes velado, mas na maioria das vezes flagrante. Jogadores com estudo não são bem vistos no meio do futebol, mas, apesar disso, tenho certeza que continuarei fazendo algo que gosto depois que parar de jogar, devido aos estudos que segui e dos quais sinto orgulho e não vergonha. Não penso em ser técnico ou empresário, mas por que não uma profissão mais “fácil”, como critica esportivo?

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