Um na mão, dois voando
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Dos clubes franceses na Liga dos Campeões, apenas o Lyon está com sua vaga para as oitavas de final bem encaminhada. O OL derrotou o Benfica e lidera sua chave com 100% de aproveitamento. Olympique de Marselha e Auxerre, por sua vez, invejam o compatriota. O AJA exibe um aproveitamento completamente inverso, com três derrotas. Já o OM sofreu para ganhar de uma equipe cujo nível está abaixo do sofrível.
Em um duelo crucial, o Lyon soube se impor ao Benfica. Méritos para Claude Puel, que escalou o time de uma maneira mais ofensiva, mas ao mesmo tempo sem abrir demais sua defesa. A chave foi a entrada de Pjanic no lugar de Källström, que deu maior profundidade à equipe. O meio-campo impediu o Benfica de armar qualquer jogada mais perigosa, e a dupla Gourcuff-Lisandro López rendeu bons frutos.
Mesmo com Gonalons como único volante, o Lyon teve o domínio do meio-campo, ainda mais com a expulsão de Gaitán ainda no primeiro tempo. O esquema de jogo dos lioneses também fluiu muito bem graças ao constante apoio dos laterais e pontas – principalmente na figura de Briand pela direita, que vai se firmando como um dos melhores jogadores do país nesta posição.
Nem tudo, porém, foi digno de elogios. Puel cometeu um erro que pode lhe causar problemas no futuro. Ao tirar Michel Bastos, que fazia excelente partida, e colocar Pied em seu lugar, o brasileiro mostrou não ter gostado nada da substituição. Tal troca, em um momento muito bom vivido pelo meia, pode deflagrar um desgaste desnecessário com um dos principais destaques do elenco. Puel precisa de tato para não estragar algo que tem funcionado de forma perfeita até aqui.
Assim como contra o Nancy, o Olympique de Marselha contou com a ajuda da arbitragem para derrotar o frágil Zilina em uma partida na qual não jogou bem. Apesar de os jogadores demonstrarem um ar de dever cumprido e uma serenidade como se tivessem goleado o Chelsea em Stamford Bridge, o OM segue em situação preocupante na LC. As chances matemáticas de classificação iludem a equipe, que mais uma vez exibiu suas limitações.
Há quem prefira apresentar um futebol pobre e vencer a ter um estilo mais agradável e patinar. O Olympique fez dois bons jogos contra Bordeaux e Monaco, mas os empates (1 a 1 e 2 a 2, respectivamente) em nada ajudaram o time. Contra o Zilina, o OM deu uma demonstração de sonolência aos seus torcedores e por pouco não se complicou.
Logo aos três minutos, Diawara cometeu pênalti ignorado pelo juiz. O gol da vitória marselhesa nasceu de um escanteio marcado de forma incorreta. Deschamps até mandou a campo uma equipe ofensiva, mas que não soube matar o adversário embora o dominasse. Algumas opções, como deslocar Brandão para atuar pelo lado esquerdo, também soaram estranhas. O time eslovaco mostrou problemas ainda piores, sobretudo em sua defesa mal posicionada.
O OM está a três pontos do Spartak Moscow e pode até alcançar o time russo na próxima rodada, mas a equipe fez muito pouco até aqui para merecer sua classificação para as oitavas de final. Enquanto a burocracia prevalecer em seu estilo de jogo, o Olympique continuará apenas como um coadjuvante na LC.
Por falar em participação especial, o Auxerre confirma as expectativas sobre seu destino na competição. Com metade dos jogos disputados, o AJA simplesmente perdeu todos. Há de se relevar o fato de a equipe ter caído no grupo mais ingrato possível, mas o time voltou a lamentar as chances perdidas diante do Ajax no Amsterdã Arena. A classificação para a Liga Europa se tornou um sonho distante, quase utópico.
As expulsões de Oliech e Mignot se somam às ausências de Jelen, Le Tallec, Licata, Langil, Sanogo e Traoré para o jogo seguinte diante do mesmo Ajax. Passivos, sem qualquer agressividade, os jogadores do Auxerre devem mesmo se contentar em fazer o papelão se tornar menos feio. Há na França quem lamente a classificação do AJA para esta edição da LC, pois acreditam que o Lille faria melhor. Usar suposições parece ser muito cruel, mas o Auxerre não teria muitas chances de avançar mesmo se tivesse caído em uma chave mais fácil.
Dia de fúria
Aos poucos, o Bordeaux demonstra sua recuperação na Ligue 1. A vitória por 1 a 0 sobre o Auxerre fora de casa fez a equipe subir para a primeira metade da tabela e dá um pouco mais de confiança ao elenco, mais maduro e consciente de suas possibilidades. No entanto, o segundo triunfo consecutivo dos girondinos teve um episódio negativo. Alou Diarra destoou de seus companheiros por um gesto no mínimo condenável e que provocou sua expulsão mais do que justa.
A cena foi a seguinte: durante a segunda etapa, Diarra recebeu um cartão amarelo, sinônimo de suspensão para a partida seguinte. Foi aí que o volante perdeu a cabeça, peitou o juiz Wilfried Bien de forma agressiva e o empurrou. Só restava ao árbitro a lógica decisão de expulsá-lo. Por sorte, o episódio não degringolou para uma baixaria ainda pior.
A atitude em si é reprovável em todos os sentidos, por mais que o árbitro estivesse errado em advertir o jogador (o que não foi o caso). Contudo, o caso se torna mais preocupante quando se sabe que Diarra ostenta a braçadeira de capitão dos Bleus. Laurent Blanc certamente tomará suas providências para mostrar ao volante que ele deve ser o exemplo para os demais jogadores e deve ter o equilíbrio emocional como uma de suas principais características.
Há quem venha dizer que se deve relevar por conta do calor do jogo e essas baboseiras todas. Ora, você pode reclamar de mil maneiras por uma decisão considerada injusta do juiz, mas nunca partir para cima dele como se fosse estapeá-lo. Além do absurdo da cena, Diarra pode pagar caro por seu acesso de fúria. O volante será julgado e pode pegar uma suspensão pesada.
Basta lembrar do que aconteceu com Youssouf Hadji em maio. O jogador do Nancy foi suspenso por seis meses por uma reação mais exaltada ainda durante a partida contra o Valenciennes. Embora a punição tenha sido cassada há algumas semanas, há algumas semelhanças aqui que preocupam. A comissão disciplinar da Ligue de Football Professionel não parece se importar tanto com o histórico de bom-mocismo dos envolvidos – Hadji se encaixava nesta categoria e, mesmo assim, foi punido com rigor.
Diarra está longe de ser um monstro, muito pelo contrário. O volante sempre demonstrou serenidade em campo; exatamente por isso, sua reação destemperada causou tamanho impacto. Poucos segundos após o momento de fúria, ele percebeu a besteira que fez, dirigiu-se ao árbitro e pediu desculpas, arrependido pelo episódio patético protagonizado por ele momentos antes.
Claro que Blanc não deixará de convocá-lo por temer que algum dia Diarra se dirija a ele da mesma forma como peitou o juiz. O treinador dos Bleus, porém, deve ter uma conversa longa com o jogador para deixar claro que, para exercer tal função, o capitão jamais deve explodir em campo. Uma lição aprendida na prática por Diarra, que a gravou da pior maneira possível.